Quarta-feira, 07 de outubro de 2026
Segundo turno será disputado entre Lula e Flávio Bolsonaro, que ficou à frente do atual presidente na primeira rodada
Imagem: Gerada por inteligência artificial para Opinólogo - Foto ilustrativa
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| A soberania e o multilateralismo estão em jogo |
O dilema
Já é sabido que o Brasil terá segundo turno para presidente no próximo dia 25 de outubro, num domingo. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) – filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ) – obteve 47,03% dos votos válidos, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP), 45,16%, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) superou o adversário e conquistou 56.104.503 votos, enquanto Lula (PT-SP), 53.879.538. Em termos numéricos, a diferença entre ambos é de apenas 1,87 ponto percentual, ou seja, 2.224.965 votos. Mas na prática vai além: é uma sinalização de que os eleitores estão descontentes ou perderam a confiança no atual governante, que tenta emplacar o quarto mandato.
Neste pleito, especificamente, o dilema dos brasileiros não se resume a optar entre esquerda e direita. Terão de escolher entre um presidente do Brasil e um ‘embaixador’ dos Estados Unidos, respectivamente.
Lula
Lula (PT-SP) é um estadista, defende o multilateralismo e relações diplomáticas e comerciais independentemente de questões ideológicas, embora mantenha laços mais estreitos com grandes potências como a China e a Rússia.
De perfil progressista, ele defende o reconhecimento da Palestina como Estado e é um ferrenho crítico da carnificina provocada pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, contra civis palestinos na Faixa de Gaza em operações militares contra o Hamas.
O líder petista ficou preso por 580 dias entre abril de 2018 e novembro de 2019, no âmbito da Operação Lava-Jato. Foi condenado nas três instâncias da Justiça e teve prisão e sentenças anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), primeiramente por entender que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgá-lo, e posteriormente devido à suspeição do então juiz Sergio Moro. A Vaza Jato – escândalo revelado pelo Intercept Brasil – demonstrou um suposto conluio entre o magistrado e procuradores integrantes da força-tarefa para prendê-lo.
A grande questão é se Lula (PT-SP) pode realmente ser considerado culpado ou inocente, tendo em vista a anulação de seus processos. A roubalheira na Petrobras aconteceu, e ao menos R$ 25 bilhões foram devolvidos aos cofres públicos por meio de acordos de leniência e repatriações. No entanto, não se provou judicialmente que o petista tivesse envolvimento direto nem que fosse dono do famoso tríplex no Guarujá. A anulação das condenações por vício de legalidade não equivale a uma declaração de inocência.
À diferença de Jair Bolsonaro (PL-RJ), por exemplo, Lula (PT-SP) encarou de frente as acusações e seus adversários políticos e ideológicos. Não se refugiou em nenhuma embaixada nem colocou o país na mira de sanções internacionais.
Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) já foi deputado estadual no Rio de Janeiro e, atualmente, é senador. De perfil conservador, está alinhado aos Estados Unidos e a Israel.
Já foi investigado e/ou mencionado em escândalos de suposto esquema de ‘rachadinha’ da época que atuou na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e de empregar parentes de milicianos em seu gabinete. Além disso, teve uma loja de chocolates investigada por suspeita de lavagem de dinheiro.
Em 2021, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou a quebra de sigilo referente aos casos da ‘rachadinha’ e do empreendimento comercial, por entender que não competia à primeira instância julgá-los, tendo em vista o foro privilegiado do acusado. No ano seguinte, a denúncia do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) foi rejeitada e arquivada pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ).
Recentemente, o país soube que o filho 01 de Jair Bolsonaro pediu R$ 61 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para um alegado financiamento do filme ‘Dark Horse’ (‘O Azarão’, em tradução livre). O caso também está sob investigação pela Polícia Federal.
A obra, sem previsão de estreia, seria para homenagear o pai, que está em prisão domiciliar por envolvimento na fracassada tentativa de golpe de Estado, que culminou nas mobilizações, invasão e depredação da sede dos Três Poderes, em Brasília, no dia 8 de janeiro de 2023.
As polêmicas não param por aí: na semana passada, o portal Platô publicou um dossiê elaborado pelo empresário Alexandre Santini, ex-sócio de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), no qual afirma que o parlamentar teria, supostamente, participado de festas privadas com garotas de programa. Até o momento, não é possível comprovar o que está sendo dito, uma vez as imagens dos alegados eventos não vieram à tona.
O que está em jogo?
O destino do Brasil deveria ser decidido pelos brasileiros, somente, e sem qualquer tipo de ingerência estrangeira, seja de direita ou esquerda. Relatório elaborado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) aponta alegadas interferências estadunidense e russa nas eleições de 2026, de acordo com a agência de notícias Reuters. O fato foi relatado a delegações alemã e francesa em visita à nação sul-americana.
Nos últimos meses, Lula (PT-SP) foi alvo de uma série de ataques e insultos nas redes sociais por parte de aliados de Trump, como o deputado norte-americano Carlos Gimenez e o presidente da Argentina, Javier Milei.
Em carta datada dessa terça-feira (6) e endereçada ao secretário de Estado, Marco Rubio, 12 congressistas norte-americanos do partido Democratas criticaram o que classificam como ‘escalada’ de interferências nas eleições brasileiras, segundo o jornalista Jamil Chade, do ICL. O documento ainda acusa a chancelaria estadunidense de ‘fabricar’ crise diplomática, por revogar o visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti.
“Essa escalada desnecessária é a mais recente de uma série de ações que levaram a uma ruptura em nossa relação com a maior democracia e economia da América do Sul. Em um momento em que o Governo Trump afirma estar priorizando o Hemisfério Ocidental, essa decisão equivocada prejudica ainda mais a reputação dos Estados Unidos na região e aproxima o Brasil das mãos de nossos adversários”, escreveram os legisladores em trecho de nota.
Os democratas também acusam o governo Trump de aplicar a Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e de sobretaxar em 50% produtos brasileiros, ‘tudo em um esforço fracassado para proteger o ex-presidente [Jair] Bolsonaro, condenado por planejar um golpe violento e um plano de assassinato contra seus oponentes políticos’.
O prazo para que as indagações sejam respondidas é até o próximo dia 20 de outubro, cinco dias antes do segundo turno. Além do mais, a postura contraditória e bipolar da gestão Trump nas relações com a nação sul-americana, caracterizada por elogios e agressões, também é questionada pelos congressistas.
“Após seu encontro com o presidente Lula, o presidente Trump elogiou o presidente Lula, declarando: ‘Tive uma ótima reunião com o presidente do Brasil’, descrevendo Lula posteriormente como ‘um bom homem’ e ‘um cara inteligente’. No entanto, estamos preocupados que as ações subsequentes do Departamento de Estado tenham buscado sabotar a relação com o Brasil, para fabricar essa crise diplomática a meses das eleições no Brasil”, continuaram.
Está em vigor uma campanha internacional de assédios e ataques intervencionistas diretos e descarados vindos de norte a sul contra a democracia brasileira, suas instituições e soberania, algo sem precedentes na história do país. Tudo isso ocorre em meio à desmoralização fomentada por golpistas que se dizem ‘patriotas’.
Por enquanto, não há provas de que isso esteja ligado ao Hondurasgate, embora não seja um fenômeno isolado. Trata-se de um escândalo que revela uma suposta conspiração internacional para interferir em eleições na América Latina.
O governante argentino é mencionado como suposto doador de US$ 350 mil em áudios atribuídos ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, no âmbito do vazamento conhecido como Hondurasgate. De acordo com as mensagens, o objetivo seria interferir em processos eleitorais ‘para extirpar o câncer da esquerda de toda a América Latina’.
Todo esse modus operandi aparenta ter como propósito fabricar crises para moldar a opinião pública e alegar que o Brasil estaria “isolado” no continente, por conta da guinada política de governos de direita e de extrema direita nos últimos anos.
O bom senso demonstra que isso jamais vai acontecer por razões lógicas, quando se trata da maior economia da América Latina e do maior exportador de carne bovina e de frango, de soja, de suco de laranja e de outros alimentos e ‘commodities’.
Lula (PT-SP) é passageiro, mas o Brasil, não. Aos seus 80 anos, é provável que não concorra mais depois desta eleição. Os prejuízos causados por um voto errado, egoísta e puramente ideológico poderão ter consequências (im)previsíveis. Olhar para o cenário dos países alinhados ao Escudo das Américas dá uma dimensão do futuro nebuloso que está de tocaia para assombrar o país pelos próximos quatro anos.
O Brasil, assim como México e Uruguai, é um dos últimos redutos de resistência no campo democrático progressista da América Latina. No contexto atual, significa que se recusa a ser abduzido pela chamada ‘Doutrina Donroe’ – versão trumpista da Doutrina Monroe –, de ser subordinado ao Escudo das Américas, bloco ideológico liderado pelos Estados Unidos que reúne governos de direita e de extrema direita da região com o suposto objetivo de combater o narcotráfico.
No último dia 22 de setembro, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), Lula (PT-SP) reafirmou a defesa da soberania, enviando um recado claro ao governo norte-americano de que ‘o Brasil não cabe no quintal de ninguém’. Para caber no quintal de alguém, seria preciso reduzir o tamanho do Brasil e sua relevância geopolítica.
Lula (PT-SP) já deu provas de que é um líder nato e de forte credibilidade internacional. Em meio aos ‘tarifaços’ impostos pelos Estados Unidos – que tentam interferir a todo o custo em questões internas brasileiras –, conseguiu mediar a aprovação do acordo entre o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a União Europeia após quase três décadas de impasses e buscou novos mercados, aumentando as exportações em níveis recordes.
As sanções impostas por Donald Trump contra o Brasil foram instadas pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho 03 de Jair. Desde março de 2025, está radicado nos Estados Unidos. Ele buscou o autoexílio, ao alegar uma suposta perseguição da qual nunca foi alvo. O objetivo era impedir a condenação do pai no caso da trama golpista, criando toda uma narrativa. O ex-parlamentar passou a ser investigado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por coação no curso do processo depois de ameaçar os investigadores da Polícia Federal que atuavam no inquérito sobre incitar interferência externa contra o Brasil.
Recentemente, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) esteve nos Estados Unidos para pedir que não fossem aplicadas sanções comerciais contra o Brasil durante o período eleitoral, para que isso não atrapalhasse a sua campanha. Na ocasião, ocorria um julgamento tendencioso sobre supostas práticas desleais por parte da nação sul-americana. O filho primogênito de Jair também prometeu disponibilizar uma equipe de transição para negociar os interesses da Casa Branca, caso vença o sufrágio.
Sob Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o Brasil poderia deixar os Brics para agradar a Donald Trump. Durante a cúpula de 2025 do bloco, no Rio de Janeiro, o mandatário norte-americano fez ameaças aos países integrantes, caso decidissem substituir o dólar estadunidense como moeda nas negociações internacionais.
Vale lembrar que Donald Trump é crítico ao pix brasileiro, que até o momento é gratuito para pessoas físicas. Embora não haja dados oficiais, a modalidade brasileira de pagamento instantâneo pode ter afetado as receitas de empresas estadunidenses de cartões de crédito que lucram com as taxas de compras no débito.
Sob Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Brasília pode se converter na maior embaixada dos Estados Unidos. Mas isso não garantiria nenhum privilégio aos brasileiros, em meio às políticas xenófobas de Donald Trump contra imigrantes sob o pretexto de que todos seriam criminosos. O patriotismo trumpista é ‘MAGA’ – ‘Make America Great Again’ – (‘Torne a América Grande de Novo’, em tradução literal) e não inclui a América Latina.
Imagem: Gerada por inteligência artificial para Opinólogo / Foto ilustrativa
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| O Palácio do Planalto sob a perspectiva estadunidense |
Não existem santos ou mocinhos na política. Mas o que está em jogo pode comprometer o futuro do país por décadas. O risco de o Brasil se tornar uma autocracia é real. Estão sob ameaça a soberania, o multilateralismo, as terras raras e as relações para com países não alinhados ao governo de turno.
O líder norte-americano não quer apenas impedir o avanço da China na América Latina. Visa determinar com que os países podem ou não ter relações comerciais. Quer melhorar a economia estadunidense limitando as demais, por meio de coerção econômica, chantagem, intimidações e trapaças.
Com a disputa comercial fomentada por Washington contra Pequim, o país asiático reduziu as compras de grãos com os norte-americanos e priorizaram aliados como o Brasil, por exemplo.
Não se trata de simplesmente reduzir as influências chinesa e russa na região, mas de aumentar o espólio norte-americano com combustíveis fósseis, terras raras, transformar as nações aliadas em colônias penais como a de El Salvador, de possivelmente submeter parceiros a condições desiguais e de ditar a economia e as relações internacionais da América Latina para com países alinhados e não alinhados a Washington. É a execução do slogan ‘America First’ (‘América Primeiro’, em tradução literal) em sua essência.
A Venezuela é o exemplo mais recente da ‘Doutrina Donroe’. Após o sequestro do então presidente Nicolás Maduro, em janeiro deste ano, o país não retornou à democracia e, atualmente, o petróleo está sob controle norte-americano.
Sob Trump, os Estados Unidos deixaram de ser confiáveis e o mundo se tornou muito mais inseguro e perigoso. Sua política externa é marcada por coerção econômica e diplomacia predatória. Sob os pretextos da ‘segurança nacional’ e do alegado combate ao crime organizado, tem brincado de ser Napoleão Bonaparte.
Moral seletiva
Se os protagonistas deste pleito são os escândalos envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e sua rede de contatos, incluindo políticos, juízes e celebridades, a antagonista é a moral seletiva do eleitorado. São esses espectros paradoxalmente hipócritas que decidirão o próximo presidente.
As recentes polêmicas dominaram o debate público e substituíram as discussões de pautas importantes e urgentes como segurança pública, saúde, educação, moradia e combate à corrupção.
O antipetismo é, em grande parte, uma reação automática aos escândalos de corrupção descobertos durante os governos Lula (PT-SP) e Dilma Rousseff (PT-MG), incluindo Petrolão, Mensalão e a fraude no Instituto Nacional do Social (INSS).
Os descontos indevidos a aposentados e pensionistas começaram em 2019, ainda no governo de Jair Bolsonaro (PL-RJ). Contudo, o negacionismo seletivo se sobrepõe à verdade dos fatos, embora a administração Lula (PT-SP) tenha restituído àqueles que conseguiram comprovar que não tinham aderido a nenhuma associação ou sindicato.
Não tem nada a ver com ‘Deus, pátria e família’
O alinhamento de governos latino-americanos de direita e de extrema direita com Donald Trump não é apenas por mera ideologia. Trata-se de uma questão de sobrevivência política e econômica para não estar na mira das autoridades norte-americanas. Faz valer a velha máxima de que ‘se não pode com eles, junte-se a eles’.
Um exemplo dessa busca por proteção é o caso do presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Durante o governo do ex-presidente norte-americano Joe Biden, ele foi investigado pelos departamentos de Justiça e o de Segurança Interna, no âmbito da Força-Tarefa Vulcan, por suposta aliança com as duas principais gangues do país, para reduzir a violência e favorecer suas campanhas eleitorais, em troca de subornos e regalias a traficantes no sistema carcerário.
Já na gestão de Donald Trump, o mandatário salvadorenho deixou de ser investigado e aceitou abrigar em suas carcerárias imigrantes presos nos Estados Unidos, em troca da deportação de líderes de facções criminosas que atuam como testemunhas em casos que tramitam na Justiça norte-americana.
A candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é por motivos estritamente pessoais e não tem nada a ver com ‘Deus, pátria e família’. Como presidente, pode entregar o país de bandeja a Donald Trump para salvar o próprio grupo político em meio a escândalos. Além disso, pretende conceder o perdão presidencial ao genitor – em prisão domiciliar por delitos relativos à tentativa de golpe de Estado – e ao irmão Eduardo Bolsonaro, um autoexilado que desde março do ano passado tem incitado sanções econômicas contra o Brasil e algumas de suas autoridades.


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