Sexta-feira, 02 de junho de 2017
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Desde que vieram à tona as acusações feitas em delação premiada por executivos do grupo JBS, no último dia 17 de maio, envolvendo políticos, a imprensa tem noticiado que algumas celebridades, estabelecimentos e internautas estariam fazendo boicote aos produtos do grupo. Essa, teoricamente, seria uma forma de protesto ‘contra a corrupção’ e contra o acordo firmado com o Supremo Tribunal Federal (STF) que os livrou da prisão.
Só que antes de deixar de consumir os produtos do grupo empresarial, é preciso fazer um boicote à hipocrisia. É preciso ter em mente que os executivos não agiram sozinhos e não roubaram ninguém, não aprovaram medidas legislativas a favor de suas empresas. Eles simplesmente compraram apoio político por meio de financiamentos de campanha em troca de medidas e empréstimos em bancos públicos. Corromperam quem estava à venda. É preciso boicotar os políticos que se favoreceram do suposto esquema de corrupção, porque estes, sim, lesaram o país em benefício próprio e da organização criminosa não qual fazem parte, além de traírem o voto do eleitor. Esse idealismo barato de protestar pela metade só reforça que o boicotador tem ‘bandido de estimação’.
Não houve movimento parecido em relação às colaborações premiadas de empreiteiras envolvidas na Lava-Jato, operação que apura a roubalheira na Petrobras.
Os irmãos Joesley e Wesley Batistas estão sendo ‘vendidos’ midiaticamente como dois caipiras que deram um golpe no país, cresceram graças a empréstimos públicos durante os governos petistas, se tornaram os maiores produtores de proteína animal do mundo e agora viraram as costas e montaram a sede da holding nos Estados Unidos. As empresas do grupo já tiveram queda em ações em bolsas de valores, mas, certamente, não serão as únicas afetadas. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Caixa Econômica Federal (CEF) também poderão sair no prejuízo, já que são sócios.
Com o acordo de leniência firmado esta semana entre os irmãos Batista e a Procuradoria-Geral da República (PGR) no valor de R$ 10,3 bilhões, é possível que a empresa comece a recuperar a confiança do mercado. Não se discute aqui se a JBS merece ou não ser boicotada. O que se discute aqui é a seletividade do movimento, a tentativa de inverter o efeito pela causa.
O povo brasileiro não pode ficar esperando uma nova lei – tipo a do fim da reeleição – para fazer com que o país mude. É preciso mudar a perspectiva, ter consciência política, sair do analfabetismo político e da política do toma lá dá cá. O eleitor também precisa deixar de ser corrupto, de se vender por um saco de cimento, uma dentadura, entre outras benesses. O problema não está nos outros. O fim de tudo está em si mesmo.
Já dizia o filósofo francês Montesquieu: “Ninguém deverá se espantar se votos forem comprados a dinheiro. Não se pode dar muito ao povo sem retirar dele muito mais. Porém, para retirar dele é necessário subverter o Estado. Quanto mais o povo pensa aproveitar de sua liberdade, mais se aproxima do momento em que deve perdê-la. Cria pequenos tiranos que possuem todos os vícios de um só. Em breve, o que resta de liberdade torna-se insuportável: surge um único tirano. O povo perde tudo, até mesmo as vantagens”.
Nessa quinta-feira (1/6), a 5ª Vara Federal Cível em São Paulo determinou o bloqueio de R$ 800 milhões das contas de Joesley Batista numa ação civil popular interposta por dois advogados. A liminar se deve ao suposto lucro obtido com a compra de dólares às vésperas do acordo com a suprema corte ter se tornado público e que atingiram em cheio o presidente Michel Temer (PMDB-SP), o senador Aécio Neves (PSDB-MG), entre tantos outros políticos. Os irmãos Batista são acusados de praticar ‘insider tranding’, por se utilizaram de informação privilegiada para comprar US$ 1 bilhão e venderem o equivalente a R$ 327,4 milhões em ações no mês de abril, quando já se negociava a delação. A operação é investigada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Os autores do processo alegaram que a JBS teve um faturamento superior a 4000% graças aos empréstimos feitos junto ao BNDES. Eles queriam o bloqueio de R$ 10 bilhões nas contas de todos os réus, que incluem Wesley Batista, outros executivos e algumas das empresas.
Os benefícios logrados pelos donos da Friboi, Seara, Vigor, Havaianas e outras marcas famosas são objetivos de críticas de políticos em geral e podem ser discutidos no plenário do STF, que decidirá se os mantém ou os revoga. Na prática, isso geraria insegurança jurídica e criaria precedentes. Os dirigentes também relataram subornar dois juízes e um promotor para que atuassem em casos em que eles eram investigados.
Para o filósofo Maquiavel, ‘chegará um tempo em que, um povo para combater a corrupção, talvez tenha de retroagir uns 20 ou 30 anos no judiciário, pois é nele que se perpetua todo o mal’.

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