Quarta-feira, 11 de março de 2026 Escola de samba homenageou o presidente Lula, que esteve presente na Marquês de Sapucaí Imagem: Acadêmicos...
Quarta-feira, 11 de março de 2026
Escola de samba homenageou o presidente Lula, que esteve presente na Marquês de Sapucaí
Imagem: Acadêmicos de Niterói - Redes Sociais
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| A ala mais polêmica do desfile da Acadêmicos de Niterói |
Investigação do MPRJ
O carnaval 2026 já acabou, mas as polêmicas continuam. A escola de samba Acadêmicos de Niterói é investigada pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) por suposta ‘prática de discriminação religiosa contra evangélicos’, durante o desfile de 2026 realizado na Marquês de Sapucaí, no Centro do Rio, no domingo de carnaval (15/2). A agremiação homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP), pelo Grupo Especial, com o enredo ‘Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil’.
O inquérito, instaurado nessa quarta-feira (11/3) e em ano eleitoral, teve como bases as notícias veiculadas na imprensa e denúncias recebidas pela 8ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva do Patrimônio Público e da Cidadania.
“As comunicações apontam que a alegoria teria incluído os ‘religiosos evangélicos’ em uma construção simbólica de conotação notadamente negativa, ao lado de grupos como os ‘defensores da ditadura militar’. As fantasias da ala intitulada ‘Neoconservadores em conserva’ retratavam esses grupos dentro de latas de conserva, o que, segundo a promotoria, pode sugerir rotulagem, estigmatização e simplificação depreciativa de uma identidade coletiva, rebaixando-a em razão da própria condição de fé”, explicou o MPRJ.
Desfile histórico
A agremiação, então estreante do Grupo Especial, foi mais uma vítima da ‘maldição’ do carnaval carioca, de que as escolas novatas que sobem à elite do samba são rebaixadas no ano seguinte. Por mais que se tente associar a derrota ao fato de ter homenageado o líder petista, a Acadêmicos de Niterói é, incontestavelmente, a grande ‘vitoriosa’ da edição 2026.
Apesar dos problemas técnicos durante a apresentação e da transmissão televisiva que deixou muito a desejar, a escola deu o seu recado doa a quem doer, entrando para a história do carnaval carioca por lograr um holofote incomum às escolas calouras do Grupo Especial, inclusive ofuscando o campeonato da Acadêmicos do Viradouro, também de Niterói, no Leste Fluminense.
Talvez a Acadêmicos de Niterói já soubesse, ou imaginasse, que retornaria à Série Ouro no ano seguinte. Mesmo assim, não se intimidou e decidiu permanecer com o tema, enaltecendo um presidente no exercício do cargo. E de um jeito estranhamente cultural, ao mesclar expressão artística popular e manifestação política, lavou a alma de milhões de brasileiros, ao ‘sambar na cara da sociedade’, despertando a ira de conservadores e provocando euforia e delírio perante a esquerda.
Repercussão política
Ao exibir evangélicos em latas de conserva (foto 1), a escola de samba criticou a hipocrisia do conservadorismo – cujas práticas muitas vezes estão em detrimento aos supostos valores tradicionais que defendem – e o fato de serem utilizados como massas de manobra por líderes religiosos e por políticos de extrema direita, inclusive por quem defende o passado tenebroso do regime militar e apoia anistia aos réus dos atos golpistas do 8 de janeiro de 2023.
Os evangélicos estão entre os principais eleitores do bolsonarismo. Em agosto de 2022, por exemplo, uma pesquisa da Genial/Quaest indicava que 51% dessa população tinham pretensão de votar na reeleição de Jair Bolsonaro (PL-RJ) para presidente, enquanto que 27% queriam Lula (PT-SP).
Em vez de uma introspecção acerca das críticas recebidas, certos pastores preferiram se aproveitar disso em ano eleitoral e transformar o desfile em ringue político-ideológico, por meio da velha polarização do ‘nós contra eles’. Talvez o repúdio à representação de cristãos em latas de conserva seja apenas uma cortina de fumaça.
Os evangélicos sempre foram um eleitorado extremamente sensível e difícil para o mandatário petista, especialmente por conta da defesa de bandeiras políticas distintas no âmbito dos direitos humanos.
Cabe à Justiça analisar e decidir se houve ou não ‘campanha’ antecipada em favor de Lula (PT-SP), mesmo sem pedido explícito de voto. Quanto à questão da suposta intolerância religiosa, vale destacar que não houve ataque à figura de Jesus Cristo nem à fé cristã, e sim críticas direcionadas ao comportamento e às preferências políticas de determinado grupo religioso, sem generalizar.
Imagem: Michele Gomes - Mídia Ninja - Redes Sociais
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| Bolsonaro foi satirizado em desfile que homenageou Lula |
A agremiação carnavalesca também incomodou ao debochar da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ), ao retratá-lo como um palhaço atrás das grades (foto 2) – em alusão ao apelido depreciativo de Bozo.
Ademais, satirizou o MAGA – ‘Make America Great Again’ (Torne a América Grande Novamente, em tradução literal) –, do presidente norte-americano, Donald Trump. A ala Patriotas da América trouxe o personagem Mickey, da Disney, usando um chapéu vermelho com o referido lema. Nesse caso, o escárnio também era direcionado a brasileiros conservadores que participam de protestos carregando uma bandeira dos Estados Unidos em vez da do próprio país.
Contenção de crise
Antes mesmo do desfile acontecer, a escola de samba já era alvo de polêmicas. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), com apoio de outros parlamentares bolsonaristas, tentou judicialmente impedir a apresentação e também proibir a exibição de imagens alusivas a Jair Bolsonaro (PL-RJ). Os signatários da ação alegaram propaganda política antecipada com o uso de verbas públicas, tendo em vista que as escolas de samba recebem patrocínio público e que Lula (PT-SP) será candidato ao quarto mandato.
Sem analisar o mérito, o juízo da 21ª Vara Federal Cível do Distrito Federal extinguiu o processo, ao frisar que uma ação popular não pode ser usada para impor ordens preventivas.
Imagem: Ricardo Stuckert - Presidência do Brasil
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| Lula cumprimenta mestre-sala e porta-bandeira da Acadêmicos de Niterói |
Lula (PT-SP) e a primeira-dama Rosângela Silva – Janja – estiveram na Marquês de Sapucaí, mas não desfilaram, por orientação da Advocacia-Geral da União (AGU). Recepcionado pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD-RJ), o petista homenageado posou para fotos com os casais de mestres-salas e portas-bandeiras (foto 3) durante as apresentações de todas as escolas do primeiro dia.
Apesar da forte repercussão, o desfile não trouxe danos à imagem do atual inquilino do Palácio do Planalto. Simplesmente, criou-se uma nova polêmica. Talvez o fato de não ter desfilado tenha minimizado qualquer tipo de crise – de associá-lo diretamente à agremiação – ou postura conivente com as alfinetadas.




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