Terça-feira, 13 de janeiro de 2026 O pedido da presidenta Xiomara Castro ocorre faltando algumas semanas para deixar o cargo; medida é rejei...
Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
O pedido da presidenta Xiomara Castro ocorre faltando algumas semanas para deixar o cargo; medida é rejeitada pela presidenta do Conselho Nacional Eleitoral
Imagens: Redes Sociais - Divulgação / Qualidade das fotos melhoradas com inteligência artificial - Arte: Opinólogo
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| Trump é considerado o pivô da crise política em Honduras, ao apoiar o candidato Nasry Asfura na eleição para presidente; a interferência incomodou a presidenta Xiomara Castro |
Acusações de irregularidades no pleito
As crises política e institucional em Honduras ganharam um novo capítulo nos últimos dias. Faltando algumas semanas para deixar o cargo, a presidenta Xiomara Castro, do Partido Liberdade e Refundação (Libre, em espanhol) sancionou um decreto legislativo – publicado na Gazeta Oficial, equivalente ao diário oficial, na última sexta-feira (9/1) – no qual determina ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE) a recontagem dos votos para presidente. O documento foi aprovado por 69 dos 128 deputados.
Em carta aberta postada nas redes sociais e dirigida ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Xiomara Castro, que concluirá seu mandato no próximo dia 27 de janeiro, convida seu homólogo a um ‘diálogo direto e franco sobre o processo eleitoral em Honduras, em particular sobre seus pronunciamentos públicos na rede social X a favor do cidadão Nasry Asfura’.
“Eu lhe convido respeitosamente que sustentemos um diálogo direto e franco sobre o processo eleitoral em Honduras, em particular sobre seus pronunciamentos públicos na rede social X a favor do cidadão Nasry Asfura, os quais influenciaram negativamente no desenvolvimento do processo democrático e afetaram a nossa candidata”, escreveu a mandatária hondurenha num trecho de nota.
De acordo com a líder do país centro-americano, ‘o CNE se negou injustificadamente a realizar o escrutínio de 4.774 atas, que representam os votos de 1.558.689 cidadãs e cidadãos nos três níveis eleitorais’.
“Esta omissão usurpa a soberania popular, ao desconhecer sem causa legal o voto de mais de um milhão de hondurenhos que acudiram às urnas. Constitui uma grave violação à Constituição da República, que estou obrigada a cumprir e defender até o último dia do meu mandato (…)”, continuou Xiomara Castro.
A líder hondurenha se referia ao pleito de 2017, também marcado por suspeitas de fraude, que culminou na reeleição do então presidente Juan Orlando Hernández, contra seu principal opositor, Salvador Nasralla. Este também ficou em segundo lugar na eleição de 2025.
A presidenta também acusou o CNE de não ter solucionado 292 impugnações apresentadas em tempo hábil acerca de supostas inconsistências, adulteração de atas eleitorais, votos fraudados, urnas infladas, mais de 500 mil votos sem biometria, alterações no sistema de computação de votos, fraude e compra de votos.
“Não serei cúmplice do cinismo institucional dos órgãos eleitorais criados para garantir o direito a eleger e ser eleito, que, depois de dolorosa história de fraude que Honduras viveu, especialmente em 2017, voltaram a abdicar frente a intromissão estrangeira, num ambiente de ameaça a Estados soberanos.
O que acontece não é uma crise de leis, é uma crise ética, moral e de valentia democrática e republicana. É o abandono do dever de construir a pátria sobre o princípio mais sagrado: a independência nacional e o voto do povo”, continuou Xiomara Castro.
CNE rejeita legalidade do decreto
Nas redes sociais, a conselheira Ana Paola Hall García, presidenta do CNE, rejeitou a legalidade do decreto legislativo, ao alegar que o órgão é autônomo e que o texto deveria ter sido aprovado por dois terços dos deputados, o que não ocorreu. Foram 69 votos favoráveis num universo de 128 parlamentares.
A dirigente do organismo eleitoral também acusou alguns membros de juntas eleitorais – sem nominá-los – de tentar sabotar o processo eleitoral e instou as Forças Armadas para que continuem vigilantes em questões eleitorais e defendam a alternância de poder.
Breve histórico da crise
Em Honduras, são as raposas que tomam conta do galinheiro. O Conselho Nacional Eleitoral é controlado por três conselheiros, cada um ligado a um dos maiores partidos políticos do país: Ana Paola Hall García, do Partido Liberal; Cossette Alejandra López-Osorio, do Partido Nacional, o mesmo do presidente recém-eleito; e Marlon David Ochoa, do Partido Libre, o mesmo de Xiomara Castro.
A crise começou a ser gestada antes mesmo das eleições ocorridas no último dia 30 de novembro. Em meados de 2025, o conselheiro eleitoral Marlon Ochoa deixou de comparecer a reuniões no CNE, o que provocou atraso na contratação de uma empresa especializada em sistema eleitoral.
As intromissões indiretas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, são o pano de fundo para parte dessa crise. Por meio das redes sociais, declarou apoio à eleição de Nasry ‘Tito’ Asfura, do Partido Nacional, e ameaçou suspender ajuda financeira ao país se o candidato da direita não vencesse o pleito. Ademais, às vésperas do pleito, concedeu indulto ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, que cumpria pena de 45 anos em presídio norte-americano após ser condenado por narcotráfico e lavagem de dinheiro.
O candidato vitorioso teve um encontro com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, em Washington, nessa segunda-feira (12). Para bom entendedor, essa agenda bilateral vai além de um simples gesto. Trata-se de um evidente sinal de apoio político em meio à crise que persiste em Honduras.
A vitória de Nasry ‘Tito’ Asfura marca um novo capítulo na América Latina, a começar pela ingerência de Donald Trump em processos eleitorais, a guinada ideológica em Honduras e na região, ademais o fracasso da candidata governista Rixi Moncada, do Libre, que amargou o terceiro lugar. O governo coloca em xeque a legitimidade do pleito como forma de não assumir seu próprio fracasso e de não ter conseguido influenciar o eleitorado para que o partido se mantivesse no poder.
A contagem de votos foi paralisada por vários dias, devido a um problema no sistema de computação dos votos, cujo procedimento teve de ser refeito, tendo sido concluída 24 dias após a eleição, mais precisamente no último dia 24 de dezembro. No decorrer dessas três semanas, tanto a presidenta Xiomara Castro quanto o conselheiro Marlon Ochoa ameaçaram não reconhecer a validade dos resultados, ao alegarem suposta ‘fraude’.
Nasry Asfura, do Partido Nacional, conquistou 40,29% dos votos válidos; Salvador Nasralla, do Partido Liberal, 39,54%; e Rixi Moncada, do Libre, 19,20%. Outros dois candidatos não lograram um por cento de voto cada.
Em meio aos atrasos na contagem dos votos, as conselheiras eleitorais Ana Paola e Cossette Alejandra precisaram se esconder por receio de serem presas num suposto conluio entre dirigentes políticos e o Ministério Público.
A Secretaria-Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) divulgou nota, na última sexta-feira (9), acusando ‘um grupo reduzido e não plural de deputados hondurenhos (...) de criar obstáculos a transição’ de poder. Ademais, criticou a intervenção e criminalização de conselheiros do CNE com a participação do Ministério Público’.


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