Domingo, 18 de janeiro de 2026 A ativista venezuelana, ganhadora do Nobel da Paz de 2025, politizou a premiação, ao doá-la ao presidente dos...
Domingo, 18 de janeiro de 2026
A ativista venezuelana, ganhadora do Nobel da Paz de 2025, politizou a premiação, ao doá-la ao presidente dos EUA, Donald Trump
Imagem: White House - Redes Sociais /
Qualidade da foto melhorada com inteligência artificial
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| A medalha foi entregue na Casa Branca |
O posicionamento do Comitê do Nobel
A ativista política venezuelana María Corina Machado cumpriu sua promessa e presenteou o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, com a medalha de ouro que recebeu do Nobel da Paz de 2025. O encontro entre ambos ocorreu na última quinta-feira (15/1), na Casa Branca, na capital Washington. Com isso, ela contrariou o posicionamento do Comitê Norueguês do Nobel quanto à destinação do prêmio.
A medalha é cunhada em ouro 18 quilates, pesa 196 gramas e mede 6,6 centímetros de diâmetro. Na parte da frente, tem uma imagem de Alfred Nobel. No verso, a imagem de três homens nus com os braços em volta dos ombros uns dos outros, simbolizando a fraternidade, e a seguinte inscrição em latim: ‘pro pace et fraternitate gentium’ (‘pela paz e fraternidade das nações’, em tradução literal). A comenda foi desenhada pelo escultor norueguês Gustav Vigeland, em 1901.
Na Noruega, o episódio provocou indignação. O jornal Bergens Tidende repercutiu as críticas de políticos e intelectuais em torno do gesto da ex-deputada venezuelana. Para o secretário-geral de Ajuda Popular, Raymond Johansen, por exemplo, ‘é patético’. “Isto é incrivelmente constrangedor e prejudicial para um dos prêmios mais reconhecidos e importantes do mundo”, disse.
Para o presidente do Conselho Municipal para os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) em Oslo, Eividin Trædal, em artigo publicado no jornal Aftenposten, ‘a premiação entrará para a história como uma das decisões mais estúpidas já tomadas pelo Comitê do Nobel’.
“O Prêmio Nobel está sendo usado indevidamente para legitimar a transição dos EUA para um imperialismo descarado e sem qualquer fundamento. Embora o Comitê Nobel esteja formalmente correto ao afirmar que o prêmio não pode ser ‘transmitido’ dessa forma, deveria ter compreendido que o risco de um cenário como esse era grande.
Vários alertaram exatamente sobre isso. Apontaram que Machado havia apoiado a campanha de bombardeio indiscriminado do governo Trump no Golfo do México e defendido a intervenção militar. Também era sabido que os Estados Unidos haviam posicionado uma grande força militar nos arredores da Venezuela antes do anúncio da premiação. Os críticos estavam certos”, opinou Trædal.
Ainda segundo o Eividin Trædal, o Comitê Norueguês do Nobel precisa de independência. Atualmente, os membros são escolhidos pelo Storting – o parlamento unicameral –, com indicações marcadas de viés ideológico. O mandato de cada integrante é de seis anos, podendo ser prorrogado.
“(…) O Comitê Nobel deveria ser composto por especialistas independentes com conhecimento suficiente sobre o trabalho pela paz e áreas afins, e que sejam de fato capazes de dar continuidade a esse legado importante e honroso. Não podemos mais tolerar esse absurdo”, criticou.
Em meio às polêmicas em torno do galardão, o supracitado comitê já tinha se manifestado em duas ocasiões – 9 e 16 de janeiro deste ano –, sem citar nomes, para informar que a homenagem é ‘irrevogável’ e ‘intransferível’ a terceiros.
“O laureado com o Prêmio Nobel da Paz recebe dois símbolos centrais do prêmio: uma medalha de ouro e um diploma. Além disso, o prêmio em dinheiro é concedido separadamente. Independentemente do que aconteça com a medalha, o diploma ou o prêmio em dinheiro, o laureado original é e permanece sendo aquele que fica registrado na história como o ganhador do prêmio. Mesmo que a medalha ou o diploma passem posteriormente para a posse de outra pessoa, isso não altera a identidade de quem recebeu o Prêmio Nobel da Paz”, expressou a referida organização nessa sexta-feira (16), um dia após a medalha ter sido doada.
“O laureado não pode compartilhar o prêmio com outros, nem transferi-lo após o anúncio. O Prêmio Nobel da Paz também é irrevogável. A decisão é final e perpétua.
(...) Não existem restrições nos estatutos da Fundação Nobel sobre o que um laureado pode fazer com a medalha, o diploma ou o prêmio em dinheiro. Isso significa que um laureado tem a liberdade de guardar, doar, vender ou conceder esses itens”, completou a entidade, ao mencionar alguns ganhadores, que ao longo da história, venderam ou doaram o galardão.
Um exemplo citado foi o do jornalista russo Dmitry Muratov, Nobel da Paz de 2021. Em junho de 2022, ele vendeu a medalha por US$ 103,5 milhões – R$ 542 milhões na cotação da época – e doou todo o dinheiro para um programa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) voltado para crianças refugiadas ucranianas. Nesse caso, cabe destacar o contexto da guerra da Rússia contra a Ucrânia, que completará quatro anos no próximo dia 24 de fevereiro.
Outro caso emblemático foi o do escritor norueguês Knut Hamsun, vencedor do Nobel de Literatura de 1920. Em 1943, ele viajou para a Alemanha, onde se encontrou com o ministro da Propaganda, Joseph Goebbels. Depois de retornar à Noruega, doou sua medalha ao então representante do governo nazista para agradecê-lo pelo encontro. O paradeiro da insígnia é desconhecido.
Desfeita ou desprendimento?
O que parecia uma escolha supostamente acertada se tornou um erro ‘irrevogável’ por parte do Comitê Norueguês do Nobel, por premiar a luta de María Corina Machado contra o regime do agora ex-presidente Nicolás Maduro. O presente a Trump tem caráter político e ideológico, mas, também, é de um vira-latismo sem precedentes.
Para críticos da líder opositora venezuelana e do mandatário estadunidense, pode soar como uma desfeita ou ingratidão, tendo em vista que para muitos ela não merecia um Nobel, por ter apoiado em diversas ocasiões uma invasão armada para derrubar o governo. Além disso, os críticos consideram que o republicano não seja digno de tal honraria. Na prática, o gesto da ex-deputada validou os argumentos de seus opositores.
Para os simpatizantes de Machado e de Trump, a atitude demonstrou desprendimento, desapego, abnegação ou coisa que o valha. No entanto, não há ingênuos em nenhum dos lados, e ela se submeteu voluntariamente a passar por tal humilhação.
Mesmo o governante republicano dizendo que ela não tem condições de comandar a Venezuela, por não contar com o apoio dos chavistas, a ideia de querer agradá-lo pode ser uma tentativa de afagar o ego e influenciá-lo, com o tempo, a entregar o poder do país à oposição em vez de deixá-lo nas mãos de Delcy Rodríguez – vice-presidente de Maduro que se tornou presidenta interina com o aval do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) e dos Estados Unidos.
Em agosto passado, dois meses antes da revelação do Nobel da Paz, Trump teria telefonado para o ministro das Finanças da Noruega, Jens Stoltenberg, para discutir tarifas comerciais e a indicação do prêmio, revelou o portal Dagens Næringsliv.
Quando o Comitê Norueguês do Nobel revelou o nome de Machado como laureada, em outubro de 2025, a Casa Branca havia acusado a instituição de priorizar ‘a política acima da paz’, em vez de homenagear seu mais ilustre hóspede.
O homem mais poderoso do mundo e dono de um império comercial não é apenas megalomaníaco e ambicioso. Também é invejoso. De acordo com uma reportagem do Wall Street Journal (WSJ), ele teria, supostamente, se irritado ou ficado magoado com o fato de María Corina Machado ter aceitado o cobiçado Nobel da Paz.
A premiação é sempre relativa ao ano anterior. No caso da ex-parlamentar venezuelana, o galardão se deve à atuação em 2024 para comprovar que as eleições presidenciais foram supostamente fraudadas pela ditadura de Nicolás Maduro. Naquele ano, Trump ainda não tinha assumido o poder, e todas as suas ações ocorreram a partir de 2025.
O chefe do governo estadunidense tem ‘a faca, o queijo e o prato’ na mão para negociar a paz e impor suas ameaças e chantagens mundo afora, enquanto a ativista venezuelana estava em total desvantagem, o que em teoria justifica a premiação. Vítima de um regime, ela perdeu os direitos políticos em 2015 – há mais de 10 anos – e não pode disputar eleições desde então, porque é considerada uma ‘traidora’ pelo chavismo, por ter ocupado o assento do Panamá na Organização dos Estados Americanos (OEA) para denunciar as violações de direitos humanos em seu país.
Sem condições para um Nobel
Imagem: White House - Redes Sociais
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| O gesto de María Corina Machado lembrou o do escritor norueguês Knut Hamsun |
Talvez essa medalha presenteada seja o mais perto que Donald Trump chegará de um Nobel. Com todas as letras, ele não tem condições para ganhar um. Laureá-lo seria legitimar suas investidas autocráticas e ditatoriais, além de descredibilizar o caráter da premiação, pois, assim como a insígnia valoriza seu homenageado, este também dá significado ao galardão.
O líder republicano completará um ano de seu segundo mandato na próxima terça-feira (20). No decorrer de 12 meses, criou guerra tarifária com inúmeros países – entre eles Brasil, Canadá, China, Índia, União Europeia etc. –, traiu aliados históricos dos Estados Unidos, por várias vezes falou em anexar o Canadá e agora tenta na marra comprar ou tomar a Groenlândia sob o pretexto da segurança nacional, além de colocar em risco a continuidade da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Com Trump, o mundo ficou mais inseguro e mais perigoso. Qualquer parte do mundo poderá se tornar alvo. Para ele, a América Latina é quintal dos Estados Unidos.
Um eventual Nobel da Paz a Trump por tentar negociar o fim do conflito entre Rússia e Ucrânia ou por buscar uma saída negociada para o genocídio israelense contra civis palestinos na Faixa de Gaza pode não ser o suficiente para justificar tal premiação. Os membros do Comitê Norueguês do Nobel estariam sendo seletivos em olhar a parte em vez do todo de um possível homenageado nessa política de ‘morde e assopra’ do trumpismo.
Em apenas um ano no cargo, o presidente norte-americano ordenou bombardeios a embarcações em águas caribenhas com a desculpa de combater narcotraficantes, contudo sem comprovar que as vítimas seriam, de fato, delinquentes.
Recentemente, o líder estadunidense cogitou ordenar ataques terrestres contra cartéis de drogas no México e ameaçou a ditadura cubana a fechar algum acordo com sua administração. São inúmeros exemplos de violações de soberania.
Trump intimidou o governo do Panamá a romper negociações com a China e ameaçou recuperar o controle do Canal do Panamá. Também ordenou a captura de Nicolás Maduro sob a justificativa de que o ex-ditador seria o suposto líder do Cartel de los Soles, mas, posteriormente, seu governo recuou da acusação sobre a existência dessa facção criminosa. Em coletivas de imprensa, admitiu que a real motivação era controlar o petróleo venezuelano para favorecer empresas norte-americanas e romper o vínculo com os chineses.
O mandatário norte-americano também tem se intrometido na política interna de outros países: tentou interferir no julgamento do ex-presidente do Brasil Jair Bolsonaro (PL-RJ), ao sancionar com a Lei Magnitsky o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF); ao ameaçar cortar ajuda financeira a Honduras se o candidato a presidente Nasry ‘Tito’ Asfura não fosse eleito; e ao criticar a Justiça israelense num processo contra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, por supostos delitos de corrupção.
Em dezembro passado, o governo Trump sancionou quatro juízes do Tribunal Penal Internacional (TPI), por conta das investigações contra autoridades israelenses no genocídio praticado em desfavor de civis palestinos em Gaza.
Também não se pode olvidar a perseguição implacável do governo Trump contra imigrantes em situação ilegal nos Estados Unidos, principalmente contra latino-americanos. Estão tratados como criminosos e vários deles transferidos para prisões em El Salvador.
A única coisa previsível em Donald Trump é sua imprevisibilidade. Resta saber do que seria capaz de fazer se não for laureado com um Nobel da Paz em 2026.



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