Sábado, 01 de agosto de 2026 Fiocruz e laboratório MSD/Merck firmam memorando de entendimento sobre medicação em fase de estudo no Brasil e ...
Sábado, 01 de agosto de 2026
Fiocruz e laboratório MSD/Merck firmam memorando de entendimento sobre medicação em fase de estudo no Brasil e em outros países
Imagem: Gerada por inteligência artificial para Opinólogo - Foto ilustrativa
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| Apenas 12 comprimidos por ano; a escolha da cor remete à campanha Dezembro Vermelho, de conscientização e enfrentamento ao HIV |
Fase 3 dos ensaios clínicos
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o laboratório estadunidense MSD/Merck firmaram um memorando de entendimento para eventual aquisição e transferência tecnológica para a produção em território nacional do alimatravir (MK-8527). Trata-se de uma profilaxia pré-exposição (PrEP) para prevenir a infecção pelo tipo 1 do vírus da imunodeficiência humana (HIV-1, na sigla em inglês), de apenas uma pílula por mês. O acordo foi assinado durante a Conferência Internacional de Aids, na última terça-feira (28/7), no Rio de Janeiro, com a presença do ministro da Saúde, Alexandre Padilha (foto 2).
Imagem: IAS Conference - Redes Sociais
| O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, foi um dos palestrantes da edição 2026 da Conferência Internacional de Aids, que aconteceu no Rio entre os dias 26 e 31 de julho |
O andamento das negociações está condicionado aos resultados conclusivos da fase 3 do ensaio clínico, que busca avaliar a eficácia em seres humanos em maior escala, além da aprovação do medicamento perante os órgãos regulatórios.
Cerca de nove mil pessoas de 17 países, incluindo o Brasil, estão participando dessa fase. O estudo está ocorrendo em hospitais e clínicas de cinco estados:
* Amazonas: Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado, em Manaus.
* Bahia: Obras Sociais Irmã Dulce, em Salvador.
* Minas Gerais: Escola de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte.
* Rio de Janeiro: Hospital Geral de Nova Iguaçu, em Nova Iguaçu; Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz, no Rio de Janeiro.
* São Paulo: Centro de Referência e Treinamento DST/Aids, em São Paulo; Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em São Paulo; e Ricardo Diaz Scientific Solution, em São Paulo.
A fase 3 do estudo – chamada de EXPrESSIVE – se iniciou em 31 de julho de 2025, com data estimativa de encerramento em 22 de julho de 2027, e foi dividida em dois programas.
O primeiro deles é o EXPrESSIVE-10, com mais de 4,5 mil participantes, composto por mulheres cisgênero e jovens entre 16 e 30 anos com vida sexual ativa, no Quênia, na África do Sul e em Uganda.
O segundo programa é o EXPrESSIVE-11, com mais de 4,3 mil voluntários. É voltado a homens cisgênero que se relacionam com outros homens, homens trans, mulheres trans e pessoas não binárias a partir dos 16 anos. Além do Brasil, o estudo é realizado na Argentina, na Colômbia, na França, nos Estados Unidos, na Tailândia, no Vietnã, entre outros.
Medicamento promissor
O alimatravir (MK-8527), como remédio de duração prolongada, já demonstrou ser promissor em vários aspectos nas fases anteriores de estudo. E um deles sugere que uma dose de 11 mg é capaz de produzir, dentro de uma hora, níveis consideráveis de proteção contra o HIV-1 – o tipo mais comum da doença.
Apenas 12 comprimidos por ano, em vez de 365. Esse é um importante diferencial quando se compara com a PrEP oral diária – entricitabina + fumarato de tenofovir desoproxila –, que em início de tratamento leva sete dias de uso diário em homens e 20 dias de uso diário em mulheres. É preciso o acúmulo de medicação no organismo para garantir proteção efetiva.
A PrEP oral diária, baseada no Truvada, é disponibilizada gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a pessoas não portadoras do vírus, mas com riscos elevados de exposição à enfermidade, como profissionais do sexo, homens que mantêm relações sexuais com outros homens, além de travestis e pessoas transgêneros.
Ensaios clínicos realizados em pessoas vivendo com HIV, por exemplo, demonstraram uma queda drástica e rápida na carga viral por até sete dias com o uso do alimatravir (MK-8527).
Embora os dados não sejam ainda conclusivos, as dosagens de 6 mg e 12 mg se mantiveram acima do limiar por pouco mais de 28 dias, oferecendo uma espécie de “janela de tolerância” de até uma semana, caso o paciente de PrEP esqueça de tomar a medicação no prazo pré-estabelecido de 30 dias.
O MK-8527 precisa entrar nas células e ser transformado pelo organismo na forma ativa – o trifosfato (MK-8527-TP) –, para impedir que o vírus se replique. Os testes revelaram que uma baixíssima concentração do remédio experimental foi capaz de inibir em 50% a replicação do vírus HIV.
Os ensaios da fase 1 começaram entre julho e agosto de 2018, reuniram cerca de 100 a 150 voluntários soronegativos e soropositivos e foram realizados em países como Estados Unidos, África do Sul e Romênia. Nenhum dos participantes portadores da doença fazia uso prévio de antirretrovirais. O objetivo foi estabelecer a segurança e a farmacocinética – absorção, distribuição, metabolismo e excreção – do alimatravir (MK-8527).
Já a fase 2 reuniu 350 voluntários, homens e mulheres entre 18 e 65 anos, todos com baixo risco de infecção por HIV. Os participantes eram dos Estados Unidos, da África do Sul e de Israel. O ensaio clínico ocorreu entre 8 de novembro de 2023 e 12 de fevereiro de 2025.
Durante seis meses, uma vez por mês, os voluntários tomaram a medicação em 3 mg, 6 mg ou 12 mg. Outro grupo recebeu placebo.
Os estudos também indicaram que o alimatravir não possui interação medicamentosa significativa com anticoncepcionais orais como o levonorgestrel/etinilestradiol e não altera o metabolismo. Além disso, sugere ser baixo o risco para o fígado e os rins.
Esse é um ponto importante quando comparado com o islatravir (MK-8591), outro medicamento experimental fabricado pela MSD/Merck e antecessor do alimatravir (MK-8527). Em 2021, a pesquisa focada na profilaxia pré-exposição foi interrompida por questões de segurança, devido à diminuição na contagem de células CD-4 e de linfócitos totais. Ambos são células de defesa do organismo. O objetivo da MSD/Merck era produzir um implante subcutâneo para liberar a medicação pelo prazo de um ano.
PrEP injetável
O anúncio da parceria entre a Fiocruz e a MSD Brasil ocorreu na mesma semana em que o Ministério da Saúde disse avaliar incorporação da PrEP injetável no SUS. A dose de Apretude – nome comercial do cabotegravir – precisa ser aplicada a cada dois meses. O produto é fabricado pela ViiV Healthcare, holding controlada pelos laboratórios GlaxoSmithKline (GSK) e Shionogi.
O pedido para inserir a PrEP injetável foi submetido à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e deverá ser analisado neste mês de agosto.
Outro ponto a ser destacado é que as tratativas com a MSD Brasil acontecem em meio ao impasse da farmacêutica estadunidense Gilead Sciences – fabricante do Truvada, a PrEP oral tradicional – para fechar um acordo com o Ministério da Saúde brasileiro quanto à aquisição e transferência tecnológica do Sunlenca, nome comercial do lenacapavir. Trata-se de uma profilaxia pré-exposição injetável de aplicação semestral, embora alguns estudos mais recentes apontem para a persistência da substância por até um ano no organismo.
O governo brasileiro se dispôs a pagar US$ 400 – mais de R$ 2 mil – anuais por paciente. A cifra é dez vezes maior do que outros países com mesmo perfil socioeconômico do Brasil pagam pelo lenacapavir. Apesar disso, a Gilead Sciences não aceitou, de acordo com o portal de notícias Agência Aids.
Por outro lado, a ViiV Healthcare concordou com o valor proposto pelo Brasil para a aquisição do cabotegravir, também de US$ 400 anuais por paciente.
Os próximos anos indicam uma verdadeira corrida farmacêutica na disputa por medicamentos de média e longa duração contra o HIV tanto para pacientes soronegativos quanto para soropositivos. Isso gera concorrência, tende a baratear os preços a governos e a pacientes e reduz a concentração de mercado.
Esse tipo de medicação tem potencial para se tornar uma “febre” entre os consumidores, repetindo o fenômeno observado em relação às canetas emagrecedoras, que atraíram o público quanto à segurança, eficácia e praticidade.
Em apresentação a investidores, a MSD/Merck estima que, em meados da década de 2030, seu portfólio de remédios contra o vírus da imunodeficiência humana movimentará US$ 5 bilhões, algo em torno de R$ 25 bilhões na conversão atual.


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