Quinta-feira, 30 de abril de 2026 Derrota política de Lula é atribuída a Davi Alcolumbre; a rejeição expõe rachas entre os poderes e também ...
Quinta-feira, 30 de abril de 2026
Derrota política de Lula é atribuída a Davi Alcolumbre; a rejeição expõe rachas entre os poderes e também no mundo gospel
Imagem: Carlos Moura - Agência Senado - Flickr
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| Jorge Messias em sabatina na CCJ do Senado |
As votações
Por 42 votos contrários e 34 favoráveis, senadores de direita rejeitaram em plenário, na noite dessa quarta-feira (29/4), a indicação do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, para a vaga de ministro no Supremo Tribunal Federal (STF). O que parece ser uma derrota histórica para o presidente Luiz Inácio da Silva (PT-SP), por ter sugerido um de seus ministros ao cargo, também o é para parte dos evangélicos.
“Eu tenho certeza que lutei o bom combate, como todo cristão. E preciso aceitar o plano de Deus na minha vida. Eu sei que a minha história não acaba aqui. Tenho 46 anos, tenho história, tenho currículo, tenho uma vida limpa. Passei por cinco meses por um processo de desconstrução da minha imagem. Toda sorte de mentiras para me desconstruir ocorreu. Nós sabemos quem promoveu tudo isso. Agora eu quero dizer para vocês com o coração leve, com a franqueza da minha alma. Sou grato a Deus por ter passado por esse processo e eu sou grato à confiança que o presidente Lula depositou em mim (...)”, manifestou o advogado em coletiva de imprensa.
Durante sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado mais cedo, que resultou em aprovação prévia ao plenário, por 16 a 11 votos, Jorge Messias se declarou ‘servo de Deus’, defendeu a laicidade do Estado e disse ser contra o aborto.
Às vésperas da sabatina, Jorge Messias se aventurou num propósito com Deus, tendo realizado jejum espiritual, com direito a orações e redução nos horários das refeições. Gesto de fé genuína ou intento frustrado de sinalizar para a bancada evangélica?
Evangélicos divididos
O agora ex-candidato tinha o apoio de lideranças religiosas tradicionais como os bispos Abner Ferreira e Samuel Ferreira, ambos da Assembleia de Deus em Madureira, localizada no bairro homônimo carioca. Eles acompanharam presencialmente a saga de Jorge Messias no Senado.
Além disso, Jorge Messias tinha a torcida do ministro da suprema corte André Mendonça, que também é cristão. O magistrado comentou nas redes sociais sobre a votação: “Respeito a decisão do Senado, mas não posso deixar de externar minha opinião. O Brasil perde a oportunidade de ter um grande ministro do Supremo. Messias é homem de caráter, íntegro e que preenche os requisitos constitucionais para ser ministro do STF”.
O deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ), que também é pastor, opinou sobre o assunto:
“(...) Ontem, novamente os interesses do Centrão e do bolsonarismo se encontraram. O bolsonarismo, que precisava impor uma derrota histórica a Lula, e o Centrão, que precisava dar uma resposta ao governo por estarem insatisfeito com o avanço da Polícia Federal em seus esquemas nada republicanos. O que vimos ontem foi praticamente um impeachment de Lula ainda no poder”.
Ainda segundo o parlamentar, o líder petista teria cometido ‘suicídio político’ por não interferir nas investigações por parte da Polícia Federal contra o Banco Master, e recordou a deposição da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT-MG) por não se intrometer na atuação da corporação durante o inquérito do Petrolão.
“Se você é daqueles que está comemorando a derrota de Jorge Messias como se fosse a derrota política de Lula, você não entende nada do jogo pesado da política de Brasília (...); o Centrão se uniu ao Bolsonarismo para aprovar os jogos de azar, os cassinos e ‘bets’, para aprovar o orçamento secreto (...). E para aprovar a PEC da Blindagem, aquela PEC que blinda os políticos de serem investigados, lá estava o ‘Centrão e o bolsonarismo novamente vez unidos (...)”, manifestou Otoni de Paula (PSD-RJ).
No sentido oposto, vale mencionar o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, no Rio, e seu forte ativismo político pró-direita. Ele classificou o episódio como ‘derrota vergonhosa para Lula!’.
“Como disse em várias entrevistas, Messias é um esquerdopata gospel, onde tenho profundas divergências, diametralmente oposto ao que penso (...)”, completou o líder religioso.
O discurso de Malafaia enfatiza o incômodo com o fato de haver crentes de esquerda em meio a uma doutrina que prega a Teoria da Prosperidade e o estreitamento entre igreja e Estado. Uma parcela significativa de evangélicos crê que ser cristão é ser de determinada ideologia, como se Jesus tivesse lado numa suposta guerra santa idealizada por eles mesmos.
O deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) – também pastor e aliado de Malafaia – falou que ‘o Senado deu um recado claro ao Brasil’, ‘um sinal político’.
“Parabéns aos senadores que tiveram coragem. Parabéns aos que não se curvaram. Hoje não foi a rejeição de um nome. Foi o enfrentamento de um modelo. Quando o Senado se posiciona, muda o jogo. Muda a correlação de forças”, expressou.
Imagem: Carlos Moura - Agência Senado - Flickr
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| Parlamentares de direita comemoram derrota de Jorge Messias |
A indicação de Jorge Messias não era um consenso no mundo gospel e reforça desunião entre a classe, com muitos evangélicos torcendo contra. Para além disso e numa visão conotada, escancara uma divisão entre cristãos e meros frequentadores de igreja. Tal rejeição deixa claro que fé e política disputam espaços de poder e que em determinadas situações ambos podem se relacionar de forma simbiótica.
Erros de cálculo político expõem racha entre os poderes
Numa fracassada tentativa de influenciar a votação em prol do advogado-geral da União no legislativo, o governo federal liberou o repasse de R$ 11,7 bilhões em emendas, no entanto não logrou o efeito desejado. Nos bastidores, essa antecipação pode ser vista como erro de cálculo político do Planalto.
A derrota política de Lula (PT-SP), mal calculada pelo próprio, está sendo atribuída ao presidente do Senado, senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que teria atuado nos bastidores para isso. O petista poderá sugerir outro nome para a vaga deixada pelo ministro Luís Roberto Barroso, que antecipou sua aposentadoria em outubro passado. No entanto, e ao que tudo indica, o chefe do legislativo pretende atrasar as discussões e deixar para o próximo presidente a escolha do sucessor.
É sabido que a preferência de Alcolumbre era o colega Rodrigo Pacheco (PSB-MG), que comandou anteriormente o Senado. Contudo, Lula (PT-SP) o quer como candidato a governador por Minas Gerais no pleito de 2026.
A rejeição ao apadrinhado de Lula não é apenas um recado político por parte de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Funciona como uma espécie de declaração de guerra cujo intuito é promover um desgaste do líder petista para tentar influenciar as eleições deste ano. É o uso de uma máquina contra outra.
Por outro lado, o governo não precisará mais fazer a política da boa vizinhança com o Senado. Poderá expor o racha entre os poderes Executivo e Legislativo, polarizar o debate em período eleitoral e alegar que parlamentares de direita e do Centrão vetaram um cristão para a suprema corte.
Nas redes sociais, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é pré-candidato ao Palácio do Planalto, celebrou a derrota de Jorge Messias: “Por 42 votos a 34, o Senado fez história e evitou que a esquerda e o PT aparelhassem ainda mais o Estado e a Justiça. Podemos dizer com confiança que o Brasil tem futuro”.
Breve histórico de Jorge Messias
Em sua trajetória política, Jorge Messias já comandou a Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres) – vinculada ao Ministério da Educação (MEC), sendo o responsável pelo descredenciamento da Universidade Gama Filho (UGF) e do Centro Universitário da Cidade (UniverCidade), ambos no Rio de Janeiro e cujas massas falidas estão nas mãos do grupo Galileo Educacional.
Mas foi em 2016, durante as investigações da Operação Lava-Jato, que ele ficou realmente conhecido – como ‘Bessias’ –, após a derrubada do sigilo de uma interceptação telefônica entre Lula (PT-SP) e Dilma Rousseff (PT-MG) na qual se discutia a possibilidade de o líder metalúrgico ocupar a Casa Civil do Planalto. A divulgação dos áudios ocorreu nos meses que antecederam o impeachment da ex-presidenta. Na época, Jorge Messias atuava como subchefe de Assuntos Jurídicos da Presidência da República.
As três últimas indicações do mandatário petista para a suprema corte não foram feitas a partir de uma lista tríplice elaborada por juristas, mas baseada em critérios políticos e, supostamente, pessoais, como de Jorge Messias, advogado-geral da União; Flávio Dino, ex-ministro da Justiça e Segurança Pública; e Cristiano Zanin, advogado pessoal no âmbito da Lava-Jato.
Ao longo de seus três mandatos, Lula indicou 11 pessoas para o STF. Apenas uma foi rejeitada até hoje:
* Jorge Messias: rejeitado pelo Senado em 29/04/2026.
* Flávio Dino: tomou posse em 22/02/2024 – na ativa.
* Cristiano Zanin: tomou posse em 03/08/2023 – na ativa.
* Dias Toffoli: tomou posse em 23/10/2009 – na ativa.
* Menezes Direito: tomou posse em 05/09/2007 – falecido.
* Cármen Lúcia: tomou posse em 24/05/2006 – na ativa.
* Ricardo Lewandowski: tomou posse em 16/03/2006 – aposentado.
* Eros Grau: tomou posse em 30/06/2004 – aposentado.
* Joaquim Barbosa: tomou posse em 25/06/2003 – aposentado.
* Ayres Britto: tomou posse em 25/06/2003 – aposentado.
* Cezar Peluso: tomou posse em 25/06/2003 – aposentado.



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