Terça-feira, 05 de maio de 2026 O alegado esquema seria operado pelo ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández, nos Estados Unidos; s...
Terça-feira, 05 de maio de 2026
O alegado esquema seria operado pelo ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández, nos Estados Unidos; segundo os portais Canal Red e Hondurasgate, teria contado com financiamentos supostamente atribuídos a Benjamin Netanyahu, Javier Milei e a outros agentes políticos
Imagem: Redes Sociais - Divulgação
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| Juan Orlando Hernández em 2018 em seu segundo mandato |
Esquema de conluio financiado por chefes de governo e de Estado
Uma versão hispano-americana do ‘gabinete do ódio’
Uma série de áudios filtrados pelos portais investigativos Canal Red e Hondurasgate, dos quais 37 foram recentemente tornados públicos, revela a existência de uma suposta rede de conspiração internacional para interferir em eleições na América Latina, com o intuito de prejudicar políticos de esquerda. Entre os alvos estariam, por exemplo, os presidentes da Colômbia, Gustavo Petro, e do México, Claudia Sheinbaum.
De acordo com os referidos portais investigativos, o hipotético esquema seria operado pelo ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández (JOH) a partir dos Estados Unidos (EUA), onde uma base estaria sendo montada para colocar em prática uma espécie de versão hispano-americana do ‘gabinete do ódio’ – popularmente conhecido no Brasil.
Um ‘lobby’ composto por chefes de governo e de Estado de direita e/ou extrema direita financiaria campanhas de descrédito, de ‘fake news’ e de ataques contra opositores por meio de sites noticiosos, cujos nomes não foram divulgados.
Durante uma chamada (vídeo/áudio 1) com a vice-presidenta de Honduras, María Antonieta Mejía, Juan Orlando Hernández disse que o presidente da Argentina, Javier Milei, teria, supostamente, contribuído com US$ 350 mil, algo em torno de R$ 1,83 milhão, além de mencionar um ‘amigo’ no México, não identificado, segundo Canal Red e Hondurasgate.
“É necessário ter esse financiamento, porque vamos montar um escritório aqui [nos EUA], com o apoio de alguns republicanos para poder atacar e extirpar o câncer da esquerda daí de Honduras e de toda a América Latina. Eu contava ao presidente [Nasry] Asfura que podemos falar com Javier Milei e que ele está apoiando com 350 mil dólares também (...)”, declarou JOH.
Vídeo: Hondurasgate - YouTube - Reprodução
Chamada entre Hernández e Mejía
Em outra ligação (vídeo/áudio 2), também no dia 30 de janeiro, Juan Orlando Hernández teria pedido a Nasry Asfura uns US$ 150 mil – cerca de R$ 784,4 mil na cotação da época – para alugar um apartamento e montar um escritório com a estrutura operacional.
“Preciso, por favor, que me mandem na conta de Rosales uns 150 mil dólares, por favor, porque aqui vamos alugar um apartamento e vamos montar um escritório para colocar uma unidade de jornalismo digital. Alguém daqui, da equipe do presidente dos Estados Unidos, [Donald Trump], vai administrar isso para mim. Bem, ele é um dos republicanos que está nos ajudando. Eles vão criar um site de notícias onde publicarão informações importantes sobre Manuel Zelaya e Xiomara Castro”, pediu JOH.
Manuel Zelaya e Xiomara Castro são um casal. Os dois governaram a nação centro-americana e são filiados ao partido de esquerda Liberdade e Refundación (Libre, em espanhol). O mandato dela se encerrou no último dia 27 de janeiro. A título de curiosidade, em 2009 ambos se refugiaram na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa em meio a uma crise política que o levou a um exílio temporário.
“Vou transferir da conta de um amigo. Vamos ver se ele consegue te pagar em dinheiro vivo, mas me explique o que vamos fazer com isso e o que vamos ganhar com isso”, respondeu Nasry Asfura.
Vídeo: Hondurasgate - YouTube - Reprodução
Diálogos entre Hernández e Asfura
“Vamos montar uma célula, senhor presidente, daqui dos Estados Unidos, um centro de informações para que não consigam nos rastrear em Honduras. Será como um portal de notícias da América Latina. Eu estava numa ligação com o presidente [argentino] Javier Milei, e foi muito, muito, muito produtiva. E acho que nesse momento podemos fazer grandes coisas por toda a América Latina. Haverá processos contra o México e virão uns processos contra a Colômbia, e o mais importante, contra Honduras, neste caso contra a família Zelaya”, explicou Juan Orlando Hernández.
Investigações nos Estados Unidos
Se comprovadas, as falas atribuídas a JOH podem desencadear crises diplomáticas em efeito cascata. Além disso, sugerem supostas ações jurídicas e midiáticas coordenadas para chantagear, perseguir, atrapalhar e criminalizar adversários políticos. O uso abusivo do sistema judicial e a fabricação de escândalos e de falsas acusações são conhecidos como ‘lawfare’ – ativismo judicial.
Coincidentemente, em abril de 2026, os Estados Unidos anunciaram uma investigação contra dois políticos mexicanos por suposto nexo com cartéis de drogas. Os alvos são o governador de Sinaloa, Rubén Rocha Moya, e o prefeito de Culiacán, Juan de Dios Gámez Mendívil. Ambos são filiados ao Movimento Regeneração Nacional (Morena), partido da presidenta mexicana, Claudia Sheinbaum, e decidiram se licenciar dos mandatos para que o Ministério Público asteca os investigasse.
O inquérito contra os dois políticos morenistas acontece em meio a um incidente diplomático entre os governos mexicano e estadunidense, por conta da morte de dois investigadores da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês) e de dois promotores do Ministério Público de Chihuahua no último dia 19 de abril.
Um veículo em que as quatro vítimas estavam capotou, quando retornavam de uma incursão militar para desmantelar laboratórios clandestinos de drogas no município de Morelos. A atuação de agentes estrangeiros ocorreu sem o consentimento do governo de Sheinbaum e gerou reações políticas contra a governadora de Chihuahua, Maru Campos, do Partido de Ação Nacional (PAN).
Em outubro passado, em meio a uma rixa diplomática e sem apresentar provas, o presidente norte-americano, Donald Trump, acusou seu homólogo colombiano, Gustavo Petro, de ser o suposto líder de uma facção criminosa.
Em fevereiro de 2026, por exemplo, o presidente do Equador, Daniel Noboa, deu início a uma crise diplomática com Gustavo Petro, ao impor uma espécie de ‘tarifaço’ em produtos oriundos do país vizinho. A retaliação seria uma resposta pelo fato de o governo colombiano não atuar o suficiente para combater o narcotráfico na região fronteiriça entre os dois países.
Os gestos de afronta de Noboa, que é de direita, sucedem num contexto que pode influenciar as eleições colombianas que ocorrerão no próximo dia 31 de maio. E em mais um capítulo dessa disputa de narrativas, ele acusou seu homólogo de suposto vínculo com um traficante de drogas equatoriano. Não há nenhuma informação comprovada de que isso esteja conectado a uma campanha da suposta rede internacional de conspiradores para desestabilizar candidatos de esquerda.
No último dia 30 de abril, Petro compartilhou uma publicação do Diario Red América Latina sobre a suposta rede internacional de ingerência política com a seguinte mensagem: “Assim se movem as redes da extrema direita comunicacional. O dinheiro sai da cocaína e de Israel”.
O mesmo artifício de enfrentamento às drogas foi usado pela Casa Branca para justificar o que críticos consideram como um ‘sequestro’ do ex-presidente da Venezuela Nicolás Maduro em seu próprio país, no último dia 3 de janeiro, por militares estadunidenses. A alegação era de que ele seria líder do suposto Cartel de los Soles. Depois da captura, sem apresentar provas concretas, mudou-se a acusação, descartando a existência da suposta organização criminosa.
Indulto e interferência política
O protagonismo de Juan Orlando Hernández se dá após ter sido indultado por Donald Trump em novembro passado, às vésperas das eleições em Honduras. Na ocasião, a então presidenta de Honduras, Xiomara Castro, acusou o líder estadunidense de ‘interferência’ no processo eleitoral por meio da libertação de JOH, com o objetivo de favorecer a vitória de Nasry Asfura.
O ex-mandatário latino-americano cumpria pena de 45 anos numa prisão em Nova York, ao ser condenado em 2024 por facilitar a entrada de cerca de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos entre 2004 e 2022 e por receber financiamento eleitoral de US$ 1 milhão – cerca de R$ 2 milhões em 2013 – do narcotraficante Joaquín ‘El Chapo’ Guzmán em troca de proteção e de impunidade para operar em solo hondurenho. Os promotores estadunidenses chegaram a classificar a nação centro-americana – sob a gestão de JOH – como um ‘narcoestado’.
Uma semana após a formalização do salvo-conduto emitido por Trump, o procurador-geral do Ministério Público de Honduras, Johel Antonio Zelaya Alvarez solicitou à Interpol (Polícia Internacional, na sigla em inglês) a inserção de Hernández na lista dos procurados por supostos crimes de lavagem de dinheiro e de fraude cometidos durante a primeira campanha presidencial em 2013.
Em abril deste ano, quatro meses após o indulto presidencial, um tribunal de apelações norte-americano anulou a condenação de 45 anos e as imputações contra Juan Orlando Hernández, ao considerar que seriam ‘improcedentes’. Com a decisão, o processo foi arquivado, contudo não elimina as polêmicas nem as controvérsias em torno de sua trajetória política.
O perdão presidencial concedido por Donald Trump a seu aliado de direita, por considerar que a sentença foi ‘injusta’, levanta a hipótese de que pode não ter sido por misericórdia, mas fruto de um acordo político.
Além disso, denota muito mais que um paradoxo. Aponta para uma contradição entre o discurso e a prática e para uma visão deturpada dos fatos em comparação aos casos do governador e prefeito mexicanos e também de Nicolás Maduro, por exemplo, e coloca em xeque a alegada guerra contra as drogas iniciada pelo líder republicano. Desde setembro de 2025, dezenas de embarcações suspeitas foram alvos de bombardeios em águas internacionais na região do Caribe.
Lobby internacional e ZEDEs
Há um ditado que diz que ‘não existe almoço grátis’. Ainda de acordo com Canal Red, Hondurasgate e Diario Red, o indulto a Juan Orlando Hernández teria sido, supostamente, pago pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Não foram revelados valores nem quando isso teria acontecido.
Para além de tentar reduzir a influência chinesa na América Latina e ter o controle de terras raras, um suposto lobby entre Trump e Netanyahu pretende reconduzir Hernández à presidência, nas eleições de 2030, para ampliar e entregar as Zonas de Emprego e Desenvolvimento Econômico (ZEDEs) a governos estrangeiros e construir bases militares e de inteligência artificial.
Uma ZEDE funciona como cidade-modelo com tribunais autônomos e sistemas jurídicos estrangeiros em território nacional. Na prática, significa renunciar à soberania jurisdicional. Um país dentro de outro país.
As ZEDEs foram implementadas em 2013 durante o mandato do então presidente hondurenho Porfirio Lobo e pelo então líder do Congresso Juan Orlando Hernández como forma de incentivar o emprego. Em 2022, o Congresso votou pela derrubada da Lei Orgânica das ZEDEs, mas precisaria ratificar a decisão na legislatura seguinte, em 2023, o que não aconteceu. Já em 2024, esses empreendimentos foram declarados inconstitucionais pela Corte Suprema de Justiça.
A suposta atuação de Juan Orlando Hernández não seria meramente simbólica. Pode revelar a terceirização de uma guerra midiática e ideológica por parte do governo norte-americano, com a participação direta e/ou indireta de outros atores políticos internacionais. Isso serviria para isentar os Estados Unidos de eventual acusação de golpismo.
Sobre os áudios filtrados
Os áudios em questão vão muito além dos fatos apresentados nesta reportagem e são referentes a conversas ocorridas entre janeiro e abril de 2026 por meio de aplicativos como WhatsApp, Telegram e Signal.
Os 37 áudios divulgados representam apenas cerca de 10% dos mais de 300 em posse dos portais Canal Red, Hondurasgate e Diario Red – todos de viés progressista – e que passam por verificações para atestar a autenticidade.
Segundo Canal Red e Hondurasgate – este com site registrado na Suíça –, todos os áudios obtidos até o momento foram submetidos ao Phonexia Voice Inspector, uma plataforma automatizada, da empresa tcheca Phonexia, utilizada por especialistas forenses, inclusive em processos judiciais, para analisar a veracidade e a precisão das vozes. Ainda de acordo com os supracitados portais investigativos, os níveis de confiança em relação ao ‘software’ superam os 80%. Isso gera uma margem de até 20% de erros que podem ser questionados.
Os repórteres e investigadores envolvidos na divulgação desses escândalos optaram por manter o anonimato por temor a represálias. Não há informações de como os materiais foram obtidos, se legalmente vazados por alguém familiarizado com o tema ou se ilicitamente por meio de algum ataque cibernético.
Não foi possível confirmar de maneira independente a autenticidade dos áudios difundidos. Também não há informações atestadas por peritos independentes que validem a legitimidade das vozes das pessoas mencionadas no suposto conluio. Até a publicação desta matéria, não se soube de posicionamentos públicos por partes dos personagens envolvidos.
Num mundo marcado por importantes avanços tecnológicos, por inteligência artificial, mas também por ‘deepfakes’ e desinformação, áudios e imagens por si só não representam provas conclusivas nem irrefutáveis. Em determinadas circunstâncias, precisam ser periciados e validados juridicamente.


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