Declaração do papa Francisco reforça o estereótipo mexicano sobre a violência

Terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Papa Francisco mostrou-se preocupado com a 'mexicanização' da violência na Argentina

O estereótipo

Imagem: Stockvault / Uso gratuito / Reprodução
Bandeira do México
Em e-mail particular enviado ao legislador argentino e titular da ONG La Alameda, Gustavo Vera, o papa Francisco manifestou preocupação com o crescimento do narcotráfico em seu país e pediu evitar a 'mexicanização'. Segue o texto na íntegra:

“Querido irmão:

Obrigado pelo seu e-mail. Vejo teu trabalho incansável a todo vapor. Peço muito para que Deus te proteja e aos alamedenses. E tomara que estejamos a tempo de evitar a 'mexicanização'. Estive conversando com alguns bispos mexicanos e a coisa é de terror.

Amanhã eu vou, por uma semana, a fazer exercícios espirituais com a Cúria Romana. Uma semana de oração e meditação me fará bem.

Desejo-te coisas boas. Meus cumprimentos a sua mãe. E, por favor, não se esqueça de rezar por mim.

Que Jesus te abençoe e a Virgem Santa cuide de você.

Fraternalmente.

Francisco”

A carta do pontífice reforça o estereótipo de que o México é padrão no que diz respeito à criminalidade.

Sua declaração provocou indignação da Secretaria de Relações Exteriores (SRE) asteca, que enviará uma nota diplomática em protesto ao Vaticano. Mas, ao fazer isso, a nação demonstra não ter maturidade para lidar com críticas e reconhecer seus problemas.

Em novembro passado, por exemplo, o então presidente uruguaio José Mujica classificou o México como um 'estado falido' e com poderes 'podres', em condenação ao sequestro seguido de morte de 43 estudantes, em Ayotzinapa. Na ocasião, a chancelaria mexicana convocou o embaixador do Uruguai para manifestar o mal-estar.

OPINÓLOGO poderia ficar falando o dia todo sobre a onda de violência no México, mas citará apenas alguns casos emblemáticos.

O México é considerado o país mais perigoso das Américas para o exercício jornalístico. De 2000 para cá, mais de 80 profissionais foram assassinados, de acordo com a ONG Repórteres sem Fronteiras (RSF). Opinião similar tem a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, na sigla em espanhol).

Lá, os criminosos não fazem distinção entre suas vítimas. Em agosto de 2010, por exemplo, o prefeito de Hidalgo, no estado de Tamaulipas, foi assassinado com tiro, enquanto dirigia uma caminhonete com sua filha de 10 filhos. Na mesma época, a polícia local havia achado uma vala com 72 corpos de imigrantes, entre eles, dois brasileiros.

Ainda em Tamaulipas, no ano de 2010, um carro-bomba explodiu em frente ao prédio do canal Televisa, em Cidade Vitória. Em outra ocasião, uma escola precisou ser evacuada, devido a uma ameaça de bomba.

Apesar de o México ter recebido US$ 2 bilhões do governo dos Estados Unidos para o combate aos carteis de droga, desde 2007 por meio da Iniciativa Mérida, a violência ainda impera. Desde 2006, mais de 100 mil pessoas foram assassinadas na guerra contra o narcotráfico, e outras 23 mil são consideradas desaparecidas, revelou a Anistia Internacional.

Violência argentina

De 2004 até hoje, pelo menos mil pessoas foram assassinadas com supostos vínculos com o narcotráfico, na província argentina de Rosário. Apenas no ano passado, a região registrou 200 homicídios, segundo o diário 'La Nación'.

Entre os países latino-americanos, a Argentina superou a taxa de roubos por habitantes. Em 2008, foi de 973,3 para cada 100 mil habitantes, de acordo com as Nações Unidas.

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