Quarta-feira, 15 de abril de 2026 Informação atualizada em 15/04/2026, às 20h47 Ao todo, seis réus tiveram bloqueios de valores e bens que s...
Quarta-feira, 15 de abril de 2026
Informação atualizada em 15/04/2026, às 20h47
Ao todo, seis réus tiveram bloqueios de valores e bens que somam R$ 8,6 milhões; os demais alvos são: um ex-vereador e sua filha, uma clínica, uma ex-pregoeira e um atual fiscal de contratos
Imagem: Divulgação - Arquivo / Qualidade da foto melhorada com inteligência artificial
![]() |
| Fachada da Prefeitura de Guapimirim |
Bloqueios referentes a contrato firmado em 2025 com a Speed Meg
A prefeita de Guapimirim, Marina Rocha (Agir-RJ), na Baixada Fluminense, é uma das investigadas pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) por suspeita de fraude licitatória na saúde com a empresa Speed Meg, noticiou o RJ2, da TV Globo, nessa terça-feira (14/4).
Outras quatro pessoas – mencionadas mais adiante – também são rés na mesma ação civil pública (ACP) de improbidade administrativa. Por decisão da 2ª Vara da Comarca de Guapimirim, todos, inclusive a prestadora de serviços, tiveram valores em contas e bens bloqueados que somam R$ 8,6 milhões.
A cifra bloqueada corresponde ao valor da renovação contratual firmada entre a gestão municipal e a empresa de procedimentos clínicos, em maio de 2025, apesar dos alertas do órgão fiscalizador acerca de supostas irregularidades.
Meses antes desse recente contrato, a prefeita havia se reunido com representantes do Ministério Público fluminense, prestado esclarecimentos acerca dos problemas apontados pelo órgão e poucos meses depois realizou um novo pregão eletrônico, que resultou na vitória da mesma empresa.
Ainda segundo a denúncia, ‘mesmo após ciência formal das irregularidades’, a mandatária guapimiriense teria deixado de tomar medidas cabíveis para romper o contrato.
Suspeita de favorecimento em licitação
As investigações têm como base outro contrato, que foi firmado entre a Prefeitura de Guapimirim e a Speed Meg em outubro de 2024, por meio de pregão eletrônico, no valor de R$ 8,9 milhões.
O MPRJ apura suspeitas de irregularidades e sugere indícios de direcionamento de licitação como a falta de publicidade ampla dos últimos editais – culminando em apenas uma interessada – e sobrepreço na realização de procedimentos clínicos.
Nos últimos 10 anos, a Speed Meg se tornou, na prática, a única firma a prestar os serviços para a municipalidade, com contratos para a realização de 78 exames, inclusive de imagem, de média e alta complexidades.
Na época em que o contrato foi firmado, em 2024, a Speed Meg não possuía funcionários registrados, segundo o MPRJ, sendo somente o proprietário Iram Moreno de Oliveira – Iram da Serrana – e a filha Mellanie da Costa Oliveira, nem estrutura própria. Os serviços seriam, supostamente, terceirizados por outras empresas. Ambos são réus na supracitada ACP.
Iram da Serrana é ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de Guapimirim. Em 2013, foi preso no âmbito da Operação Os Intocáveis – deflagrada no ano anterior –, por suspeita de integrar uma quadrilha armada que extorquia dinheiro da prefeitura. Por alegada falta de provas, foi absolvido, mas teve o mandato cassado pela Justiça Eleitoral.
Por decisão judicial, a Speed Meg teve suas atividades suspensas. Além disso, a Secretaria Municipal de Saúde terá prazo de três meses para contratar uma nova prestadora de serviços.
Ex-pregoeira e atual pregoeiro investigados
Entre os investigados está a ex-pregoeira Neiva Maurício da Silva Bonfante, da Comissão de Licitações da Prefeitura de Guapimirim. Atualmente, ela seria funcionária da Speed Meg, de acordo com o MPRJ.
O servidor municipal Philipe Gomes Pereira, responsável por gerir as licitações com a mencionada empresa, teve afastamento cautelar determinado pela 2ª Vara da Comarca de Guapimirim. Segundo os autos processuais, ele teria deixado de fiscalizar o contrato – o que pode caracterizar prevaricação – e está sendo acusado de ter recebido em sua conta bancária depósitos feitos pela Speed Meg.
Tanto Neiva Bonfante quanto Philipe Pereira são alvos dos bloqueios de valores em contas bancárias.
Prefeita rechaça as acusações
A clínica se manifestou sobre o assunto na internet, nesta quarta-feira (15), por meio da proprietária Mêllanie Oliveira, que rejeitou a acusação de associar a Speed Meg a supostas práticas ilegais. E acrescentou que o espaço também realiza atendimentos particulares e a convênios.
“Temos uma trajetória de anos, prestando serviços à saúde com responsabilidade, seriedade e dentro da lei”, disse a empresária num trecho do comunicado.
Logo após a exibição da matéria na TV Globo, a prefeita Marina Rocha (Agir-RJ) publicou um vídeo curto nas redes sociais e alegou que ‘infelizmente, as pessoas não têm responsabilidade com a vida dos outros, principalmente com uma imagem que a gente trabalha e que a gente demora a construir, aí tentam desmontar a imagem da gente com notícias da maneira que queiram falar’.
Sem apresentar provas nem citar nomes, a líder guapimiriense finalizou: “a matéria deve ter sido cara”.
Já no início da madrugada desta quarta-feira (15), postou outro vídeo, de mais de quatro minutos de duração, para se declarar vítima de perseguição e rechaçar as acusações.
Ela apresentou ‘prints’ de anúncios de editais em jornais de grande circulação, inclusive no Diário Oficial da União. Ademais, contestou a suposta falta de funcionários na Speed Meg com o fato de que inúmeros pacientes da rede municipal de saúde realizam exames nessa clínica e que os preços cobrados estariam de acordo com a tabela do Sistema Único de Saúde (SUS).
“(...) Como já estou me acostumando com perseguições e tentativas frustradas de me desmoralizar, venho trazer a verdade a vocês. A matéria começa dizendo que há suspeitas de fraudes. E lá na frente, me torna ré. Então, eu só ré por uma suspeita?! Sou prefeita há cinco anos e quatro meses, e a empresa em questão presta serviços há 10 anos em nossa cidade. Isso quer dizer que quando eu assumi a gestão, essa empresa já prestava serviço a nossa cidade. Isso não passou por uma escolha minha, né, gente?! Então eu pergunto: ‘quer dizer que eu interferi na licitação da gestão anterior?’”, indagou Marina Rocha.
Em sua defesa, a líder municipal disse não haver na ouvidoria reclamações de pacientes contra a clínica e destacou o fato de os exames serem realizados em Guapimirim em vez de outros municípios. Ela não comentou nada sobre o pregoeiro denunciado por receber dinheiro de empresa na qual ele deveria fiscalizar.
“O fato é que isso é um movimento quase sobrenatural. Por que, no ano eleitoral, querem derrubar o natal de Guapi? Por que, em ano eleitoral, querem criar o caos na saúde pública com a possibilidade de interromper os atendimentos ao nosso povo? (...)”, concluiu.
Suspeita de superfaturamento na festividade natalina
Nos últimos quatro meses, a prefeita de Guapimirim já se envolveu em ao menos duas polêmicas. Em dezembro passado, passou a ser investigada por suspeita de superfaturamento na edição de 2025 do Fantástico Natal de Guapi.
Às vésperas da inauguração da Praça do Papai Noel, o MPRJ obteve liminar concedida pela 2ª Vara da Comarca de Guapimirim, que tinha determinado a suspensão da festividade, o pagamento às empresas contratadas, além da quebra de sigilos bancário e fiscal das mesmas.
O ente fiscalizador alegou que a montagem dos brinquedos começou a ser feita sem contrato formal e alegou indícios de sobrepreço e de superfaturamento, ao comparar os valores praticados em outras cidades – de mesmo porte ou perfil de Guapimirim –, que destinaram entre R$ 1,4 e R$ 6 milhões para o natal de 2025.
Em 2023, por exemplo, a festividade natalina na terra do Dedo de Deus custou R$ 6,1 milhões. Em 2024, R$ 10,9 milhões. E em 2025, custaria R$ 18,8 milhões. Em dois anos, o reajuste seria de 208%.
A celebração de 2025 acabou sendo autorizada pelo desembargador André Emilio Von Melentovytch, da 6ª Câmara de Direito Público do Rio de Janeiro, que acolheu um recurso protocolizado pela administração guapimiriense. Na visão do magistrado, a não realização do Fantástico Natal de Guapi acarretaria ‘prejuízo imensurável para o Município de Guapimirim, que é reconhecido polo turístico ecológico, com danos para a arrecadação, comerciantes, rede hoteleira e demais trabalhadores cuja renda depende das comemorações de fim de ano’.
Para driblar o Ministério Público, dois dias antes da emissão da liminar expedida pela 2ª Vara da Comarca de Guapimirim, a prefeitura anulou os efeitos do Pregão nº 39/2025, no valor de R$ 18,8 milhões, e prorrogou a validade da ata de preços de 2024, o que legalmente é permitido. Desse modo, a celebração de 2025 custou o mesmo valor de 2024: R$ 10,9 milhões. Ademais, os pagamentos a essas prestadoras de serviço foram autorizados.
Política de confrontação
O que se viu nos últimos tempos foi uma espécie de política tácita de confrontação entre o MPRJ e a administração de Marina Rocha (Agir-RJ).
Em novembro passado, o órgão chegou a advertir o governo a respeito do pregão para o Fantástico Natal de Guapi de 2025 e também do histórico de tragédias envolvendo uma das firmas contratadas. Apesar disso, o processo licitatório foi adiante, tendo sido anulado voluntariamente, ou por contenção de danos, em meio ao processo judicial em andamento.
A renovação contratual com a Speed Meg reafirma esse suposto modus operandi. Antes da judicialização do caso, a prefeita já havia discutido com o Ministério Público acerca das supostas irregularidades indicadas.


COMMENTS