Terça-feira, 30 de dezembro de 2025 Usuários de ônibus são afetados por problemas que atingem algumas empresas em recuperação judicial, que ...
Terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Usuários de ônibus são afetados por problemas que atingem algumas empresas em recuperação judicial, que vão desde atrasos salariais à falta de combustível
Real e Vila Isabel
Imagens: Christian Soares - Ônibus Brasil / Qualidade das fotos melhorada com inteligência artificial - Arte: Opinólogo
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| Real e Vila Isabel compartilham garagem e outras particularidades |
Duas tradicionais empresas de ônibus que operam na cidade do Rio de Janeiro tiveram os serviços parcialmente paralisados por motivo inusitado: falta de diesel. Mais de 60 veículos da Real Auto Ônibus e da Transportes Vila Isabel não puderam deixar as garagens, na manhã dessa segunda-feira (29/12), o que provocou um caos e superlotação no metrô e em linhas de outras transportadoras que interligam bairros da Zona Norte, principalmente na Tijuca, e do Centro às zonas Sul e Sudoeste, nesse caso a Barra da Tijuca.
Os serviços foram restabelecidos entre a tarde e a noite do mesmo dia, e nesta terça-feira (30) estão funcionando normalmente. Juntas, foram cerca de 20 linhas de ônibus afetadas e mais de 300 veículos parados. Ambas as empresas operam no Centro, Zona Norte, Zona Sudoeste e Zona Sul do Rio. A Real, por exemplo, é líder do consórcio Intersul e é associada também ao Consórcio Transcarioca. Já a Vila Isabel, apenas ao Intersul.
Real e Vila Isabel também compartilham outras particularidades: além de operarem nas mesmas regiões e integrarem o mesmo consórcio, as duas ocupam a mesma garagem, estão em processo de recuperação judicial e enfrentam dificuldades para honrar a folha de pagamento dos funcionários.
No último dia 22 de dezembro, cerca de 1,3 mil motoristas, cobradores e demais empregados dessas duas prestadoras de serviços paralisaram as atividades em protesto a atrasos nos salários e no vale-alimentação, ademais de férias não pagas desde outubro passado, não repasse de pensões alimentícias e de empréstimos consignados, não recolhimento de contribuições previdenciárias, entre outros. As operações só foram normalizadas após um acordo entre as empresas e o sindicato laboral.
Em nota publicada nas redes sociais, a Real negou que a paralisação dos motoristas tivesse algo a ver com supostos atrasos salariais ou de benefícios.
“(…) A empresa informa que todos os salários dos colaboradores ativos estão rigorosamente em dia, assim como as duas parcelas do 13º salário, já integralmente pagas. O vale-alimentação também foi creditado, não havendo qualquer pendência nesse sentido”, publicou a concessionária.
Em outra postagem, a concessionária informou não haver risco de falência e negou ‘boato’ sobre demissão coletiva.
No último dia 16 de setembro, rodoviários da Real e da Vila Isabel também suspenderam os trabalhos, exigindo a regularização de obrigações trabalhistas por parte de seus patrões. Por conta da interrupção dos serviços, a Prefeitura do Rio de Janeiro decidiu multar o consórcio Intersul em R$ 4,93 milhões por descumprimento contratual, por não ter garantido a quantidade mínima de veículos rodando nas linhas.
Palmares, Paranapuan e Pégaso
A crise financeira no transporte público carioca também compromete algumas outras empresas. No dia 11 de setembro deste ano, por exemplo, rodoviários da Auto Viação Palmares e Transportes Paranapuan fizeram uma paralisação devido a atrasos nos salários e no vale-alimentação.
E no dia 23 de setembro, 12 dias após, foi a vez dos trabalhadores da Palmares, novamente, e da Expresso Pégaso cruzarem os braços em protesto salários e vale-alimentação em atraso.
Palmares e Pégaso têm muitas coisas em comum: são ligadas ao mesmo grupo empresarial, compartilham a mesma garagem, estão em processo de recuperação judicial e são vinculadas ao consórcio Santa Cruz, que opera na Zona Oeste do Rio, com algumas linhas até o Centro do Rio. A Pégaso é líder dessa associação.
Já a Paranapuan, tradicional empresa da Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio, interliga passageiros desse bairro a outros da mesma região, como Bonsucesso, Tijuca e Irajá, e também ao Centro. É associada ao consórcio Internorte e está em recuperação judicial.
Qualidade dos serviços x Reajuste na passagem
Os problemas que afetam os passageiros e a qualidade dos serviços vão além dos relatados. Ademais a demora ou o sumiço de certas linhas, inclusive por parte de outras empresas não mencionadas, vários veículos circulam em condições precárias e/ou o ar-condicionado não funciona.
De acordo com o Índice de Qualidade do Transporte (IQT) referente ao segundo trimestre de 2025, a Paranapuan, a Palmares, a Pégaso e a Vila Isabel estão entre as concessionárias mais mal avaliadas, sendo a pior delas a que atua na Ilha do Governador. Os dados são elaborados pela Prefeitura do Rio de Janeiro a partir de reclamações de usuários por meio de sua ouvidoria pelo telefone 1746.
Apesar do serviço deficitário, o valor da passagem nos transportes municipais subirá de R$ 4,70 para R$ 5 no próximo dia 4 de janeiro, conforme decreto assinado pelo prefeito Eduardo Paes (PSD-RJ) e publicado no diário oficial desta terça-feira (30). A nova tarifa será válida para os ônibus convencionais com ou sem ar-condicionado, Bus Rapid Transit (BRT), Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), vans e ‘cabritinhos’.
Desafios do setor de transporte urbano
Entre 2015 e 2021, ao menos 16 concessionárias cariocas quebraram. A crise se agravou durante a pandemia de coronavírus (Covid-19), por conta da redução no número de passageiros, não reajuste no valor da passagem, entre outras questões.
A crise econômica que atravessa algumas empresas de ônibus representa um grande desafio para o setor e também para a administração municipal, que precisa responder à altura e cumprir acordos firmados com os consórcios, com o Poder Judiciário e com o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) para sanar inúmeros problemas e demandas a fim de garantir a mobilidade urbana necessária.
Em 2012, o plano da Prefeitura do Rio de Janeiro era de que até 2020 toda a frota municipal estivesse climatizada. Já se passaram cinco anos desde o fim do prazo, e ainda há ônibus que circulam sem ar-condicionado ou sem funcionar devidamente.
Em novembro de 2025, como forma de obrigar as empresas a cumprirem com cláusulas contratuais, o governo carioca determinou que todas as linhas de ônibus municipais tivessem climatização, sob risco de perderem subsídios.
Para além das falhas e faltas que têm sido cada vez mais comuns por parte de algumas empresas problemáticas, resta saber se elas conseguirão contornar essa rota dramática e se terão condições de participar do novo processo licitatório para redistribuição das linhas de ônibus, várias delas que terão itinerário ampliado.
A primeira fase da licitação está prevista para ocorrer até abril de 2026 e começará pelos bairros de Campo Grande e Santa Cruz, ambos da Zona Oeste, região mais crítica, segundo a prefeitura.
No último dia 20 de dezembro, o mandatário carioca apresentou 100 novos ônibus – zero-quilômetro – da recém-chegada Santa Cecília Turismo (Sancetur), que inaugurou suas operações em outubro deste ano na Zona Oeste e se associou ao consórcio Santa Cruz. Grande parte das linhas foi herdada da Transportes Barra. Os veículos estão com a nova pintura padronizada, número de identificação, porém sem o nome da empresa.
Imagem: Marcos de Paula - SMTR / Qualidade da foto melhorada com inteligência artificial
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| A Sancetur chegou ao Rio em outubro de 2025 e já estreou 100 novos ônibus |
Além disso, as frotas terão cores padronizadas, conforme a região de atuação. Para passageiros que reconhecem os ônibus ou as linhas pela cor da empresa, isso será um transtorno. As concessionárias perderão protagonismo e as reclamações serão centralizadas na Ouvidoria do 1746.
Os operadores perderão a exclusividade nas linhas, que poderão funcionar por meio de um ‘pool’, como já acontece em vários casos, desse modo estimulando uma espécie de concorrência. O fim das concessões das linhas, previsto para 2028, foi antecipado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, que assumirá as operações até que aconteçam todas as fases do processo licitatório.
A segunda fase do novo certame, que abrangerá linhas da Zona Oeste, de Vila Isabel e da Ilha do Governador, ocorrerá entre novembro de 2025 e setembro de 2026.
Já a terceira fase se aplicará a linhas da Zona Oeste, Barra, Jacarepaguá e Zona Norte, e acontecerá entre abril de 2026 e abril de 2027.
A quarta fase, entre novembro de 2026 e novembro de 2027, será focada nas mesmas regiões anteriormente mencionadas, segundo a prefeitura.
E a última fase, de setembro de 2027 a setembro de 2028, será destinada a linhas que operam na Zona Sul e com maior avaliação.
Jaé
Em meio a inúmeros problemas que atingem setor de transportes, é válido destacar que durante dois anos, entre 2023 e 2025, o processo de implementação do Jaé como sistema de bilhetagem nos transportes municipais da capital fluminense passou por perrengues, tais como: baixa adesão por parte dos passageiros, demora na emissão dos cartões físicos, excesso de burocratização, entre outros. Um usuário que tivesse solicitado o cartão precisava agendar para poder retirá-lo e só poderia ir no dia marcado, mesmo que já estivesse pronto e ainda que o guichê estivesse totalmente vazio.
O Jaé foi lançado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, que alegava suposta falta de transparência nos dados das concessionárias, como número de passageiros transportados, quilometragem rodada, frequência das linhas etc. Por meio desse sistema, pode acompanhar em tempo real a situação no setor.



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