Terça-feira, 17 de março de 2026 Trump desafia a soberania dos países e visa transformá-los em colônias de exploração e de “povoamento”, com...
Terça-feira, 17 de março de 2026
Trump desafia a soberania dos países e visa transformá-los em colônias de exploração e de “povoamento”, com a implementação de bases militares e de colônias penais para abrigar imigrantes deportados
Imagem: Gerada por inteligência artificial para Opinólogo
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| A América Latina como “quintal” dos EUA |
Doutrina Donroe
Se no primeiro mandato do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de 2017 a 2021, foi adotado o lema “America First” (“América primeiro”, em tradução literal), tendo virado as costas para o mundo, já no segundo, iniciado em 2025, a lógica se inverteu. Em vez de se isolar, está avançando pelo continente, desafiando a soberania dos países e colocando a América Latina em perigo, ao implementar a Doutrina Donroe. Trata-se de um termo não oficial baseado na ressignificação da Doutrina Monroe contra a recolonização europeia e com a premissa da “América para os americanos”. O expansionismo estadunidense – pejorativamente chamado de “imperialismo yankee” – está em sua máxima.
Esse modelo político reflete a personalidade agressiva, impulsiva e imprevisível de Trump e coloca em perigo a América Latina. A Doutrina Donroe – ou Trumpismo – mantém o pensamento clichê de que a região seria o “quintal” dos Estados Unidos e atua para afastar os países do continente de influências estrangeiras, principalmente chinesa e russa. No fundo, é bem mais do que isso: o intuito é isolá-los.
O Trumpismo é marcado por megalomania, territorialismo, interferência política, intimidação, coerção econômica e xenofobia. Atua buscando interferir com quem os países podem ou não ter relações comerciais, além de querer controlar sua economia e recursos naturais, por exemplo.
Dentro desse contexto, pode-se destacar: o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, no último dia 3 de janeiro; ameaça de tomar a Groenlândia; cerco econômico a Cuba; a instalação de bases militares no exterior; a transformação dos países do continente em colônias penais e de exploração; ameaça de retomar o controle do Canal do Panamá, se a nação centro-americana não rompesse parceria com os chineses; ameaça aos países do Brics, em caso de criação de moeda única para substituir o dólar; e ameaça ao Canadá em caso de acordo comercial com a China.
Trump quer isolar Pequim a todo o custo, mesmo que para isso seja necessário adotar práticas desleais. Ele quer os minerais raros chineses, mas não quer que a nação asiática tenha acesso a chips e processadores avançados como forma de limitar o avanço tecnológico, tanto em “smartphones” quanto em robótica e inteligência artificial.
Em setembro do ano passado, o governo Trump deu início a uma série de bombardeios a embarcações em águas internacionais, no Caribe, sob alegação de que estariam transportando drogas. Contudo, não foram apresentadas provas contundentes de que os mortos nos ataques fossem, de fato, criminosos.
Uma série de abusos está sendo cometida em nome da “segurança nacional”. Sob a falácia de combate ao narcoterrorismo, militares norte-americanos se entranham cada vez mais em países alinhados à ideologia ultradireitista de Donald Trump. Mas esse discurso se perde na prática. Em novembro passado, às vésperas das eleições gerais em Honduras, o líder republicano concedeu perdão presidencial ao ex-presidente Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão nos Estados Unidos por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. O intuito era influenciar na eleição de seu aliado Nasry “Tito” Asfura.
Outro exemplo de interferência política foi o fato de Trump ter condicionado, em outubro passado, um empréstimo de US$ 20 bilhões à Argentina à vitória do presidente Javier Milei nas eleições legislativas.
Presença militar estrangeira
O Trumpismo logrou que Paraguai e Equador aprovassem, recentemente, a presença de forças de segurança norte-americanas em seus territórios em meio ao aumento da criminalidade praticada por gangues e cartéis de drogas. O que parecem ser meros tratados internacionais têm forte viés ideológico e ingerencista a ponto de colocar em perigo toda a América Latina.
O suposto combate ao narcotráfico e ao terrorismo tem sido usado como justificativa para pressionar países da região a firmarem acordos de cooperação com os Estados Unidos.
Paraguai
Em dezembro passado, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, havia feito acordo com seu homólogo estadunidense Donald Trump. O Senado da nação sul-americana já havia ratificado o tratado duas semanas atrás, enquanto a Câmara dos Deputados, na última quarta-feira (11/3).
O Acordo do Estatuto das Forças – SOFA (Status of Force Agreement) – permite que membros do Departamento de Defesa e das Forças Armadas dos Estados Unidos circulem armados e uniformizados no Paraguai e que possam ingressar com armamento, barcos e equipamentos de comunicação sem qualquer tipo de inspeção. Apenas com notificação ao governo local.
Ademais, o tratado prevê benefícios equivalentes aos de diplomatas, como isenção fiscal e imunidade penal. Mesmo em território estrangeiro, os agentes estadunidenses estão submetidos à jurisdição do próprio país.
A instalação de bases estrangeiras facilitaria uma vigilância externa e também ataques e/ou invasões a outros países da região. Um exemplo prático disso é a série de bombardeios do Irã contra nações do Oriente Médio com bases militares norte-americanas em meio à guerra contra Israel e Estados Unidos. Para o país persa, todos são aliados no conflito.
Por décadas, nações latino-americanas, principalmente o Brasil, resistiram à presença da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Atlântico Sul. Sob Trump, essa entidade foi colocada em segundo plano, e os Estados Unidos a sobrepuseram, conseguindo, finalmente, se entranhar nesses países mediante o aval dos governos locais. O ingresso de forças de segurança externas de forma permanente representa entregar a soberania a outrem. É o mesmo que instalar minas terrestres contra si mesmo. Em algum momento, acabará pisando nelas por descuido ou tolice.
Equador
O governo do presidente equatoriano, Daniel Noboa, também firmou pacto com Trump, de modo a garantir a presença permanente de agentes da Polícia Federal estadunidense (FBI, na sigla em inglês).
A iniciativa ocorre uma semana após a operação conjunta entre ambos os países no enfrentamento ao narcoterrorismo. Além disso, contraria escancaradamente a vontade popular. Em novembro de 2025, os equatorianos rejeitaram em referendo uma mudança constitucional para permitir a instalação de bases estrangeiras. O resultado representou um grande fracasso para o governo andino.
Argentina
Na Argentina, por exemplo, o governo do presidente Javier Milei está em tratativas com Donald Trump, nos últimos meses, para a instalação de uma base militar em Ushuaia, na Terra de Fogo. A região fica bem próxima da Antártida.
Em meio a esses pactos, o governo argentino decretou intervenção federal no Porto de Ushuaia, em janeiro deste ano, com base em “falsos pretextos técnicos” – segundo autoridades locais – acerca de supostos desvios de verbas e falta de infraestrutura, os quais poderiam colocar em risco as operações e a segurança. O governador da Terra do Fogo, Gustavo Melella, faz oposição ao líder libertário e tentou barrar na Justiça a medida.
América Latina como colônia estadunidense
“A América é ingovernável; aquele que serve uma revolução ara o mar”. A célebre frase é do libertador venezuelano Simón Bolívar, que já percebia no século XIX a falta de coesão entre as nações latino-americanas e temia que a região caísse nas mãos de tiranos.
Após décadas de governos de esquerda, a América Latina está se tornando colônias de exploração e de “povoamento” dos Estados Unidos, algo que os europeus já faziam entre os séculos XV e XIX.
Por motivo distinto, Trump tenta transformar as Américas em colônias penais. Enquanto alguns antigos colonizadores – como Portugal, por exemplo – enviavam prisioneiros para cumprirem pena no continente recém descoberto, a fim de colonizá-lo e evitar invasão estrangeira, o mandatário estadunidense o faz por xenofobia.
Acordo firmado entre Donald Trump e seu homólogo salvadorenho Nayib Bukele transformou El Salvador numa colônia penal. Estrangeiros deportados nos Estados Unidos são enviados à nação centro-americana.
Recentemente, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) rejeitou pedido do governo Trump para receber imigrantes ilegais deportados dos Estados Unidos, para que pudessem cumprir pena em presídios brasileiros. Por outro, já estariam avançadas as tratativas entre Trump e Milei para que a Argentina receba detentos estrangeiros capturados nos Estados Unidos.
De certo modo, o posicionamento do Brasil atual também deve ser visto como um movimento de resistência contra o Trumpismo e a retomada política da extrema direta na região. A maior economia da América Latina está do outro lado do xadrez diplomático juntamente com outras nações democráticas como Colômbia e México, cujos governantes são de esquerda.
Sob Trump, houve intensificação de uma nova “guerra fria” dos Estados Unidos contra China e Rússia para tentar reduzir a influência desses países no continente. Tudo isso está ligado a questões comerciais, mais precisamente à perda de espaço de empresas norte-americanas, ademais da busca por recursos naturais como petróleo e “terras raras“ – como são chamados os minerais raros utilizados na fabricação de chips, processadores, baterias de carros elétricos etc.
Antes da captura de Nicolás Maduro, militares norte-americanos já estavam retendo navios petroleiros oriundos da Venezuela ou que tentassem ingressar no país. Após o rapto do ditador bolivariano, Washington passou a controlar a venda de petróleo no mercado internacional.
Acordo por “terras raras”
A caçada implacável por recursos minerais estratégicos fez com que os Estados Unidos firmassem um protocolo de intenções para que o Chile abastecesse os norte-americanos com “terras raras”. O acordo foi assinado no último dia 12 de março, dia seguinte após a posse do presidente José Antonio Kast. A medida pode afetar a China, que possui a maior reserva dessas matérias-primas e é a principal cliente da nação sul-americana.
Antes mesmo de assumir o mandato, o atual líder chileno participou do evento Escudo das Américas, no último dia 7 de março. O encontro foi promovido por Trump e reuniu uma dezena de chefes de Estado latino-americanos de extrema direita.
Na ocasião, e na presença de seus pares, o mandatário republicano disse, em tom jocoso, que não tinha tempo para aprender um “maldito idioma”, em alusão ao espanhol.
O encontro aglutinou uma legião de sectários e reforça que as relações desses governantes vão além do alinhamento ideológico, beirando o vira-latismo, o que coloca uma das partes em condição subalterna ou submissa.
Relações diplomáticas baseadas em ideologias – em vez de acordos econômicos, fronteiras geográficas ou heranças linguísticas – não são salutares. A longo prazo, podem acarretar prejuízos nas relações bilaterais e tornar esses países em reféns de um grande pacto com o “diabo”.
Numa contextualização mais ampla, as relações comerciais desses países serão baseadas em algum tipo de escambo, do mesmo modo que os europeus extraíam pau-brasil, ouro e outros metais preciosos e iludiam os povos originários com espelhos, panelas e outras bugigangas. Na era moderna, petróleo, minerais raros e o distanciamento com a China poderão ser trocados por empréstimos condicionados, apoio militar e redução de tarifas alfandegárias.


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