‘A suspensão das contas [de anúncio] do Lula foi parte de uma estratégia para tirar visibilidade’, acusa Nadia Beller, ex-companheira de marqueteiro argentino

Terça-feira, 13 de outubro de 2026

TV estatal mexicana entrevista advogada boliviana que sofreu atentado; ela afirmou que a conta de anúncios do líder petista no Facebook teria sido desativada de propósito; Nadia Beller é ex-companheira de Fernando Cerimedo, o marqueteiro responsável pelas campanhas dos presidentes de extrema direita na América Latina

Menção às eleições no Brasil


Imagem: Canal Catorce - Youtube - Print screen
Fernando Cerimedo e Nadia Beller

O Canal Catorce – emissora pertencente ao Estado mexicano – exibiu, no último domingo (11/10), uma entrevista exclusiva com a advogada boliviana Nadia Beller, ex-companheira do marqueteiro argentino Fernando Cerimedo. A situação política do Brasil foi mencionada, e um dos pontos que merece destaque foi quando ela disse que a recente suspensão temporária da conta de anúncios do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) no Facebook, que tenta a reeleição, teria ocorrido por conta de ‘uma estratégia para tirar visibilidade’.

“Eles têm muito contato com a Meta. De fato, tem um jornalista, que eles mesmos removeram a sua página, e Fernando [Cerimedo] interveio para que a restabelecessem. E me disse mais de três vezes, pelo menos, que ele tinha muito boas relações com a Meta e podia derrubar ou fazer devolver qualquer página. E eu não tenho dúvida que sua equipe, seu grupo, interveio nisso. Sei que existem infrações eleitorais envolvendo a Meta, que teriam deixado passar algumas campanhas de guerra suja e a suspensão das contas [de anúncio] do Lula [no Facebook]. Eu não tenho a menor dúvida de que isso foi parte de uma estratégia da equipe para tirar visibilidade”, contou a entrevistada.

No dia 25 de setembro, faltando nove dias para o primeiro turno das eleições, a Meta desativou a conta de anúncios de Lula (PT-SP) no Facebook. A direção da campanha questionou o bloqueio, e a situação foi normalizada no mesmo dia. Na ocasião, a empresa alegou ‘problemas técnicos’, segundo a Agência Brasil.

Vídeo: Canal Catorce - Youtube - Reprodução
Íntegra da entrevista ao canal do governo mexicano

Durante a entrevista, Nadia Beller não apresentou provas das acusações. E até o momento, não se pôde comprovar a alegada cumplicidade da empresa de tecnologia para prejudicar a campanha do petista.

Recentemente, a campanha de Lula (PT-SP) denunciou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma alegada seletividade algorítmica e a redução da visibilidade das postagens no intuito de favorecer o adversário Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é de direita.

“(...) A suspensão das contas [de anúncio] do Lula [no Facebook]. Eu não tenho a menor dúvida de que isso foi parte de uma estratégia da equipe para tirar visibilidade” (Nadia Beller)

Opinólogo entrou em contato por e-mail com a assessoria de imprensa da Meta e com a Secretaria de Comunicação do Partido dos Trabalhadores (PT), às 13h59 e 14h03 desta terça-feira (13), respectivamente, para pedir um posicionamento sobre o assunto. Até a publicação desta reportagem não havia retorno de nenhuma das partes. O espaço segue disponível para considerações e esta matéria poderá ser atualizada se houver resposta.

Fernando Cerimedo e a indústria de ‘fake news’


Nadia Beller está grávida e se recupera dos tiros que levou no último dia 17 de agosto. E o principal suspeito de ser o mandante do crime é seu ex-companheiro Fernando Cerimedo, inicialmente acusado de tentativa de feminicídio. Ele foi preso na madrugada seguinte ao atentado, quando tentava deixar a Bolívia.

A prisão do marqueteiro argentino se tornou um escândalo que tem respingado em seus clientes e assessorados, além de ter reacendido suspeitas de uma indústria de ‘fake news’, por meio de uma campanha de desinformação e de interferência na América Latina com o uso de fazenda de ‘bots’ para alavancar publicações em redes sociais.

“Depois, eu publiquei chats que ele me passou, ou seja, capturas de tela, onde se viam conversas de gente de vários países. Ele tinha operadores por todos os lados, gente com a qual coordenava em quase todos os países (...); o que me chama muitíssimo e poderosamente atenção é a negligência da investigação em quase todos os países onde se supõe que houve manipulação eleitoral ou algum tipo de crime eleitoral que se fosse investigado”, criticou a entrevistada, ao informar que deixou o celular à disposição dos investigadores bolivianos.

Fernando Cerimedo foi o consultor político de candidatos a presidente de direita e de extrema direita na América Latina, incluindo o argentino Javier Milei, o colombiano Abelardo de la Espriella, o chileno José Antonio Kast, o hondurenho Nasry ‘Tito’ Asfura e a peruana Keiko Fujimori.

Ademais, Cerimedo possui vínculos com o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e com o clã Bolsonaro. É também um dos fundadores do site La Derecha Diario junto com o jornalista espanhol Javier Negre. A página costuma trazer informações distorcidas sobre o cenário geopolítico.

No último dia 25 de agosto, por exemplo, o La Derecha Diario espalhou uma ‘fake news’ de que Santa Catarina enfrentava ‘um surto migratório proveniente do Marrocos’ e culpou o ‘regime socialista’ de Lula (PT-SP) pelo ‘descalabro migratório’ no estado sulista. Descaradamente, se aproveitou da crise migratória das cidades autônomas espanholas de Ceuta e Melilla para fomentar o caos e influenciar o sufrágio brasileiro.

A entrevista, de 19 minutos, foi transmitida no programa Ventana al Mundo (Janela ao Mundo, em tradução literal). Nadia Beller também relatou que: estaria sofrendo supostas ameaças por parte do governo do presidente boliviano, Rodrigo Paz; que teve seu depoimento como testemunha anulado ante o Ministério Público, no qual ela acusava o ex-companheiro de ser narcotraficante; e acusou a Assembleia Legislativa de estar cooptada pelo oficialismo.

Mais acusações sem provas


À TV mexicana, a vítima também falou que Fernando Cerimedo seria ‘o presidente nas sombras’, em vez do presidente da Bolívia, Rodrigo Paz.

“Fernando Cerimedo era o presidente nas sombras. Era ele quem administrava o governo por uma delegação de poder que lhe fez Rodrigo Paz. Não sei explicar de outra forma, porque os ministros e diretores do Estado respondiam a ele. Ele colocava e demitia gente ao seu capricho, trabalhava num gabinete ao lado do presidente Rodrigo Paz e fazia tudo isso, porque tinha autorização e autoridade frente a todos os subalternos (...)”, expressou Nadia Beller.

A acusação da advogada de que seu ex-parceiro seria o governante de fato é reforçada por uma recente entrevista do vice-presidente da Bolívia, Edmand Lara, ao portal Página/12. Segundo ele, que tem atritos com Rodrigo Paz, o marqueteiro argentino participava mais de reuniões governamentais do que ele e, inclusive, tinha o poder de nomear e demitir servidores.

No último dia 2 de outubro, Edmand Lara disse temer por sua vida e que havia recebido informações sobre um suposto plano para acusá-lo de delitos e justificar uma eventual captura, de acordo com o portal boliviano El País.

Nadia Beller também acusou seu ex-companheiro e a primeira-dama da Bolívia, Maria Elena Urquidi – popularmente conhecida como Bibi Urquidi –, de suposto envolvimento no contrabando de ouro e combustível. A advogada não apresentou provas sobre a alegada participação de ambos e contou que o celular com as eventuais provas estaria em poder dos investigadores.

No dia 2 de outubro, a Procuradoria-Geral rejeitou investigar a primeira-dama boliviana por supostos delitos de suborno, tráfico de influência e enriquecimento ilícito, conforme divulgado pela agência de notícias Fides.  A alegação é de insuficiência de elementos para abrir um inquérito.

Em meio às polêmicas e escândalos, o então procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, foi preso pela polícia de seu país no último dia 30 de setembro, depois que o governo estadunidense revogou o visto e o acusou, junto a outras autoridades, de supostos crimes de organização criminosa e tráfico de drogas. Promotores de Justiça alegaram que o procurador-geral teria sido ‘sequestrado’. Ele investigava Cerimedo por alegados delitos de tentativa de feminicídio, narcotráfico e enriquecimento ilícito.

No dia 3 de outubro, o presidente Rodrigo Paz promulgou uma reforma em um artigo da Lei Orgânica do Ministério Público, que estabelece a suspensão definitiva de um procurador-geral com acusação formal ou por medida cautelar por crimes que resultem em prisão. No mesmo dia, o parlamento votou por destituir o investigador do cargo.

Enquanto Lula ‘faz a egípcia’, Claudia Sheinbaum entra de vez na guerra contra a extrema direita


O fato de uma emissora estatal dar ênfase ao escândalo do consultor político argentino é um claro sinal de que Claudia Sheinbaum decidiu contra-atacar seus algozes, para proteger seu legado político, em meio a um alegado conluio internacional, cuja finalidade seria intervir em eleições na América Latina.

Imagem: Gobierno de México - Print screen
Claudia Sheinbaum tem explorado midiaticamente o caso de Cerimedo para se defender de um suposto conluio internacional contra a esquerda latino-americana

Durante sua tradicional coletiva de imprensa diária, a líder mexicana repercutiu, nessa segunda-feira (12), alguns trechos da entrevista de Nadia Beller, especialmente a parte de que seria alvo do marqueteiro argentino. Com uma fala mansa e pausada, Claudia Sheinbaum se impõe como uma figura séria, serena, imponente e sabe se comportar de maneira fria e calculista em momentos que exigem controle emocional.

“(...) Vale a pena escutar essa parte da entrevista, porque é algo que temos falado nas coletivas de imprensa”, sugeriu Sheinbaum aos repórteres presentes.

“Ele (Cerimedo) me disse, em determinado momento, que acabaria com a presidenta, no sentido de que ele iria participar dessa campanha. Não me disse quem era seu candidato, mas ele tinha uma animosidade muito grande contra ela; (...) ele estava rompendo a sociedade, estava vendendo suas ações a Javier Negre, por uma questão pessoal ligada ao divórcio que estava encarando e que ele se incomodava com o enfrentamento”, detalhou Nadia Beller, cujo trecho foi exibido por Claudia Sheinbaum.

Quando Fernando Cerimedo foi preso, em agosto passado, a presidenta mexicana destacou o deboche dele e de seu ex-sócio, o jornalista espanhol Javier Negre, ambos fundadores do site La Derecha Diario. Numa postagem nas redes sociais, em dezembro de 2025, os dois comunicadores a incitaram a falar deles em sua coletiva de imprensa e disseram que atuariam para derrotar a esquerda nas próximas eleições.

Enquanto a mandatária mexicana explora o caso midiaticamente e busca blindar o país de supostas interferências estrangeiras – com possibilidade de anular o sufrágio e proibir dupla nacionalidade para candidatos a presidente e governador –, no Brasil o presidente Lula ‘faz a egípcia’ – ignora os temas – e corre o risco de perder a eleição, cujo segundo turno ocorrerá no próximo dia 25 de outubro.

A esquerda tem feito campanha para a sua bolha e não consegue romper esse paradigma. Nos meses que antecederam o pleito de 2026, em meio aos ‘tarifaços’ e assédios impostos pelo governo de Donald Trump, Lula (PT-SP) enfatizou a defesa da soberania brasileira e do multilateralismo. Mas durante a corrida eleitoral oficial, não soube explorar esses temas perante as massas.

O mandatário norte-americano tentou influenciar o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ), condenado e preso por tentativa de golpe de Estado por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).

Para além do fato de sua atual gestão não conseguir se desvincular da crise do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), com aposentados e pensionistas sofrendo descontos não autorizados, Lula (PT-SP) ainda não entendeu que não se ganha uma eleição somente com discursos politizados. Sua campanha tem sofrido reveses constantes no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O líder petista deixou de explorar pautas como o Hondurasgate, por exemplo. Embora não seja possível classificar como um fato consumado, uma série de áudios atribuídos ao ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández, divulgados em abril passado, trata de uma suposta conspiração internacional para ‘extirpar o câncer da esquerda’ da América Latina. Apenas o eleitorado politizado tem conhecimento do assunto.

“(...) O que me chama muitíssimo e poderosamente atenção é a negligência da investigação em quase todos os países onde se supõe que houve manipulação eleitoral ou algum tipo de crime eleitoral que se fosse investigado” (Nadia Beller)

Um dos áudios vazados diz que os primeiros alvos seriam a líder mexicana, o ex-presidente colombiano Gustavo Petro e o casal Manuel Zelaya e Xiomara Castro – ambos ex-presidentes de Honduras.

Até o momento, não se sabe de nenhuma acusação contra Claudia Sheinbaum, mas seu entorno político tem sido alvo de investigações nos Estados Unidos por alegados vínculos com cartéis de drogas, cujas acusações não foram comprovadas.

Em outra conversa também atribuída a Hernández, afirma-se que o presidente da Argentina, Javier Milei, teria supostamente contribuído com US$ 350 mil para que o grupo pudesse alugar um escritório e implementar uma plataforma noticiosa.

O caso Hondurasgate foi divulgado pelo portal homônimo e pelo Diario Red, de viés progressista. Opinólogo não conseguiu verificar a autenticidade dos áudios de maneira independente.

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