Venezuela: para garantir indenização a chavista, governo proíbe que jornal arrende prédio onde funciona a sede

Quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O presidente do diário opositor venezuelano ‘El Nacional’, Miguel Otero, terá mais uma história para contar à Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado, nesta quinta-feira (20/8), em visita ao Brasil. Ontem (19), a sede do jornal recebeu uma notificação do Serviço Autônomo de Registros e Notários (Saren) – o registro de imóveis –, na qual informava a proibição de que o prédio fosse transferido, vendido e/ou alienado. O documento atende uma demanda interposta pelo presidente da Assembleia Nacional, o deputado chavista Diosdado Cabello, quem processou o veículo por ter repercutido uma reportagem do espanhol ‘ABC’, de que ele seria investigado pela Justiça dos Estados Unidos (EUA) por suposto envolvimento com o narcotráfico e lavagem de dinheiro. Pode-se concluir com isso de que o imóvel seria uma garantia para eventual indenização.

“Esta é uma nova investida do governo para silenciar e destruir o ‘El Nacional’. Este tipo de ações ratifica a falta de independência do poder judicial na Venezuela e a incapacidade de defesa em que nós nos encontramos todos os venezuelanos. Estamos ante um poder judicial que atua inescrupulosamente para criminalizar a dissidência. Querem confiscar a última imprensa independente”, declarou Otero, quem está no Uruguai, como parte de um giro, para denunciar a grave crise política e moral que seu país enfrenta.

Quando o ‘El Nacional’ replicou a matéria do ‘ABC’, no início deste ano, Otero se encontrava nos EUA. Após o parlamentar ameaçar processá-lo junto com o ‘La Patilla’ e o ‘Tal Cual’, também opositores ao chavismo, não retornou à Venezuela com receio de que pudesse ir preso. Em maio último, a Justiça proibiu os executivos dos três meios opositores de deixarem o país.

O caso repercutiu negativamente entre os venezuelanos, sendo ofuscado tempo depois pela detenção arbitrária do prefeito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma, acusado de, supostamente, tramar uma tentativa de golpe contra o governo de Nicolás Maduro, que nunca apresentou provas concretas.

Cabello cobra na Justiça ao ‘Tal Cual’ uma indenização de um bilhão de bolívares, o equivalente, na cotação atual, a R$ 825 mil. O meio de comunicação informou que seu advogado não consegue ter acesso à ação judicial em curso.

“Na Venezuela há 60% de desabastecimento em produtos básicos, uma inflação que passa dos 200% e uma situação de insegurança pessoal nunca vista na América Latina. A Venezuela caminha para uma emergência humanitária”, ressaltou o dono do ‘El Nacional’.

Até dezembro passado, a inflação anual ultrapassava os 60%. A nação registra escassez de alimentos básicos como leite, macarrão e matéria prima, ademais de papel higiênico e medicamentos, por exemplo.

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