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Quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
O país caribenho está sem combustível devido às sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos
Imagem: Gerada por inteligência artificial para Opinólogo - Foto ilustrativa
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| O Brasil está entre a cruz e a espada, no dilema entre ajudar Cuba criando atrito com os EUA |
A caminho da crise humanitária
Movimentos sociais estão pressionando o governo brasileiro para que socorra o regime cubano com o envio emergencial de petróleo. Na última sexta-feira (13/2), a Federação Única dos Petroleiros (FUP) enviou um ofício à Diretoria Executiva de Logística, Comercialização e Mercados da Petrobras, pedindo uma reunião para tratar do tema.
A iniciativa faz parte da campanha ‘Petróleo para Cuba’, que contou com a adesão da Federação Nacional dos Petroleiros (FNP), do Movimento Brasileiro de Solidariedade com Cuba e às Causas Justas, da Associação Cultural José Martí, além de partidos políticos e centrais sindicais, os quais não foram mencionados.
“A FUP se solidariza com o povo cubano, contra o embargo econômico e energético promovido pelo governo Trump. A diplomacia brasileira já se manifestou acertadamente sobre o tema. Contudo, precisamos de ações concretas, urgentes, e de caráter humanitário. A Petrobrás, na condição de empresa pública de um país soberano, precisa se envolver para garantir o abastecimento de petróleo para o país caribenho”, manifestou o diretor da FUP, Paulo Neves.
O país caribenho enfrenta um combo de crises energética, sanitária e que caminha para um colapso humanitário, por conta do aumento dos embargos do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O cerco econômico faz parte de uma estratégia dos Estados Unidos de asfixiar ainda mais Cuba para tentar forçar uma espécie de negociação com as autoridades locais ou a renúncia da ditadura que controla o país há 67 anos. Desde a Revolução Socialista, o país caribenho sofre bloqueios comerciais, estando limitado à compra de itens de primeira necessidade no mercado internacional.
Desde que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, foi sequestrado – há quem prefira eufemizar por ‘capturado’ – por militares norte-americanos, no último dia 3 de janeiro, a Petróleos da Venezuela (PDVSA) deixou de enviar o hidrocarboneto a Cuba. Com isso, a Petróleos Mexicanos (Pemex) passou a ser a principal fornecedora.
No entanto, devido às ameaças norte-americanas de imposição de tarifas contra quaisquer empresas e/ou países que ajudarem a ilha caribenha com combustível, a estatal asteca suspendeu o fornecimento. Em dezembro passado, a Pemex enviou 80 mil barris, no que a presidenta Claudia Sheinbaum justificou por ‘razões humanitárias’.
A líder mexicana tenta negociar com seu homólogo estadunidense uma saída para tentar mandar combustível a Havana sem a aplicação de sanções econômicas. Na semana passada, o país anunciou o envio de 814 toneladas em ajuda humanitária, como carnes, sardinha, atum, feijão, arroz, biscoitos, leites líquido e em pó, óleo vegetal e produtos de higiene pessoal.
Cuba depende de algo entre 110 mil a 150 mil barris de petróleo por dia para alimentar suas termelétricas e reduzir os apagões – que podem durar até 20 horas diárias – e fornecer energia para hospitais, escolas, entre outras repartições públicas. Outrossim, é que o país precisa abastecer ambulâncias, caminhões de lixo, viaturas policiais etc.
A quantidade de combustível que a ilha latino-americana produz é insuficiente para cobrir a demanda interna. Para agravar ainda mais a escassez, a Refinaria Ñico López, na Baía de Havana, pegou fogo na última sexta-feira (13).
O acúmulo de lixo – que forma montanhas espalhadas pelas ruas – tem contribuído para a proliferação de mosquitos e outras pragas, o que pode ter relação com as epidemias de dengue e de chikungunya nos últimos meses.
Além do México e da China, que já destinaram socorro financeiro e humanitário, Chile, Rússia e Espanha demonstraram intenção de enviar medicamentos e outros produtos básicos para a sobrevivência da população.
Risco de crises diplomática e comercial
No atual contexto geopolítico, é inviável o fornecimento de petróleo por parte de qualquer nação sem o risco de ter a carga retida por militares estadunidenses em águas internacionais.
A tentativa de induzir o governo brasileiro a desafiar as restrições estabelecidas pela Casa Branca, para defender a soberania cubana, coloca o gigante sul-americano entre a cruz e a espada. Pois, criaria problemas diplomáticos e comerciais com os Estados Unidos num momento em que as relações entre os dois países ainda estão frágeis, após um longo período de ‘tarifaço’ de 50% aplicado em mercadorias brasileiras como protesto ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro ante a suprema corte.
A Petrobras, por exemplo, negocia ações na Bolsa de Valores de Nova York e deve seguir determinadas legislações para ter acesso ao mercado estadunidense. O descumprimento poderia acarretar em sanções.
Nos últimos meses, algumas embarcações de origem ou com destino à Venezuela foram apreendidas em águas internacionais em gesto que se assemelha à invasão de piratas. O episódio mais recente aconteceu nesse domingo (15), com a interceptação do Veronica III no Oceano Índico. De bandeira panamenha, o petroleiro transportava dois milhões de barris venezuelanos, contrariando as sanções impostas por Trump.
O fornecimento de petróleo a Cuba visa aliviar o colapso. Por outro lado, também serve para minimizar a pressão sobre o regime. Apesar do inegável sofrimento dos cubanos em meio ao desabastecimento, aos blecautes diários e às epidemias de arboviroses, não se deve usar a população como desculpa para continuar patrocinando uma sistema político que oprime dissidências. Afinal de contas, o drama vivido por cidadãos que se opõem ao governo e que tentam exercer liberdade de expressão e jornalismo independente também é real, e não pode ser ignorado por questões ideológicas.
Blogueiros e repórteres que tentam cobrir a real situação do país são impedidos pela polícia de sair de casa ou são detidos sem quaisquer justificativas e/ou acusação formal.
No último dia 6 de fevereiro, os repórteres Ricardo Medina e Kamil Zayas Pérez – integrantes do perfil El4tico (El Cuartico) – foram detidos, segundo o portal 14ymedio. Os comunicadores dissidentes tiveram suas casas revistadas e equipamentos de comunicação apreendidos pelas forças repressoras do regime.
Recentemente, a Anistia Internacional criticou o assédio contra prisioneiros políticos e seus familiares por parte das autoridades cubanas, além da suposta demora ou negativa de fornecer atendimento médico aos detentos.
“A vigilância constante de residências, as detenções arbitrárias de curta duração e as restrições injustificadas para sair de casa formam parte de um padrão sistemático de práticas autoritárias que o Estado cubano está usando para castigar e dissuadir qualquer forma de dissidência”, analisou a representante da referida organização não governamental para o Caribe, Johanna Cilano.
Essas são algumas das violações de direitos humanos enfrentadas por quem é contra o regime cubano e que são ignoradas por movimentos sociais de esquerda mundo afora. Esses grupos se dizem a favor da democracia, contudo inúmeros deles possuem uma dualidade moral e seletiva quanto aos valores aparentemente defendidos, ao romantizar o regime e demonizar as vítimas.


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