terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Um elefante incomoda muita gente, mas do tamanho do Brasil incomoda muito mais

Documentos divulgados pelo Wikileaks revelam que hegemonia brasileira na América Latina causava insatisfação a governos regionais

Imagem: Divulgação

“Um elefante incomoda muita gente”. Quem não se lembra dessa musiquinha chata? Só que do tamanho do Brasil incomoda muito mais. Pelo menos é isso que mostra o Wikileaks ao revelar que a hegemonia do gigante sul-americano – com mais de 8 milhões e meio de quilômetros quadrados – causava uma certa inveja, ou para ser mais educado, uma preocupação por parte de três países: Colômbia, Chile e Paraguai.

Embaixadores norte-americanos serviam como uma espécie de “conselheiros espirituais”: ouviam as lamentações desses três governos e os orientavam na forma de agir em temas de política regional. As queixas tinham uma conotação semelhante: que os EUA contivessem a influência brasileira no bloco. Literalmente, eram como filhos que levavam os problemas a um pai ou uma mãe. Difícil resistir às palavras do presidente venezuelano, Hugo Chávez, que provavelmente diria sobre esse tipo de subordinação: “lacaios do império!!!”

De acordo com publicações recentes do blog da Carta Capital, usado para divulgar os segredos da diplomacia estadunidense, em dezembro de 2004, o então líder colombiano, Álvaro Uribe, teria participado de um encontro com autoridades norte-americanas e supostamente dito que sua relação com o então presidente Lula era complicada pelo esforço deste tentar construir uma aliança anti-Estados Unidos, e que o Brasil teria pretensões imperialistas.

Até o atual mandatário colombiano, Juan Manuel Santos, na época ministro da Defesa, teria ido ao confessionário americano para manifestar preocupação em relação à proposta de seu homólogo brasileiro, ministro Nelson Jobim, de se criar um Conselho de Segurança para o bloco sul. Santos temia que a ideia tivesse surgido de Caracas e era contrário à iniciativa que poderia duplicar a função da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Organização das Nações Unidas (ONU). Jobim teria sido curto e grosso: com ou sem a Colômbia seguiria com o objetivo, e que Bogotá poderia ficar isolada. O embaixador estadunidense, William R. Brownfield, teria sugerido que Juan Manuel sondasse se outros países tinham o mesmo receio, e assim tentasse se unir a eles.

Já a então chanceler paraguaia, Leila Rachid, que atuou no cargo entre 2003 e 2006, durante o governo do então presidente Nicanor Duarte Frutos, temia que com uma suposta política “imperialista” o Brasil “controlasse” seu país. Em 2004, o Paraguai presidia o Mercosul (Mercado Comum do Sul), e nesse período o presidente equatoriano Lúcio Gutierrez foi destituído do cargo pelo Congresso, após perder o apoio das Forças Armadas. Com isso, Brasília teria pedido que as diretrizes da Comunidade Sul-Americana de Nações – atual Unasul (União das Nações Sul-Americanas) – criada recentemente, fossem aplicadas, enquanto que Assunção preferia a evocação da Carta Democrática Interamericana. Pois, para o então chanceler Celso Amorim, a citação do documento da OEA poderia servir de convite para que os EUA se intrometessem em problemas regionais.

Talvez seja possível afirmar que, com uma política econômica estável, o Brasil se tornou um “elefante branco”, ainda em crescimento- o que em breve pode se colocar como o quinto país mais rico – contudo, que se impõe e hoje sua importância é notada no cenário internacional. Como disse certa vez o primeiro ministro espanhol, José Luís Zapatero, essa nação deixou de ser o país do 'se' para se tornar uma realidade formidável.

A Unasul, um bloco que jamais se imaginou que poderia dar certo, tem caminhado lentamente, mas para frente. Uma importante conquista foi a intervenção que resultou na reaproximação de Venezuela e Colômbia, cujos laços tinham se deteriorado desde que Bogotá permitiu em seu solo a instalação de forças militares estadunidenses, e quando o governo de Uribe teria apresentado na OEA documentos que supostamente mostravam a presença de guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) nas terras de Chávez, acusando-o de dar abrigo. As negociações teriam sido administradas pelo ex-presidente argentino, Nestor Kirchner, quando presidia o bloco.

Talvez seja possível dizer que, por passar por cima das Nações Unidas ao tentar fazer um acordo nuclear com o Irã, que o Brasil se deu um golpe no próprio “saco”, agindo em contradição com a comunidade internacional que condenava o feito. Certamente, não teremos o apoio dos norte-americanos para ocuparmos uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, por causa da posição contraditória aos interesses do povo lá de cima. Mas, para quê o Brasil quer assentamento fixo se não consegue garantir segurança dentro de “casa”? Podem até dizer que o gigante seja implicante, no entanto é preferível dizer que tem personalidade um pouco cabeça-dura, mas tem.

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