Vault 7: Wikileaks começa a abrir “cofre” com mais segredos da espionagem dos EUA

Quarta-feira, 08 de março de 2017

Espionagem cibernética

Imagem: Wikileaks / Twitter / Reprodução
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O Wikileaks coloca em xeque, mais uma vez, a capacidade de os Estados Unidos de se proteger em suas atividades secretas. O site do ativista australiano Julian Assange começou, nesta terça-feira (7/3), a publicar uma série de supostos documentos sobre a espionagem cibernética da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês), quais as metodologias utilizadas, entre outras coisas que serão desenroladas durante os próximos meses. Batizado de “Vault 7” (cofre, em inglês), este já é considerado o maior vazamento da história do governo norte-americano e é mais um escândalo concreto que a administração Trump terá de enfrentar em menos de dois meses de gestão. A primeira leva de publicações, chamada ‘Year Zero’ (Ano Zero, em inglês), traz 8.761 documentos.

Um dos recentes escândalos foi a exoneração de um de seus subordinados num suposto envolvimento com o governo russo, cuja suspeita recai sobre uma possível espionagem contra a campanha da candidata adversária Hillary Clinton que acarretou no vazamento de e-mails que a teriam prejudicado nas urnas.

De acordo com o Wikileaks, a CIA criava vírus, “malwares” e cavalos de troias para infectar computadores Windows e Linux, além de tablets e smartphones de sistemas operacionais como iOS, Android e Windows Phone, por exemplo, aproveitando-se de vulnerabilidades em aplicativos e a não atualização dos mesmos por parte dos alvos. As atualizações dos fabricantes servem para corrigir eventuais brechas na segurança.

Apesar do Android, do Google, estar em 85% dos smartphones no mundo, havia um interesse especial da agência no iOS, presente em 14,5%, já que o iPhone costuma ser utilizado por políticos e diplomatas, por exemplo.

Até mesmo as smart TVs Samsung apresentavam suposta fragilidade. Num sistema desenvolvido pelo MI5, o serviço secreto britânico, era possível captar conversas. Os alvos poderiam pensar que os aparelhos estivessem desligados, quando, na verdade, poderiam estar transmitindo áudios por meio da conexão com a internet.

Em 2014, a CIA teria demonstrado interesse em infectar carros e caminhões modernos e com sistema de navegação automática. Apesar de tal finalidade não ter sido explicada, poderia permitir assassinatos “indetectáveis” como se fossem meros acidentes, alertou o Wikileaks.

Desde 2001 que a CIA ganhou maior atenção por parte do governo e, consequentemente, maior orçamento em relação à Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês).

Os documentos chegaram ao Wikileaks através de um suposto funcionário do governo estadunidense que não teve a identidade revelada, depois que a CIA perdeu o controle de seu arsenal cibernético que incluía centenas de milhões de códigos, os quais teriam sido compartilhados entre antigos hackers. Os detentores desses códigos passam a ter a mesma capacidade operacional que a agência, o que poderia comprometer a segurança e a privacidade a nível mundial se cair em mãos erradas.

Para o portal ativista, a espionagem digital evita conflitos militares diretos com outros países, por não haver uma ação física e/ou de invasão territorial. Os novos vazamentos de dados ocorrem após a recente difusão de que os Estados Unidos, supostamente, promoveram ataques cibernéticos contra a Coreia do Norte, para sabotar o programa de lançamento de mísseis nucleares.

A operação “Vault 7” sinaliza que esse “cofre” de segredos da diplomacia norte-americana dificilmente será fechado depois dessa, ou que apesar dos vazamentos passados, não se aprendeu absolutamente nada sobre como evita-los outra vez.

Alemanha: a porta de entrada da “ciberespionagem” americana para a Europa

Ao que parece, o Consulado dos Estados Unidos em Frankfurt, na Alemanha, seria uma base da CIA, segundo o Wikileaks. Após receberem passaportes diplomáticos do Departamento de Estado e passarem pela triagem das autoridades alemãs, os hackers da agência conseguiam adentrar sem visto nos demais países europeus.

No último dia 16 de março, o Wikileaks divulgou que a CIA, supostamente, espionou os maiores partidos franceses durante os sete meses que antecederam as eleições presidenciais de 2012. A prática teria perdurado por mais alguns meses até a formação do novo governo. Entre os alvos estavam o Partido Socialista, a Frente Nacional e a União para um Movimento Popular, e seus candidatos. O objetivo era saber sobre como lidariam com a crise da zona do euro, o que pensavam a respeito do possível calote grego e da liderança da Alemanha e da França para remediar a situação, por exemplo.

A espionagem como política de Estado

A fragilidade dos Estados Unidos em questões de segurança ficou evidente durante o governo de Barack Obama, depois que o Wikileaks publicou que o Departamento de Estado espionou por décadas governos e políticos. A liderança do Brasil, na gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP), sobre a América Latina era motivo de indagações e de preocupações entre os vizinhos do subcontinente. Até a sanidade mental da ex-presidente argentina Cristina Kirchner foi objeto de interesse, por exemplo. A crise criada pela gama de revelações provocou a exoneração de Hillary Clinton como secretária do Departamento de Estado.

A incapacidade de se proteger novamente ocorreu, quando o ex-espião da NSA Edward Snowden revelou que a ex-presidente Dilma Rousseff (PT-RS) e a Petrobras, entre outros chefes de governo mundo afora, tiveram seus telefones grampeados. As atividades dessa agência seriam em conluio com os serviços secretos britânico, australiano e neozelandês, segundo o ex-agente.

Os vazamentos ocorridos poderiam ser considerados “traições” de seus agentes por parte do governo, como também o descontentamento deles com o modus operandi que, em vez de dar um passo à frente, compromete a diplomacia.

As supostas espionagens estadunidenses colocam por terra de que sua função é meramente o combate ao terrorismo, e que os reais interesses são econômicos e políticos. Mais do que isso: mostram que não se tratam de uma política de governo, mas de Estado. Mesmo que mude de presidente, as agências continuarão atuando de maneira independente.

O ativista Julian Assange, de 45 anos, está asilado na Embaixada do Equador no Reino Unido desde 2012. Não consegue deixar o local, pois pode ser preso e deportado para a Suécia, para responder por um suposto crime de estupro, o qual ele nega e diz que poderia ser deportado pelo governo nórdico para os Estados Unidos. Seu futuro é incerto e dependerá do resultado da eleição presidencial na nação sul-americana, cujo segundo turno está previsto para o próximo dia 2 de abril. Ele conta com a proteção do presidente Rafael Correa, que não pôde se candidatar de novo.

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