Presidente interino do Peru culpa judeus pela Segunda Guerra Mundial

Quinta-feira, 30 de abril de 2026
Informação atualizada em 30/04/2026, às 22h46

A fala provocou protesto das embaixadas da Alemanha e de Israel

Imagem: Presidencia de Perú - Redes Sociais / Qualidade da foto melhorada com inteligência artificial
José María Balcázar

O presidente encarregado do Peru, José María Balcázar, de 83 anos, culpou os judeus pela Segunda Guerra Mundial. A polêmica fala antissemita ocorreu durante um discurso na Câmara de Comércio de Lima (CCL), na última terça-feira (28/4), pelos 138 anos da instituição. O que era para ser apenas um evento político se transformou numa crise diplomática.

“(...) A Alemanha foi empurrada a uma guerra também por culpa, em parte, dos judeus, em parte porque controlavam todos os bancos, todo o comércio e praticavam usura (...)”, manifestou.

A fala do governante interino teve como base uma leitura distorcida do livro ‘Los Enemigos del Comercio: una historia moral de la propiedad’ (‘Os Inimigos do Comércio: uma história moral da propriedade’, em tradução literal), do filósofo espanhol Antonio Escohotado. A obra foca na história do comércio, não na validação de teorias nazistas.

O discurso de Balcázar criminaliza as vítimas e remete também à falácia de ‘Os Protocolos dos Sábios de Sião’, narrativa antissemita publicada pela primeira vez em 1903 na Rússia czarista e que influenciou o nazismo. De acordo com o Museu Memorial do Holocausto nos Estados Unidos, o texto alega uma suposta conspiração judaica-maçônica para ‘dominação mundial’, por meio de sociedades secretas, controle do sistema financeiro e da mídia para desestabilizar governos.

O texto antissemita é um exemplo de ‘fake news’ que perdura ao longo de um século, tendo provocado graves danos sociais, econômicos e culturais, cujo ápice foi o extermínio de seis milhões de judeus.

As embaixadas da Alemanha e de Israel em Lima criticaram as palavras do mandatário interino e cobraram uma retratação para o que classificaram como ‘formas de antissemitismo e ódio’.

“A afirmação de que os judeus controlavam o comércio alemão e o sistema bancário alemão e que, portanto, empurraram os alemães para a Segunda Guerra Mundial, é absurda, historicamente insustentável e viola a memória de milhões de cidadãos judeus alemães assassinados pelos nazistas”, repudiaram as sedes diplomáticas.

“(...) Cabe recordar que foram Adolf Hitler e os nazistas que iniciaram a Segunda Guerra Mundial ao atacar a Polônia em 1939. A ideologia nazista, racista e antissemita não só discriminou seus concidadãos judeus, como também resultou no assassinato de seis milhões de judeus em campos de concentração. O Holocausto não pode ser relativizado sob nenhuma circunstância”, completaram as embaixadas da Alemanha e de Israel.

Após a repercussão negativa, a Presidência do Peru divulgou nota de desculpa pelo discurso de Balcázar: “O senhor presidente da República lamenta que as declarações ditas tenham gerado uma percepção equivocada sobre o povo judeu no marco do início da II Guerra Mundial. O Estado peruano tem sustentado consistentemente que o fanatismo nazista foi a causa daquele conflito bélico e culpado pelo imperdoável genocídio do povo judeu (...)”

O governo israelense não se contentou com a nota governamental e exigiu por parte de Balcázar uma retratação formal: “Dado que o comunicado da presidência, de 29 de abril de 2026, não contém uma retratação total do que foi expressado, o Estado de Israel convoca o presidente do Peru a se retratar de maneira imediata, inequívoca e contundente de tais declarações”.

“O fato de que o chefe de um Estado democrático opte por utilizar preconceitos antissemitas e por distorcer a história é motivo de profunda preocupação”, completou o governo israelita.

Polêmica anterior


Essa foi a segunda polêmica envolvendo José María Balcázar apenas neste mês de abril. Após tentar desistir de assinar contrato com uma empresa norte-americana para a aquisição de 12 caças F-16, seus ministros da Defesa, Carlos Díaz, e de Relações Exteriores, Hugo de Zela, renunciaram ao cargo como forma de protesto.

Em meio a esse imbróglio, o líder sul-americano ainda foi pressionado, via redes sociais, pelo embaixador dos Estados Unidos em Lima, Bernie Navarro, que disse que defenderia os interesses de seu país em caso de ‘má-fé’ por parte do governo de Balcázar.

O caso será analisado pelo Congresso peruano e poderá levá-lo a receber um eventual voto de censura ou até mesmo a cassação do mandato em pleno período eleitoral.

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