Terça-feira, 03 de março de 2026 As vítimas são aliciadas com falsas promessas de trabalho e ganhos fáceis Imagem: Gerada por inteligência a...
Terça-feira, 03 de março de 2026
As vítimas são aliciadas com falsas promessas de trabalho e ganhos fáceis
Imagem: Gerada por inteligência artificial para Opinólogo - Foto ilustrativa
A recomendação
O Itamaraty reforçou um alerta, recomendando que brasileiros rejeitem ofertas de trabalho em países asiáticos como Camboja, Laos, Myanmar e Tailândia, devido ao risco de se tornarem vítimas de tráfico de pessoas.
De acordo com o comunicado – publicado em fevereiro de 2025 e atualizado há duas semanas –, ‘os brasileiros aliciados, em sua maioria jovens com conhecimentos em informática, são recrutados por meio de redes sociais com falsas promessas de emprego em ‘call centers’ ou supostas empresas de tecnologia’.
“(...) As ofertas direcionadas, especificamente a brasileiros, incluem salários aparentemente atrativos, comissões por ‘ativos’ vendidos e custeio de passagens aéreas”, alertou o Ministério de Relações Exteriores.
Ainda segundo o órgão, ‘o resgate das pessoas traficadas é altamente complexo e depende exclusivamente da atuação das autoridades policiais do país onde se encontram’.
As vítimas são submetidas a agressões físicas e verbais, ameaças e forçadas a se prostituírem, aplicar golpes em jogos de azar e de criptomoedas, além de relacionamentos amorosos fictícios e são coagidas a aliciar outros indivíduos de mesma nacionalidade.
Existem várias formas de tráfico de pessoas: exploração sexual, extração de órgãos, adoção ilegal, trabalho escravo no futebol e também no ambiente doméstico, para fins de mendicância e criminalidade forçada – incluindo aplicar golpes virtuais.
“Diante desse cenário, o Itamaraty recomenda não aceitar ofertas de trabalho no Sudeste Asiático que prometem ganhos elevados, contratação rápida ou intermediação informal”, recomendou a pasta.
Tráfico de pessoas no mundo e no Brasil
Para a advogada Michelle Gueraldi – especialista em direito internacional e direitos humanos –, em conversa com Opinólogo, as ações do governo federal no enfrentamento ao tráfico internacional de pessoas precisam ir além de notas em sites.
“Essa nota [do Itamaraty] não é suficiente. Tem que haver políticas públicas efetivas, campanhas de conscientização em aeroportos, nas redes sociais, em jornais, nas emissoras de rádio e de televisão e também em parceria as companhias aéreas para fazer com que isso chegue aos jovens, os principais alvos dessas quadrilhas de tráfico internacional de pessoas”, analisou.
Ainda segundo a advogada, muitas das pessoas que se tornaram vítimas dessa modalidade de crime não tinham acesso à informação sobre como se proteger nesses casos.
“Acho que o governo está fazendo esse alerta, porque não tem como impedir essas pessoas de viajar, por uma questão de liberdade, e o tráfico de pessoas é um problema mundial. Sabe-se que existe um perfil de busca por vítimas, mas cabe à pessoa não ir, cabe à pessoa se proteger, mas, muitas vezes, ela não teve acesso à informação, daí quando percebe, já está nas mãos do traficante e não tem o que fazer. É muito difícil a pessoa deixar de se tornar uma mercadoria, porque a vítima não fala aquele idioma, está vivendo em penúria ou sequer sabe onde está”, completou a jurista.
Além de atuar em áreas como direito internacional e direitos humanos, Michelle Gueraldi é especialista em temas como tráfico de pessoas e direito da imigração, doutora em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e autora do livro ‘Em busca do Éden: tráfico de pessoas e direitos humanos, experiência brasileira’.
Relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC) – divulgado em 2024 – aponta que entre 2020 e 2023 foram identificados 202.478 vítimas de tráfico de pessoas em 156 países.
O tráfico de pessoas não é só do Brasil para fora. Também ocorre em sentido oposto. Em 2024, o Ministério da Justiça e Segurança Pública apresentou o Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas. Os dados são relativos ao período de 2021 a 2023 e apontam que 8.399 pessoas foram resgatadas em trabalho análogo à escravidão. A maioria das vítimas é masculina, de 18 a 29 anos e das raças preta ou parda.
Paraguaias, venezuelanas e bolivianas estão entre as nacionalidades mais resgatadas no Brasil, respectivamente, em trabalhos análogos à escravidão, de acordo com o documento governamental. Esses fluxos migratórios têm como perfis vítimas que viajam em busca de oportunidades de trabalho. No caso da Venezuela, por exemplo, estão as crises política e econômica decorrentes da escassez de alimentos durante o governo do então presidente Nicolás Maduro.
Brasileiros resgatados
Em fevereiro do ano passado, por exemplo, dois brasileiros foram resgatados, após conseguirem fugir do cativeiro. Luckas Viana dos Santos, de 32 anos, e Phelipe de Moura Ferreira, de 27 anos, foram seduzidos com falsa promessa de emprego na Tailândia, mas foram sequestrados e levados para uma central de golpes – ‘scam centre’ – em Myanmar, em novembro de 2024.
Em outubro de 2025, a Justiça chinesa condenou 39 criminosos de uma mesma família que aplicavam esse tipo de golpes contra cidadãos chineses na vizinha Myanmar. Dos acusados, 11 foram sentenciados à morte.
Após a repercussão da imprensa internacional sobre o veredito na China, o brasileiro Phelipe Ferreira teria reconhecido que entre os condenados estaria um dos líderes da organização que mantinha a dupla como refém, noticiou o portal G1.
De modo geral, certos fatores dificultam o resgate das vítimas, a começar pelo fato de não conhecerem o país aonde vão, bem como a transferência para outra nação – para dificultar o paradeiro –, além do idioma e eventuais questões diplomáticas.
Ademais, segundo organizações de direitos humanos e de defesa da liberdade de imprensa, entre elas Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e Comitê de Proteção a Jornalistas (CPJ), periodistas que denunciam cibercrimes no Camboja costumam enfrentar ameaças e represálias, o que dificulta a transparência sobre a atuação de órgãos estatais no combate às práticas delituosas.
No último dia 3 de fevereiro, por exemplo, o jornalista cambojano Hem Vanna, do canal independente HVNN TV Online, foi preso pela polícia mediante acusação de ‘interceptação ou gravação de conversas e de incitação ao crime’. Se condenado, poderá cumprir pena de três anos.
Hem Vanna publicou uma reportagem em vídeo, no último dia 30 de janeiro, em que cidadãos chineses vítimas de golpes do falso emprego eram agredidos num cativeiro situado a 100 metros de uma delegacia de polícia, de acordo com RSF.
Num ranking de 180 países, o Camboja ocupa a posição de número 161, estando entre as piores, conforme dados de 2025 da organização não governamental Repórteres Sem Fronteiras.


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