Quinta-feira, 10 de setembro de 2026
O caso foi denunciado ao Ministério Público como suspeitas de espionagem e de compartilhamento de informações de inteligência interna com potência estrangeira
Entrevista polêmica
Imagem: CNN Chile - Reprodução / Qualidade da foto melhorada com inteligência artificial
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| O embaixador norte-americano Brandon Judd e a jornalista Mónica Rincón |
O embaixador dos Estados Unidos no Chile, Brandon Judd, foi convocado a comparecer à chancelaria chilena, nessa quarta-feira (9/9), para prestar esclarecimentos acerca da afirmação de que a onda de protestos na nação sul-americana, entre 2019 e 2020, teria sido provocada por ativistas e movimentos sociais de esquerda. Em entrevista à CNN Chile, o diplomata disse que seu governo teria, supostamente, informações de inteligência sobre a grave crise política – conhecida como explosão social –, que resultou em pelo menos 30 mortes e mais de 3.400 feridos durante confrontos com as forças de segurança.
O embaixador estadunidense teria se baseado num discurso da subsecretária de Estado para a Diplomacia Pública dos Estados Unidos, Sarah Rogers, durante o V Encontro Regional do Foro de Madrid, em Santiago, no Chile, nos últimos dias 3 e 4 de setembro. Ela foi uma das palestrantes e, na ocasião, teria acusado ‘extremistas de esquerda’ pelos atos de vandalismos nas estações de metrô e pelos distúrbios. O evento foi uma cúpula de políticos conservadores e contrapõe o Foro de São Paulo – que tem viés progressista.
Ao ser questionado pela jornalista Mónica Rincón, da CNN Chile, se o governo norte-americano respaldava as falas de Sarah Rogers, Brandon Judd reafirmou categoricamente e comentou que as informações não foram repassadas às autoridades locais, mas que estaria à disposição para compartilhar relatórios de inteligência sobre o caso.
“Basta olhar para esses manifestantes. Os manifestantes, em sua grande maioria, estavam alinhados ideologicamente com a esquerda (...); em 2019, o que nossa inteligência diz categoricamente é de que [a explosão social] veio de organizações de esquerda ou de pessoas com ideologia de esquerda”, expressou o diplomata.
Pós-reunião
Após a reunião, o ministro de Relações Exteriores do Chile, Francisco Pérez Mackenna, realizou uma conferência de imprensa, na qual comentou que pretende solicitar formalmente aos Estados Unidos informações sobre os referidos distúrbios, segundo a emissora T13.
“Os embaixadores não devem opinar sobre a política interna dos países em que estão. Fizemos com que o embaixador Judd soubesse disso em várias oportunidades e hoje esse foi um dos assuntos que conversamos”, contou o chanceler.
Para a ex-subsecretária de Relações Exteriores do Chile, Gloria de la Fuente, que exerceu as funções durante o mandato do ex-presidente Gabriel Boric, ‘é estranho que se informem sobre dados de inteligência pela imprensa’. A declaração foi dada em entrevista à Radio 13C.
“(...) Se não houver precedentes claros e contundentes, seria de uma impertinência enorme. E essa impertinência, que já vimos mais de uma vez por parte desse embaixador, acaba refletindo muito mal na forma como defendemos os nossos interesses”, analisou.
Devido à má repercussão, o embaixador norte-americano disse que não havia nenhuma investigação sobre o assunto e que teria se baseado em dados públicos da época, noticiou a Radio Biobio Chile.
O caso foi denunciado ao Ministério Público pelos deputados Luís Cuello, Juan Santana e Daniela Serrano. O trio faz oposição ao governo do presidente José Antonio Kast. Para esses parlamentares, as suspeitas são de espionagem e de compartilhamento de informações de inteligência interna com potência estrangeira, segundo ADN Radio.
Interferência política como modus operandi
O embaixador Brandon Judd completará um ano no cargo em novembro próximo. Em pouco tempo, tem colecionado polêmicas. A interferência política se tornou um modus operandi.
Com apenas 11 dias no cargo, o diplomata recebeu uma nota de protesto por parte da administração do socialista Gabriel Boric, ao dizer que a gestão do estadunidense Donald Trump trabalharia com qualquer governo, mas que com alguns seria ‘mais fácil de se entender’ devido a afinidades ideológicas, de acordo com o portal El Mostrador.
Em fevereiro passado, o embaixador norte-americano interveio para que o Chile não firmasse um acordo com a China para a construção de cabos submarinos para conectar as redes de internet entre Valparaiso e Hong Kong. Na ocasião, ameaçou sancionar autoridades chilenas, o que aconteceu posteriormente com a revogação de vistos do então ministro dos Transportes e Telecomunicações, Juan Carlos Muñoz, do subsecretário de Telecomunicações, Claudio Araya, e do chefe de Gabinete Guillermo Petersen.
Durante o V Encontro Regional do Foro de Madrid na semana passada, Brandon Judd disse que o Chile já implementa a ‘Doutrina Donroe’ – versão trumpista da Doutrina Monroe de que a América Latina seria o quintal dos Estados Unidos – e que no governo do presidente José Antonio Kast foi ‘muito mais fácil’ colocá-la em prática.
Crise política de 2019 e 2020
Os distúrbios no Chile ocorreram entre outubro de 2019 e março de 2020. Nas primeiras semanas, mais de 3,7 milhões de pessoas às ruas, de acordo com o portal La Tercera. A população protestou contra o reajuste de 30 pesos na tarifa do metrô de Santiago. Houve saques, paralisações, ataques a estações de metrô, além de confrontos entre policiais e manifestantes, levando o governo do então presidente Sebastian Piñera a decretar estado de emergência.
A explosão social chilena foi resultante de um combo de insatisfações populares, com o elevado custo de vida, aposentadorias inferiores a um salário-mínimo, entre outras questões. A situação só foi se normalizando no decorrer de 2020, por conta da pandemia de coronavírus (covid-19).
O número de feridos informado no início desta reportagem pode estar subestimado. De acordo com a Anistia Internacional em relatório, mais de 12.000 pessoas deram entrada em hospitais em busca de atendimento emergencial entre 18 de outubro e 30 de novembro de 2019.
Vale destacar que as manifestações no Chile têm semelhanças com os atos ocorridos no Brasil, em 2013, contra o reajuste de R$ 0,20 na passagem de ônibus em São Paulo. As marchas uniram o país em outras pautas e provocaram uma crise política para o governo da então presidenta Dilma Rousseff (PT-MG), alvo de um processo de impeachment três anos mais tarde.

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