México: os 43 normalistas desaparecidos estão mortos, admite Procuradoria

Quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Anistia Internacional critica tentativa de encerrar o caso para encobrir suposta participação de autoridades e do Exército no desaparecimento dos estudantes

Os 43 normalistas desaparecidos em Iguala, no estado mexicano de Guerrero, em setembro passado, estariam mesmo mortos, afirmou o diretor-chefe da Agência de Investigação Criminal da Procuradoria-Geral da República, Tomas Zerón de Lucio, junto ao procurador-geral da República, Jesus Murillo Karam, na última terça-feira (27/1), em coletiva de imprensa.

“(...) No dia 15 de janeiro de 2015, elementos da Polícia Federal, em coordenação com o pessoal da Secretaria de Defesa Nacional detiveram Felipe Rodríguez Salgado, conhecido como 'El Terco' ou 'El Cepillo'; membro da organização delitiva autodenominada Guerreros Unidos, quem participou no sequestro, homicídio e desaparecimento dos 43 estudantes normalistas da Escola Normal Rural 'Raúl Isidro Burgos', de Ayotzinapa, Guerrero, na noite do dia 26 e no dia 27 de setembro de 2014”, disse.

Vale lembrar que em novembro passado, Murillo já tinha antecipado tal possibilidade numa coletiva de imprensa.

Ainda, segundo Zerón, os universitários teriam sido entregues ao cartel por policiais municipais de Iguala e Cocula, ambos do mesmo estado. Algumas das vítimas já teriam chegado mortas, possivelmente por asfixia, enquanto outras 15 a 18, vivas. Seus corpos foram queimados e lançados em um lixão. A perícia encontrou na região resíduos de gasolina e diesel, restos ósseos, alumínio fundido (possivelmente latas) pela exposição do calor intenso. Isso teria impossibilitado a identificação das vítimas. Não bastasse a dor da perda, os familiares não têm como enterrá-los.

Em carta enviada ao procurador-geral, a Anistia Internacional criticou o órgão por tentar encerrar as investigações numa suposta tentativa de encobrir a participação de militares no 'desaparecimento forçado' dos estudantes. Recentemente, a mídia local citou a suposta cumplicidade e/ou participação de autoridades locais e até do Exército no desaparecimento dos estudantes.

A Anistia também acusou a Secretaria de Governo de desqualificar o trabalho dos defensores de direitos humanos e de acusar aos familiares das vítimas de 'quererem gerar desconhecimento'. No último dia 12 de janeiro, estes tiveram um confronto com militares do Batalhão 27 de Iguala, numa tentativa de invadir o local. “Essas ações levadas a cabo por familiares são produto de sua frustração perante a falta de uma investigação exaustiva que inclua atenção a denúncias de participação das forças militares dos atos dos dias 26 e 27 de setembro”, justificou a entidade de direitos humanos.

Desde o início das investigações – que começaram com pelo menos 10 dias de atraso, de acordo com a ONG Human Rights Watch (HRW) –, pelo menos 99 pessoas foram detidas, 386 declarações foram tomadas e houve duas reconstruções do caso. Para a Anistia Internacional, as confissões de culpa seriam feitas, supostamente, sob tortura.

Entenda o caso

Em setembro passado, um grupo de estudantes da Escola de Magistério Normal Rural de Ayotzinapa, chamado de normalistas, partiu de Guerrero para a capital mexicana em ônibus. No caminho, os veículos foram emboscados por supostos policiais em conjunto com traficantes da facção Guerreros Unidos. Na ocasião, alguns alunos morreram durante o tiroteio, um deles com bala na cabeça, outros 15 ficaram feridos, além do sequestro dos demais 43.

Uma das versões noticiadas nos meios de comunicação é de que esses universitários participariam de um ato em memória à Massacre de Tatlelolco, de 1968, que resultou na morte de centenas de estudantes.

No entanto, a versão mais difundida é a de que o prefeito de Iguala, José Luis Abarca, teria, supostamente, ordenado à polícia municipal que detivesse os jovens, impedindo-os de boicotar um evento onde participava a primeira-dama, María de los Angeles Pineda. Os agentes teriam levado-os a criminosos. O presidente municipal, como chamam os mexicanos, e a esposa, que estavam foragidos, foram presos recentemente. Ele é considerado o principal suspeito.

Desde então, a população tem realizado protestos para cobrar as autoridades o paradeiro das vítimas, inclusive com a depredação de patrimônio público.

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