Bolsonarismo: o ‘messianismo’ político antropomórfico

Segunda-feira, 27 de julho de 2026

Vereador compara Jair Bolsonaro a Deus e seu filho Flávio Bolsonaro à figura de salvador durante evento partidário

Imagem: Gerada por inteligência artificial para Opinólogo
O bolsonarismo é uma seita

Afronta ao 3º Mandamento


As falas do vereador bolsonarista Anderson Alves Sene – conhecido como Senna (PL-SP) –, de São José dos Campos (SP), confirmam que o bolsonarismo é uma seita. Durante uma convenção do Partido Liberal (PL) nessa cidade, na última quinta-feira (23/7), ele comparou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ) a Deus e seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato a presidente nas eleições de 2026, à figura de salvador.

“E se ele (Jair Bolsonaro) pediu para gente levar o time para frente, nós vamos levar o time para frente (...); e ele escolheu o filho. Eis que ele enviou o seu próprio filho [Flávio Bolsonaro]. Isso tem semelhança com vocês ou não? Eis que o Todo Poderoso, aquele que nos salvou, enviou o seu próprio filho. É isso que Jair Messias Bolsonaro fez: enviou seu próprio filho”, comparou.

Vídeo: Vereador Senna - Redes Sociais
Era um evento partidário ou religioso?

De antemão, usar o nome de Deus em vão, em afronta ao 3º Mandamento bíblico, deveria ser sinônimo de blasfêmia e causar repulsa entre evangélicos e católicos.

Por se tratar de uma retórica maquiavélica, não ao acaso, para atrelar a imagem de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a uma espécie de salvador do Brasil, a intenção é clara: acirrar ainda mais a polarização do nós contra eles, do bem contra o mal e coisa que o valha. Extrapolou-se a perspectiva de agradar o ego de Jair Bolsonaro e seu primogênito.

‘Teocratização’ da política


A exploração da fé para fins eleitoreiros não é um fenômeno novo. Certos políticos se lembram de Deus apenas quando estão em campanha, visitam igrejas e assistem a cultos e missas. Salmos e versículos bíblicos que remetem ao número de candidatura são lidos de modo a transmitir uma mensagem subliminar aos fiéis eleitores, sem que isso se caracterize abuso de poder político.

Mais do que isso, a ‘teocratização’ da política consiste em ‘sequestrar’ a divindade para transformar um candidato em ‘escolhido’ e forjar uma representatividade dentro de determinado segmento religioso e/ou social. É quando a democracia e a fé são colocadas em risco e dividem mais do que aglutinam.

Com Jair Messias Bolsonaro a coisa foi muito além. O nível de polarização superou a histórica rixa entre o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).

Entre seus eleitores – chamados de bolsonaristas ou pejorativamente de ‘bolsominions’ –, vários deles fanáticos, Jair foi convertido em ‘Messias’ e personificado, não só para justificar o antipetismo como também por representar uma identidade e uma mesma linha de pensamento sobre diversos temas.

Síndrome do Salvador da Pátria e antropomorfismo


Isso não se trata de um fenômeno isolado. Está intrinsecamente ligado à necessidade visceral do brasileiro em ter heróis. A falta deles faz com que políticos e celebridades ocupem esse pedestal, sejam idolatrados e se crie a chamada Síndrome do Salvador da Pátria.

Mais do que uma seita, o bolsonarismo é uma espécie de ‘messianismo’ antropomórfico. Construiu uma mitologia política em que seu ídolo é um misto de mito e santo. A mitificação está vinculada à devoção que se tem por ele, enquanto a santificação, a uma blindagem moral na qual seus seguidores ignoram críticas, escândalos e denúncias contra ele.

Deuses são criações humanas, do mesmo modo que o bolsonarismo. Assim como na mitologia greco-romana, a deidade tem comportamento e físico humanos. O homem deixa de ser uma criação da divindade e exerce papel oposto, validando a conduta de seus adeptos.

Atualmente, o ex-mandatário cumpre prisão domiciliar em meio à condenação de 27 anos e 3 meses por envolvimento em atos golpistas que culminaram no ataque à sede dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023.

Já Flávio Bolsonaro (PL-RJ) está metido em mais uma polêmica. Para além dos escândalos de suposta ‘rachadinha’ e de já ter empregado parentes de milicianos em seu gabinete na época que era deputado estadual no Rio de Janeiro, precisa explicar à Justiça e a seus eleitores seu real vínculo com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o financiamento ao filme ‘Dark Horse’ (‘O Azarão’, em tradução preliminar), cuja obra pretende imortalizar a figura do pai.

‘Deus, pátria e família’. O lema – herdado do fascismo, reutilizado pelo regime militar brasileiro para sintetizar a luta contra o comunismo e resgatado em 2018 para eleger Jair Bolsonaro – já está manjado, desmoralizado. É a invocação de um discurso de moralidade que está muito distante da prática.

Embora diga-se que Deus seja amor, o imaginário religioso de parte do bolsonarismo costuma evocar o Deus zeloso, ciumento e punitivo do Velho Testamento. Com base nessas premissas, não se pode adorar dois ‘Senhores’ nem acender vela para dois santos ou para Deus e o diabo ao mesmo tempo.

O bolsonarismo é a fronteira entre a idolatria e a racionalidade, entre a alienação e o discernimento, entre ser ‘crente’ e ser cristão e entre ser monoteísta e ‘politeísta’.

1 تعليقات

Sua opinião será publicada, logo que aprovada, conforme Política de Uso do site.

O OPINÓLOGO agradece o seu comentário.

إرسال تعليق

Sua opinião será publicada, logo que aprovada, conforme Política de Uso do site.

O OPINÓLOGO agradece o seu comentário.