Terça-feira, 09 de junho de 2015 A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) enviou, nessa segunda-feira (8/6), carta ao ...
Terça-feira, 09 de junho de 2015
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) enviou, nessa segunda-feira (8/6), carta ao reitor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Paulo Afonso Burmann, no Rio Grande do Sul (RS), exigindo um pedido de desculpas da instituição de ensino superior (IES), referente ao caso de suposto antissemitismo. Como é de conhecimento público, no mês passado, o pró-reitor de Pós-graduação, José Fernando Schlosser, solicitou, em memorando aos departamentos, saber a presença de alunos e professores israelenses. O objetivo era atender a um pedido do Comitê Santa-Mariense de Solidariedade ao Povo Palestino. Segue a carta completa:
“Senhor Reitor,
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência que representa mais de 130 sociedades científicas de todas as áreas do conhecimento e mais de 10 mil sócios ativos, foi tomada de surpresa com o documento encaminhado pelo Prof. Dr. José Fernando Schlosser, Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) a todos os Programas de Pós-Graduação da UFSM, no dia 15 de maio do corrente ano, sobre o assunto: 'levantamento de informações', no qual lê-se:
'Vimos solicitar a V. Sa., o envio urgente de informações sobre a presença ou perspectiva de discentes e/ou docentes israelenses nesse Programa de Pós-Graduação, podendo ser informado por e-mail.
Esta demanda atende solicitação de requerimento de representantes da SEDUFSM, ASSUFSM, DCE e Comitê Santamarinense (sic) de solidariedade ao povo palestino'.
Lembramos a V. Mag. que o Brasil é um país onde todos os povos com suas diferentes crenças convivem em harmonia. Essa solicitação, encaminhada pela universidade da qual o senhor é o representante maior, traz indignação a todos nós da comunidade acadêmica do país. Entendemos que a vida acadêmica do país deva ser referência na promoção de tolerância e respeito à diversidade, combatendo toda e qualquer forma de discriminação.
Vivemos hoje o Estado de direito, com uma democracia conquistada por muitas lutas, com a participação de todos os brasileiros de diferentes origens, incluindo cientistas, professores e estudantes, que lutaram e seguem na construção de um país mais tolerante e menos excludente.
Também gostaríamos de lembrar ao senhor a grande parceria que se deu em nosso país pela redemocratização, quando estiveram lado a lado, o arcebispo de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns e o Rabino Henry Isaac Sobel, entre outros líderes de outras religiões, para coibir as violências do regime ditatorial militar. Esse é o país que desejamos e não o que, infelizmente, a nosso ver, se expressa em vossa universidade.
Ao mesmo tempo, reconhecemos a necessidade de solidarizarmo-nos aos diferentes povos que enfrentam conflitos e lutas, muitas das quais resultantes de recrudescimento nacionalista, intolerância religiosa, política e territorial, protecionismo econômico, etc, como acontece entre diferentes povos e etnias, tais como nigerianos, suítas, chiitas, sírios, palestinos, israelenses, cubanos, ucranianos, venezuelanos, entre muitos outros, porém sem que isso acarrete na discriminação de um outro povo. Entendemos a importância de discutirmos os conflitos, mas sem que isso se expresse em uma conduta que ameaça a perseguição de um grupo de pessoas por seu credo ou origem étnica-racial (sic). A Academia deve ser porta voz (sic) do pensamento livre, e de discussões sobre como, juntos, podemos transformar o mundo em que vivemos em um de respeito, tolerância e integralidade e não da repercussão e incentivo a intolerâncias que, infelizmente, ainda seguem presentes.
Dessa forma, a comunidade acadêmica, docentes e estudantes, exigem um pedido de desculpas público, garantindo que nossos espaços universitários sejam locus de diversidade e valorização da mesma.
Lembramos ainda que nos colocaremos firmemente contrários a toda e qualquer forma de discriminação de qualquer ordem e seguiremos na construção de um país mais equânime em todos os sentidos.
Esta carta está sendo copiada para o Exmo. Sr. Ministro de Estado da Educação, Prof. Dr. Renato Janine Ribeiro e para o Exmo. Sr. Presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, responsáveis pela educação superior no nosso país para que tomem conhecimento e coibam atitudes semelhantes, preservando a história e o desejo do país que queremos alcançar.
Helena Nader
Presidente da SBPC”
O Ministério da Educação (MEC) já havia se manifestado sobre o assunto na semana passada. Destacou que a Lei de Acesso à Informação (nº 12.527/2011) não pode ser utilizada para violar direitos de outros cidadãos. O tal comitê de esquerda – de cunho político-ideológico –, formado pelo DCE, ASSUFSM e SEDUFSM, tentou dar viés legal ao requerimento, citando a supracitada legislação.
O pró-reitor foi denunciado à Procuradoria-Geral da República no RS (PGR-RS) por, supostamente, 'praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional', com base no Artigo 20 da Lei nº 7.716/1989, que trata sobre discriminação.
A Federação Israelita do Rio Grande do Sul (Firs) anunciou que pretende mesmo processar a IES. Na semana passada, a entidade judaica já tinha manifestado tal possibilidade. Mas, finalmente se decidiu sobre a questão após reunião com seus dirigentes ontem (8).
A Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do RS resolveu entrar no caso, para cobrar explicações à UFSM. “Tendo em vista a gravidade do caso – e a exposição na imprensa e em especial nas redes –, queremos ouvir a universidade para, então, procedermos. Como presidente de Comissão de Cidadania e Direitos Humanos, não posso calar diante de uma suspeita de preconceito e racismo institucional antissemita. Nossa Carta Magna caracteriza o racismo como crime gravíssimo e inafiançável. Vamos, portanto, buscar o esclarecimento dos fatos. Buscamos a transparência”, explicou o presidente da comissão, o deputado estadual José Antonio Paladini (PSB-RS), mais conhecido como 'Catarina Paladini'.
“A lamentável e repugnante discriminação contra judeus ocorrida na UFSM terá rigoroso acompanhamento da Assembleia Legislativa”, expressou o deputado estadual Marcel Van Hattem (PP-RS), quem pediu uma moção de apoio à comunidade israelita no Brasil.
Vale lembrar que a universidade não se desculpou oficialmente pelo incidente. Tentou sair pela tangente, ao rechaçar uma adulteração feita no memorando, que pedia claramente o boicote a Israel. O que gerou toda a polêmica. O pró-reitor José Fernando Schlosser disse que recorreria à Polícia Federal (PF) para investigar a autoria de tal alteração
Leia também:
Antissemitismo na UFSM é apenas a ponta do iceberg
Vale lembrar que a universidade não se desculpou oficialmente pelo incidente. Tentou sair pela tangente, ao rechaçar uma adulteração feita no memorando, que pedia claramente o boicote a Israel. O que gerou toda a polêmica. O pró-reitor José Fernando Schlosser disse que recorreria à Polícia Federal (PF) para investigar a autoria de tal alteração
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