Domingo, 26 de julho de 2026 Itamaraty nega visto a diplomatas norte-americanos que viriam ao país questionar a lisura das urnas eletrônicas...
Domingo, 26 de julho de 2026
Itamaraty nega visto a diplomatas norte-americanos que viriam ao país questionar a lisura das urnas eletrônicas; Brasil convoca embaixador em Buenos Aires após insultos de Javier Milei contra Lula e Alexandre de Moraes
Imagem: Gerada por inteligência artificial para Opinólogo
![]() |
| No tabuleiro ideológico, o jogo é entre direita e esquerda; ou o Brasil está tendo que jogar o jogo dos Estados Unidos |
Vistos negados
As inúmeras tentativas de ingerência do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a economia e a soberania brasileiras já não podem mais ser vistas como meros fatos isolados. Estão em profunda sintonia com as revelações do Hondurasgate sobre um suposto complô internacional para interferir na política de países latino-americanos e impedir que candidatos de esquerda cheguem ou permaneçam no poder.
O mais recente capítulo dessa alegada trama golpista foi revelado pelo diário The Washington Post, nessa sexta-feira (24/7). O Departamento de Estado norte-americano pretendia enviar ao Brasil, nos próximos dias, uma delegação ‘para lançar dúvidas sobre a lisura e a integridade do sistema eleitoral’. Para bom entendedor, seria questionar a confiabilidade das urnas eletrônicas e reabrir uma ferida que deixou cicatrizes na democracia da nação sul-americana.
A versão oficial é de que a missão diplomática estadunidense se reuniria com políticos, líderes religiosos e representantes da sociedade civil, cujos nomes não foram divulgados, para discutir acerca da ‘integridade eleitoral’, da liberdade de expressão e da liberdade religiosa.
O Itamaraty entendeu que a visita extrapolava as justificativas oficiais, agiu depressa e negou vistos a funcionários do segundo escalão como o secretário-adjunto Riley M. Barnes e o subsecretário-adjunto Samuel D. Samson.
A reportagem destacou que o subsecretário-adjunto Samuel Samson já esteve em países da África e da Europa para promover ‘a política conservadora do presidente Donald Trump, cultivando laços com grupos de direita, por vezes, alienando políticos tradicionais’.
A vinda da missão norte-americana ocorreria uma semana após um encontro do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) – que é candidato a presidente – com diplomatas. Ele fez críticas ao sistema eleitoral brasileiro e tentou colocar em xeque a legitimidade do processo democrático, o mesmo que o elegeu junto a seus familiares por décadas. Com isso, ele repetiu um gesto do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ), durante as eleições de 2022.
Hondurasgate
O Hondurasgate consiste no vazamento de uma série de áudios disponibilizados no portal homônimo, em abril deste ano, os quais foram filtrados por Canal Red e Diario Red. Apenas 37 mensagens de voz – de um total de 300 – foram divulgadas até o momento, mas o suficiente para colocar em alerta a esquerda no continente, apesar de grande parte da imprensa tradicional ter ignorado o escândalo de proporções diplomáticas.
O nome Hondurasgate faz alusão a áudios atribuídos ao ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández, que aparece como suposto operador de um esquema para promover uma guerra midiática contra líderes latino-americanos de esquerda. Em conversas com o presidente hondurenho, Nasry ‘Tito’ Asfura, e com a vice-presidenta María Antonieta Mejía, ele teria pedido dinheiro para alugar um apartamento nos Estados Unidos, onde montaria um escritório e alimentaria um site com notícias.
De acordo com as mensagens vazadas, o objetivo seria ‘extirpar o câncer da esquerda daí de Honduras e de toda a América Latina’, tendo como alvos iniciais a presidenta do México, Claudia Sheinbaum, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, além do casal Xiomara Castro e Manuel Zelaya, ambos ex-presidentes hondurenhos.
A líder mexicana não foi alvo direto dos assédios do governo estadunidense, mas pessoas do seu entorno, sim, com pedidos de extradição de políticos ligados ao Movimento Regeneração Nacional (Morena) por acusações não comprovadas sobre supostos vínculos com cartéis de drogas, segundo o governo latino-americano. Entre os denunciados estão o governador de Sinaloa, Rubén Rocha Moya, e o prefeito de Culiacán, Juan de Dios Gámez Mendívil. Ambos se licenciaram dos cargos para que o Ministério Público asteca pudesse investigá-los.
As relações entre Trump e Sheinbaum estão fragilizadas desde que o governo estadunidense realizou uma operação contra narcotraficantes no México sem o conhecimento do governo federal, em abril deste ano, algo que pode ser visto como uma afronta à soberania. Na ocasião, dois agentes da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA, na sigla em inglês) e dois promotores de Justiça mexicanos morreram num acidente de automóvel.
No caso da Colômbia, por exemplo, as investidas não foram diretas. Partiram de um aliado de Trump. Em pleno período eleitoral, o presidente do Equador, Daniel Noboa, criou uma guerra comercial, ao impor tarifas de 100% sobre produtos colombianos, mediante alegação de que seu homólogo Gustavo Petro não estaria fazendo o necessário para combater os cartéis de drogas. De algum modo, isso pode ter influenciado na vitória do presidente eleito Abelardo de la Espriella, que é de direita e faz oposição ao governo atual.
Em uma das conversas vazadas pelo Hondurasgate, Juan Orlando Hernández teria confessado que o presidente da Argentina, Javier Milei, que é de extrema direita, supostamente doou US$ 350 mil – cerca de R$ 1,83 milhão – para essa empreitada golpista, além de um ‘amigo’ no México que não foi citado nominalmente.
Quando os áudios se tornaram públicos, apenas Juan Orlando Hernández se manifestou, tendo negado sua veracidade. Os demais envolvidos se omitiram ou preferiram fingir que nunca existiram. Afinal de contas, acabariam dando publicidade e alardeando o escândalo.
Em novembro passado, dois dias antes da eleição presidencial em Honduras, Donald Trump anunciou numa rede social que concederia indulto presidencial a seu aliado político Juan Orlando Hernández. Ele cumpria pena de 45 anos num presídio em Nova York, desde 2024, por ter facilitado a entrada de armas e de cocaína do país centro-americano para os Estados Unidos e por ter recebido financiamento eleitoral do narcotraficante Joaquín ‘El Chapo’ Guzmán no montante de US$ 1 milhão – cerca de R$ 2 milhões na cotação de 2013.
O perdão presidencial foi oficializado alguns dias depois. Na época, a então presidenta de Honduras, Xiomara Castro, que é de esquerda, acusou o governo norte-americano de interferir no processo político, que culminou com a eleição de Nasry Asfura. Para além das interferências políticas, o suposto lobby formado pelo presidente Donald Trump e pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, teria por intuito reconduzir Juan Orlando Hernández ao poder na eleição de 2030.
Nova guerra fria e a demonização da esquerda latino-americana
Nos áudios vazados até então, não há nenhuma menção ao Brasil nem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP). No entanto, as sistemáticas tentativas de intromissão em questões internas evidenciam um modus operandi, incluindo outros fatores que reforçam teorias que serão abordadas mais adiante.
A conferência ‘Shield of Americas’ (‘Escudo das Américas’, em tradução literal), ocorrida em março deste ano, em Miami, cujo anfitrião foi Donald Trump, não deve ser vista como uma simples reunião de chefes de Estado de direita latino-americanos. Ela sinaliza a formalização de uma espécie de pacto para a implementação de uma nova guerra fria de caça às bruxas para demonizar a esquerda na região.
Durante o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Palácio do Planalto, nesse sábado (25) em São Paulo, entre os presentes estava o presidente da Argentina, Javier Milei, que, com sua tradicional falta de decoro, se referiu a Lula (PT-SP) como ‘presidiário’ e ‘ladrão’, criticou sua política econômica e chamou de ‘lixo careca’ o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O magistrado não lhe permitiu visitar o colega Jair Bolsonaro (PL-RJ), que cumpre prisão domiciliar na condenação por atos golpistas.
O envolvimento direto de um chefe de Estado estrangeiro numa campanha eleitoral é algo sem precedentes na política brasileira. A participação de Javier Milei, que pretende espalhar a ‘onda azul’ para tirar os vermelhos do poder – em referência à esquerda – vai ao encontro do Hondurasgate, embora seja sabido que ele e o petista nunca se entenderam, apesar de o Brasil ser historicamente o maior parceiro comercial da Argentina.
Imagem: Redes Sociais - Divulgação
![]() |
| Durante discurso, Milei ataca Lula e Alexandre de Moraes |
No último dia 16 de julho, o Departamento de Estado norte-americano, comandado pelo secretário Marco Rubio, promoveu um encontro com representantes de diversas nações para tratar do ‘ressurgimento do terrorismo político de esquerda’.
Nas redes sociais, o chefe da diplomacia estadunidense tem publicado reiteradas críticas no que considera o regime cubano como ‘principal patrocinador do esquerdismo radical e do terceiro-mundismo nos Estados Unidos’.
Na última segunda-feira (20), a chancelaria norte-americana publicou um documento de 100 páginas intitulado ‘Cuba: The Capital of 21st Century Communism’ (‘Cuba: a capital do comunismo no Século 21’, em tradução literal). O relatório classifica o regime de Havana como agente espião e sabotador. Além disso, acusa o governo da ilha de promover o terrorismo em países latino-americanos, africanos e asiáticos, bem como apoiar e treinar militar e ideologicamente movimentos insurgentes contra governos alinhados aos Estados Unidos.
Assédios contra o Brasil
Brasil e México são as duas maiores economias da América Latina. Atualmente, governados por líderes de esquerda, ambos formam uma frente de resistência contra os constantes assédios e desmandos de Donald Trump e seus assessores.
Em 2025, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) abriu investigações contra o Brasil pelo que considera como ‘práticas comerciais desleais’ por supostas falhas no combate ao desmatamento ilegal, pelo pix ‘prejudicar’ os interesses de empresas norte-americanas de cartões de crédito, por regular plataformas digitais, por conceder tarifas preferenciais a parceiros como México e Índia, por dificuldade no combate à pirataria, entre outras questões.
Independentemente da resposta brasileira e dos intentos de negociação, já se dava como certo de que o país sul-americano seria alvo de novas taxações. Na última quarta-feira (22), entrou em vigor uma alíquota de 25% sobre produtos brasileiros devido à priorização do pix, falta de reciprocidade no acesso ao mercado de etanol, além de questões ambientais e corrupção.
O chanceler estadunidense, Marco Rubio, se manifestou na ocasião e tentou imputar culpa a Lula sobre o ‘tarifaço’ de 25%: “(...) O presidente Lula e seu governo não negociaram com os Estados Unidos de boa-fé. Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. No último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso”.
Dois dias depois dessa sanção econômica, nessa sexta-feira (24), o Brasil passou a ser sobretaxado em mais 12,5% sob alegação de que não combateu devidamente o trabalho forçado. As alíquotas somadas chegam a 37,5%.
Em artigo publicado neste domingo (26) no Washington Post, o presidente Lula (PT-SP) tachou as tarifas de ‘erro estratégico’ e disse que o governo Trump desconsiderou dezenas de reuniões sobre o assunto.
“Além de injustas, as novas tarifas são um erro estratégico: elas prejudicam a economia dos Estados Unidos e a parceria com o Brasil. Diversos segmentos industriais dos Estados Unidos dependem de insumos brasileiros. Alimentos, calçados, têxteis, móveis, autopeças e vários outros produtos chegarão mais caros ao consumidor norte-americano”, escreveu o mandatário brasileiro.
“Apesar da longa história de intervenções políticas e militares dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe, houve momentos em que Washington soube ser um parceiro à altura de nossos interesses de desenvolvimento”, continuou Lula.
“Tentativas de impor amarras ideológicas à parceria bilateral, ou de instrumentalizá-la para fins eleitorais, não se sustentam. Nunca antes um secretário de Estado norte-americano havia qualificado o Brasil como um país não-amigo. Ninguém vai nos derrotar com base em mentiras”, completou.
No início deste mês de julho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participou, de forma autônoma e sem qualquer vínculo com o governo brasileiro, de uma audiência na USTR e pediu que essas taxas comerciais só fossem aplicadas após as eleições, de modo a não atrapalhar a sua campanha. Segundo ele, favorece o adversário petista em sua narrativa sobre defesa da soberania. Apesar disso, não teve o apelo atendido.
No ano passado, a nação sul-americana já tinha sido alvo de um ‘tarifaço’ de 50% em retaliação às discussões na suprema corte quanto à responsabilização das big techs acerca de postagens sobre golpe de estado, pedofilia, bullying nas escolas etc. A Casa Branca também tentou pressionar o STF a não prosseguir com o processo criminal contra Jair Bolsonaro (PL-RJ) por envolvimento em questões que resultaram nos atos golpistas do 8 de janeiro de 2023.
A primeira taxação imposta ao Brasil foi fruto de uma campanha de desprestígio promovida pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-RJ) – outro filho de Jair Bolsonaro – e do jornalista Paulo Figueiredo, neto do ex-presidente ditador João Figueiredo. Ambos residem há mais de um ano nos Estados Unidos e se dizem perseguidos políticos.
Os assédios por parte do governo Trump incluíram inserir o nome do ministro Alexandre de Moraes e de sua esposa, a advogada Viviane Barci, na Lei Magnitsky. A lista o tratava como violador dos direitos humanos no caso do ex-mandatário brasileiro e impedia que o casal tivesse cartões de crédito de bandeiras norte-americanas e acesso às redes sociais, todas de empresas daquele país. Ademais, assessores da Casa Branca publicavam reiterados insultos e críticas contra o magistrado no intento de pressioná-lo, o que foi em vão. Graças a um pedido de Lula (PT-SP) diretamente a Trump, os dois foram retirados da referida listagem de sancionados.
Os constantes ataques contra a economia e a Justiça brasileiras serviram para impulsionar a imagem do presidente Lula (PT-SP), até então desgastada. O petista soube explorar o discurso de defesa da soberania e mobilizar a opinião pública. Embora tenha ameaçado aplicar tarifas recíprocas aos Estados Unidos, as medidas nunca foram colocadas em prática – uma estratégia para sinalizar ao empresariado a paciência e a disposição em esgotar as negociações com Washington.



COMMENTS