Terça-feira, 01 de setembro de 2026
O consultor político Fernando Cerimedo, sócio em portais noticiosos de extrema direita, está preso na Bolívia sob suspeita de tentativa de feminicídio contra a ex-companheira Nadia Beller
Imagem: Redes Sociais - Divulgação / Qualidade da foto melhorada com inteligência artificial
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| Momento em que Fernando Cerimedo já estava preso, quando tentava sair da Bolívia |
Assessoria em nível continental
A prisão do argentino Fernando Cerimedo (foto 1) – consultor político de presidenciáveis e sócio em portais noticiosos de extrema direita como La Derecha Diario e UHN Plus – reacendeu as suspeitas de um modus operandi, com práticas de interferência, manipulação, desinformação e desestabilização em processos eleitorais na América Latina. Como efeito dominó, transformou seus clientes em alvos perante a opinião pública em seus próprios países, devido às desconfianças de terem jogado fora das regras do jogo democrático.
O empresário assessorou as campanhas presidenciais do argentino Javier Milei, em 2023; do chileno José Antonio Kast, entre 2025 e 2026; do boliviano Rodrigo Paz, em 2025; do colombiano Abelardo de la Espriella, em 2026; do hondurenho Nasry ‘Tito’ Asfura, em 2025; da costa-ricense Laura Fernández, em 2026; e da peruana Keiko Fujimori, também este ano. Todos eles foram eleitos.
No último dia 1º de fevereiro, data em que ocorreram eleições na Costa Rica, o jornalista espanhol Javier Negre, sócio de Cerimedo em sites de notícias, instou nas redes sociais que os eleitores votassem na então candidata Laura Fernández.
Em 2022, o marqueteiro atuou na campanha de reeleição do brasileiro Jair Bolsonaro (PL-RJ) e disseminou ‘fake news’ sobre as urnas eletrônicas. O argentino foi, então, indiciado pela Polícia Federal. Seu trabalho não teria ficado tão às sombras se não houvesse imagens de encontros com o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) – o filho 03 do ex-presidente.
Em 4 de novembro de 2022, uma semana após o segundo turno da eleição presidencial que culminou na derrota de Jair Bolsonaro (PL-RJ), o portal La Derecha Diario – vinculado a Fernando Cerimedo e ao jornalista espanhol Javier Negre – transmitiu a ‘live’ ‘Brazil Was Stolen’ (‘O Brasil foi roubado’, em tradução literal), espalhando rumores sobre o sufrágio.
Jornalismo baseado em ‘fake news’
Em julho passado, mês anterior à captura, Fernando Cerimedo participou de uma transmissão na internet com Eduardo Bolsonaro (PL-SP), ressuscitando velhas narrativas contra o processo democrático brasileiro.
Com o pai em prisão domiciliar por delitos relativos à tentativa de golpe de Estado, coube ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) – filho 01 de Jair – concorrer ao Palácio do Planalto em 2026.
Um eventual êxito do primogênito o permitiria conceder indulto ao ex-mandatário e garantiria ao irmão o retorno ao Brasil. Em março de 2025, o ex-parlamentar se licenciou do cargo sob o falso pretexto de ser um perseguido político. Dos Estados Unidos, de onde vive desde então, instigou integrantes do presidente Donald Trump e negociou sanções contra autoridades brasileiras e a aplicação de ‘tarifaços’ a produtos brasileiros comercializados naquele país.
No último dia 25 de agosto, o site La Derecha Diario disseminou uma falsa notícia de que Santa Catarina enfrentava ‘um surto migratório proveniente do Marrocos’ e culpou o ‘regime socialista’ do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) – candidato à reeleição – pelo ‘descalabro migratório’ no estado sulista.
O portal de extrema direita se aproveitou da recente migração massiva de mais de 70 mil marroquinos às cidades autônomas espanholas de Ceuta e Melilla para distorcer a realidade dos acontecimentos, em meio ao período eleitoral no Brasil. Serviços de inteligência da Espanha investigam o episódio em seus territórios como uma alegada operação orquestrada para fragilizar o governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez.
“Fernando Cerimedo, consultor argentino que está sendo acusado de tentativa de assassinato contra sua ex-parceira na Bolívia, é um perigo para a democracia da nossa região. Ele participou e teve um questionado protagonismo nas eleições presidenciais no Brasil, quando difundiu a tese de fraude eleitoral nas eleições presidenciais desse país” (Juan Santana)
Fica evidente que a mentira não é apenas uma arma política contra adversários, senão uma ideologia posta em prática de maneira intencional e mascarada com a legitimidade do jornalismo.
Prisão e ‘fazenda de bots’
Nadia Beller é uma advogada boliviana. Foi vítima de uma tentativa de assassinato no último dia 17 de agosto, quando dois sicários, usando capacetes e disfarçados de entregadores, efetuaram três disparos. Câmeras do Swissôtel, em Santa Cruz de la Sierra, registraram o atentado (vídeo). O caso ganhou repercussão internacional e no Brasil tem sido amplamente divulgado pela mídia alternativa.
Vídeo: Redes Sociais - Divulgação
As imagens do atentado têm repercutido bastante na imprensa internacional
Grávida, ela sobreviveu aos tiros. Do leito do hospital (foto 2), denunciou o ex-marido como suposto mentor do crime – se comprovado, poderá ser classificado como feminicídio – e tem concedido entrevistas a veículos de imprensa de diferentes países, contando os bastidores e as tramoias de Fernando Cerimedo.
Imagem: Redes Sociais - Divulgação / Qualidade da foto melhorada com inteligência artificial
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| A diferentes veículos de notícia, Nadia Beller prometeu contar tudo o que sabe sobre o ex-companheiro |
O empresário argentino foi preso em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, na madrugada do dia 18, quando tentava fugir para a Argentina. No dia 21 do mesmo mês, a Justiça decretou prisão preventiva de seis meses.
Durante operação de buscas, apreensões e captura de Fernando Cerimedo, as autoridades bolivianas encontraram em imóveis e escritórios ligados ao empresário uma ‘fazenda de bots’ e apreenderam o equivalente a 500 mil bolivianos – algo em torno de R$ 216 mil – em diferentes moedas.
Com o celular do marqueteiro apreendido no âmbito do inquérito criminal, o Instituto de Investigações Forenses da Bolívia (IDIF) se deparou com registros de movimentações em criptomoedas no montante de US$ 44 milhões – o equivalente a R$ 228,1 milhões –nos últimos seis meses. Na conta foram encontrados menos de US$ 9, algo em torno de R$ 47. As transações foram rastreadas pelo senador Leonardo Roca, opositor do presidente Rodrigo Paz, de acordo com o canal argentino C5N.
No curso das investigações por suposta tentativa de feminicídio, os investigadores foram a uma casa de câmbio usada frequentemente pelo empresário. O dono do estabelecimento havia fugido com US$ 700 mil – cerca de R$ 3,6 milhões –, mas foi capturado pouco tempo depois. Uma pessoa foi presa e outra apreendida por terem facilitado a fuga, noticiou a emissora boliviana Unitel.
Além da tentativa de homicídio contra a ex-companheira, o marqueteiro sul-americano está sendo investigado por supostos delitos de enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro, além de tráfico de combustíveis, narcotráfico e de tentar sair da Bolívia ilegalmente com 189 quilos de ouro com destino a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Nadia Beller prestará depoimento como testemunha protegida. Está previsto que aborde o suposto contrabando de combustíveis, que tinha como beneficiários o ex-companheiro e a primeira-dama da Bolívia, Maria Elena Urquidi – popularmente conhecida como Bibi Urquidi –, segundo o portal argentino Página/12.
Repercussões no meio político
* Chile
Diante da gravidade das acusações e da relevância dos envolvidos, um grupo conformado por sete deputados chilenos enviou uma carta à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) – vinculada à Organização dos Estados Americanos (OEA) – para pedir proteção à advogada Nadia Beller, de modo a ‘prevenir atos de ameaça, assédio, intimidação ou represália contra ela’, noticiou o portal local El Mostrador.
“Nadia Beller apresentou publicamente antecedentes sobre supostas redes de corrupção, de operações políticas e digitais, estruturas dedicadas à gestão coordenada de contas em redes sociais e possíveis conexões internacionais”, justificaram os parlamentares chilenos em trecho do documento.
Ainda no Chile, legisladores de oposição ao governo de José Antonio Kast conseguiram as 62 assinaturas para instalar na Câmara dos Deputados uma Comissão Especial Investigadora sobre a atuação do consultor argentino no país, noticiou a Rádio Biobio Chile. O instrumento é similar a uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Brasil.
Na semana passada, o deputado chileno Juan Santana decidiu levar o caso de Fernando Cerimedo ao Ministério Público e cobrou a investigação acerca de um eventual financiamento eleitoral externo, de acordo com a Rádio Biobio Chile.
“Fernando Cerimedo, consultor argentino que está sendo acusado de tentativa de assassinato contra sua ex-parceira na Bolívia, é um perigo para a democracia da nossa região. Ele participou e teve um questionado protagonismo nas eleições presidenciais no Brasil, quando difundiu a tese de fraude eleitoral nas eleições presidenciais desse país”, argumentou o parlamentar chileno.
Em entrevista à Radio Cooperativa, o chefe de Estado chileno negou que tivesse trabalhado com o marqueteiro argentino: “Em nenhuma das minhas campanhas eleitorais trabalhei com esse senhor (Fernando Cerimedo). E o governo não tem assessorias com ele, mas, sim, eu o conheço, porque ele acompanhou a diversos líderes com quem eu me encontrei”.
* Bolívia
Desde a tentativa de assassinato há quase duas semanas, têm circulado em redes sociais imagens de Fernando Cerimedo em reuniões e eventos oficiais com representantes dos governos boliviano e estadunidense.
Em uma recente entrevista ao portal argentino Página/12, o vice-presidente da Bolívia, Edmand Lara Montaño, relatou que o marqueteiro tinha mais poder e influência em decisões governamentais do que ele, inclusive para dar ordem a ministros, mesmo sem estar oficialmente nomeado.
“(...) O povo merece que se conte a verdade. Fernando Cerimedo existiu, teve poder e decidiu no governo (...); Fernando Cerimedo foi assessor pessoal do presidente Rodrigo Paz. Isso é de conhecimento no Palácio [Quemado], isso é de conhecimento do país. Fernando Cerimedo esteve em várias reuniões de governo e esteve nas duas únicas reuniões de gabinete nas quais me deixaram participar como vice-presidente. Imagine só que Cerimedo participava mais das reuniões do que o vice-presidente, que foi eleito democraticamente”, manifestou Edmand Lara.
“Por denúncias do ex-ministro do Trabalho Edgard Morales, sabemos que Fernando Cerimedo influenciava na nomeação de pessoas nos ministérios e sempre fazia uso do nome do presidente. Cerimedo também esteve presente nas reuniões com os empresários de Santa Cruz [de la Sierra], na feira de exposição, antes da transmissão de posse (...); além disso, Fernando Cerimedo controlava a linha editorial de alguns veículos de comunicação, fazia sugestões, definia a linha das pautas e operava a comunicação governamental dentro e fora (...)”, continuou o vice-presidente boliviano, que acusou a imprensa local de tentar minimizar o escândalo.
Devido à repercussão negativa, o presidente Rodrigo Paz negou as acusações de seu então colega de chapa.
* México
A prisão do empresário argentino repercutiu no México. Durante sua tradicional conferência de imprensa, a presidenta Claudia Sheinbaum lembrou do deboche de Fernando Cerimedo e Javier Negre numa rede social em dezembro de 2025. Na época, eles a instaram a falar deles e disseram que atuariam para derrotar a esquerda nas próximas eleições.
A mandatária acusou o jornalista espanhol Javier Negre de trabalhar para o empresário mexicano Ricardo Salinas Pliego, proprietário da TV Azteca e da rede varejista Elektra. O magnata travou uma batalha midiática, política e litigiosa contra o atual governo, em protesto à cobrança de impostos federais não pagos há mais de uma década, cujas contestações de valores tramitam na justiça.
“(...) O tema central aqui é que nós denunciamos que La Derecha Diario é um meio de comunicação que fomenta a difusão de notícias falsas e gera opinião a partir de dinheiro; (...) o próprio Negre informou que Salinas Pliego o contratou”, expressou a líder mexicana.
As falas da presidenta mexicana desataram a ira de Javier Negre, que disse que ele e o La Derecha Diario vão continuar atuando no país ‘com a ajuda de Deus’. O comunicador tentou se desvincular do sócio e informou que não tinham mais negócios juntos.
Claudia Sheinbaum também rebateu as acusações de que sua gestão seria um ‘narcogoverno’, ao ironizar que o próprio fundador do portal é investigado por supostos nexos com gangues e matadores de aluguel envolvidos com narcotráfico.
* Colômbia
A prisão de Fernando Cerimedo também repercutiu na Colômbia, com o ex-presidente Gustavo Petro se referindo ao marqueteiro como ‘apenas um capo de uma cadeia que já pode ser denominada como a matrix da mentira’.
Na internet, o ex-mandatário colombiano informou ter solicitado ao Ministério Público a abertura de uma investigação contra Cerimedo e Negre por suspeita de manipulação eleitoral.
Bastante ativo nas redes sociais, Gustavo Petro repostou a foto de uma reunião na qual estavam Fernando Cerimedo e o secretário do Departamento de Estado norte-americano, Marco Rubio. A ideia é apontar uma possível atuação coordenada entre os portais noticiosos de extrema direita e o governo do presidente Donald Trump.
* Brasil
No Brasil, o deputado federal Rui Falcão (PT-SP) acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para que formalizasse uma cooperação jurídica com autoridades bolivianas, para que a corte tivesse acesso às provas apreendidas. O parlamentar pede que se investigue uma suposta interferência estrangeira nas eleições gerais de 2026.
* Argentina
Por sua vez, o presidente da Argentina, Javier Milei, tentou desacreditar o atentado sofrido pela advogada boliviana e disse não ter mais vínculo com o marqueteiro desde 2023, embora os registros da Casa Rosada apontem pelo menos 13 visitas entre dezembro de 2023 e junho de 2024.
Outro fato que contradiz o discurso do líder argentino é que ele será o convidado de honra da Official Hispanic Heritage Gala nos Estados Unidos, no próximo dia 14 de outubro. O evento está sendo organizado pelo portal noticioso La Derecha Diario e pela plataforma financeira Latino Wall Street.
Em entrevistas a jornais argentinos, Nadia Beller disse possuir alegadas confissões de Fernando Cerimedo sobre supostos esquemas de suborno comandados por Karina Milei, irmã do presidente libertário e secretária-geral da presidência. Em conversas privadas, o assessor de presidenciáveis teria dito que Javier Milei estaria fora de si.
Prisão de Cerimedo e Hondurasgate
A prisão de Fernando Cerimedo provocou um terremoto político de dimensão continental, por colocar sob suspeição processos eleitorais em nações cujas instituições não estariam aptas para combater a onda de desinformação.
“Imagine só que Cerimedo participava mais das reuniões do que o vice-presidente, que foi eleito democraticamente” (Edmand Lara Montaño)
No Brasil, esse fenômeno não é relativamente novo e dominou os pleitos de 2018 e 2022. Apesar disso, o país ainda não está devidamente preparado para enfrentar as ‘fake news’ e eventuais instrumentos de manipulação, em meio a escândalos de corrupção de políticos com ‘telhados de vidro’.
Para se blindar de tais práticas, incluindo intervenção e financiamento estrangeiros, o México blindou seu processo eleitoral, ao aprovar, em maio passado, uma emenda constitucional que permite anular o sufrágio. A medida foi tomada em meio às polêmicas sobre o caso Hondurasgate, que revelou um suposto complô internacional para interferir em eleições na América Latina, favorecendo candidatos de direita e/ou extrema direita.
Até o momento, não há provas de que os áudios filtrados no Hondurasgate, divulgados entre março e maio deste ano, estejam relacionados às plataformas comandadas por Fernando Cerimedo e Javier Negre. Em mensagens atribuídas ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández a alguns interlocutores, ele teria solicitado ajuda financeira para alugar um escritório nos Estados Unidos e montar um site de notícias, com o objetivo ‘de extirpar o câncer da esquerda’ da América Latina.
Javier Negre já foi processado na Espanha por calúnia, difamação, invasão de privacidade e fabricação de notícias falsas. Em 2019, foi condenado a pagar uma indenização de € 30 mil – cerca de R$ 136 mil na cotação da época – a uma mulher, por ter inventado uma entrevista exclusiva, quando foi repórter do diário espanhol El Mundo em 2016.
Tanto Cerimedo quanto Negre possuem conexões com políticos norte-americanos e com lobistas próximos à Casa Branca. Ainda não está claro se ambos seriam executores de uma das linhas de frente da ‘Doutrina Donroe’ – versão trumpista da Doutrina Monroe que trata a América Latina como um quintal dos Estados Unidos.
O que parecia ser uma suposta trama perfeita tem seu ‘calcanhar de Aquiles’: Fernando Cerimedo. Em comunicação, existe uma regra tácita de que a imagem pessoal se reflete na imagem pública e, consequentemente, na de seus clientes e assessorados.
Diante de tudo isso, Lula (PT-SP) pode se considerar uma pessoa de sorte. Com a repercussão das investigações bolivianas na imprensa internacional, apesar da escassa menção nos jornalões brasileiros, tem a chance de blindar a campanha e explorar politicamente as denúncias que envolvem o marqueteiro argentino e seu entorno.


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