Argentina: nacionalismo, politicagem e a disputa entre a viva e o morto

Segunda-feira, 02 de março de 2015

Kirchneristas promovem manifestação pela presidente, em resposta à marcha que homenageou promotor morto

Imagem: Casa Rosada / Reprodução / Creative Commons
A presidente cumprimentando simpatizantes políticos
a caminho para o Congresso
Os argentinos deram uma prova de nacionalismo, nesse domingo (1/3), ao aguentar a presidente Cristina Kirchner discursar por três horas e 40 minutos perante o Congresso. O evento foi transmitido por todas as emissoras de TV e rádio do país, conforme estabelecido pelo artigo 75 da Lei de Audiovisual, aprovada pelo Legislativo em 2009 durante sua primeira gestão. A Constituição local determina que o chefe de Estado abra as sessões ordinárias do parlamento, que acabou de voltar do recesso. Além de prestar contas de seus dois mandatos, aproveitou a ocasião para “lavar a roupa suja” perante a oposição, em especial, a respeito do caso do promotor Alberto Nisman, encontrado morto no passado dia 18 de janeiro. 

A presença obrigatória da mandatária, que nada mais é do que um ato funcional, foi transformada em manifestação populista por milhares de kirchneristas. Foi uma resposta à marcha realizada, no último dia 18 de fevereiro, por promotores e procuradores de justiça, para lembrar um mês da morte do fiscal. O governo a viu como uma provocação, tendo em vista que Cristina Kirchner tinha sido acusada por Nisman de, supostamente, tentar encobrir autoridades iranianas no atentando terrorista à Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), em 1994, que deixou 85 mortos e 300 feridos, em troca de acordos comerciais. Pode-se dizer que a viva tenta competir em popularidade com o morto.

A presidente Kirchner disse que a marcha dos fiscais era atitude de um “partido judicial”. Em seus esbravejo no Congresso, acusou a categoria de ter rompido com a Constituição, com as leis e com o sistema normativo. Falou que o caso do promotor morto deveria se chamar Nisman versus Nisman, por ele não ter apresentado nenhuma prova que a vincularia a tal acusação, a qual classificou como 'vexatória' e 'vergonhosa'. Ainda mais, porque ele pretendia denunciá-la no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Asseverou que a acusação não era contra a sua pessoa, mas contra a presidente da República e os argentinos. A mandatária sul-americana sustentou que o ataque não foi contra os judeus ou Israel, mas contra o povo de seu país. Criticou o governo israelense por reclamar somente do atentado à comunidade judaica, em 1994, e não ter feito o mesmo em relação à sua embaixada, em Buenos Aires, em 1992, quando morreram 29 pessoas e mais de 240 resultaram feridas.

Se antes o governo parecia acuado diante da repercussão negativa em torno da morte de Nisman, saiu-se mais forte após o discurso no Congresso. Note-se que, em nenhum momento, a líder argentina declarou que a autarquia estava oficialmente aberta nem desejou, por exemplo, um bom trabalho aos membros da Casa.

Aliados e militantes pró-governo tentaram, em determinadas ocasiões, desclassificar a caminhada em memória ao fiscal Alberto Nisman. A estratégia era transformar um protesto jurídico em político. Uma espécie de protesto contra o direito de livre manifestação.

Na semana passada, o juiz Daniel Rafecas rejeitou a denúncia protocolada pelo promotor Gerardo Pollicita, no último dia 13 de fevereiro, com base no documento de 289 páginas deixado por seu colega falecido. O material era a acusação formal de Nisman contra Cristina Kirchner, seu chanceler Héctor Timerman, entre outros integrantes do governo e da inteligência.

Nisman foi encontrado morto no banheiro com uma bala na cabeça à véspera de sua visita ao Congresso, quando então apresentaria supostas provas (áudios de conversas telefônicas) que incriminariam o governo.

Nos primeiros dias após o misterioso falecimento, a fala oficialista era de que o promotor teria se suicidado. No entanto, não colou e a governante o mudou, ao dizer que acreditava que ele teria sido, supostamente, usado por alguém – sem nominar – para desestabilizar seu governo.

Leia também:

Argentina: deputada da oposição denunciará Cristina Kirchner por 'encobrir' morte de promotor

Argentina: Governo divulga paradeiro de jornalista que deixou o país com medo de morrer

Deixe seu comentário

Sua opinião será publicada, logo que aprovada, conforme Política de Uso do site.

O OPINÓLOGO agradece o seu comentário.