Quinta-feira, 07 de maio de 2026
A TV5Monde já tinha sido suspensa em duas ocasiões em 2024, após reportagens que desagradaram o governo
Imagem: Gerada por inteligência artificial para Opinólogo - Foto ilustrativa
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| Montagem com a foto de Ibrahim Traoré, líder da junta militar burquinense |
Acusação de ‘apologia ao terrorismo’
O regime militar que governa Burkina Faso, na África, suspendeu o sinal da emissora francesa TV5Monde, na última terça-feira (5/5), por um período de duas semanas, sob alegação de ‘desinformação’ e ‘apologia ao terrorismo’ na cobertura de atentados coordenados por rebeldes separatistas e facções jihadistas ligadas à Al-Qaeda, que ocorreram no país e no vizinho Mali.
Além da emissora, sites de notícias estrangeiros também foram bloqueados por tempo indeterminado pelo organismo regulador das comunicações.
Em reportagem divulgada no último dia 30 de abril, o canal europeu havia abordado a crise na segurança pública dessas nações africanas e divulgado que um grupo separatista pretendia realizar novos ataques contra as autoridades locais.
A organização não governamental (ONG) Human Rights Watch (HRW) criticou a medida e destacou que ‘a proibição não é um ato isolado’, mas que ‘reflete uma campanha mais ampla dos governantes militares de Burkina Faso para silenciar a dissidência’.
“Desde que assumiu o poder em um golpe de Estado em 2022, a junta suspendeu veículos de comunicação independentes, desmantelou grupos da sociedade civil, restringiu o pluralismo político e processou críticos. Intimidou, recrutou ilegalmente, provocou desaparecimentos forçados e deteve arbitrariamente jornalistas, opositores políticos, membros da sociedade civil e juízes, reduzindo o espaço cívico do país”, acusou a entidade defensora dos direitos humanos.
Suspensões em Burkina Faso e em Mali
A TV5Monde já foi suspensa em duas ocasiões em Burkina Faso: em abril de 2024, por duas semanas, por ter divulgado um relatório da HRW acerca de violações de direitos humanos cometidas contra civis; e em junho do mesmo ano, por seis meses, por ‘insinuações maliciosas’ e suposta manipulação de informação em entrevista sobre a luta contra o terrorismo.
Em Mali, a televisora segue impedida de transmitir sua programação desde maio de 2025, ‘até nova ordem’, acusada de ser ‘parcial’ e de promover ‘cobertura difamatória’, por ter divulgado um manifesto da oposição. Em 2024, o canal também foi sancionado por três meses, por divulgar a morte de civis sem incluir a visão do exército local. Em setembro do mesmo ano, foi suspensa por três meses por difundir conteúdos ‘sem equilíbrio’ sobre o país.
Golpes de Estado, repressão e violações de direitos humanos
Os dois países africanos passam por constante instabilidade marcada por crises institucionais e políticas, golpes de Estado, além de forte censura e repressão, conflitos armados, violência e violações de direitos humanos contra repórteres, ativistas e opositores.
Há pelo menos quatro comunicadores desaparecidos, com destaque para o jornalista burquinense Atiana Serge Oulon (foto 2), diretor do L’Evénement, um jornal investigativo de publicação bimestral. Vítima de desaparecimento forçado, ele foi sequestrado em sua própria casa no dia 24 de junho de 2024, teve o computador e dois telefones apreendidos e permanece em cativeiro há quase dois anos. Entidades em defesa dos direitos humanos e da liberdade de imprensa como Human Rights Watch (HRW), Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e Comitê para Proteção de Jornalistas (CPJ) cobram sua libertação.
Imagem: L’Evénement - Redes Sociais / Qualidade da foto melhorada com inteligência artificial
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| Atiana Serge Oulon |
Segundo RSF, o chefe da junta militar que comanda Burkina Faso, Ibrahim Traoré (foto 1), teria reivindicado a autoria do rapto do jornalista. Durante a 81ª Sessão Ordinária da Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (CADHP), que aconteceu na Gâmbia, no ano de 2024, o diretor-geral de Direitos Humanos do Ministério da Justiça burquinense, Marcel Zongo, teria negado o sequestro e disse que eles foram recrutados para as linhas de conflito.
“Pela primeira vez em quatro meses, as autoridades de Burkina Faso admitiram um segredo aberto: Serge Oulon, Adama Bayala e Kalifara Séré — que desapareceram num intervalo de dez dias em junho — foram de fato recrutados à força para o exército. A RSF condena esses recrutamentos, uma prática extrema que busca punir e silenciar jornalistas investigativos críticos ao governo (...)”, manifestou o diretor de RSF para a África Subsaariana, Sadibou Marong.
Em 2022, Ibrahim Traoré deu um golpe de Estado em Burkina Faso. Havia prometido restaurar a democracia até 2024, no entanto estendeu o prazo por mais cinco anos. Ele começou a sentir o gosto pelo poder e, recentemente, anunciou a proibição de todos os partidos políticos. Durante uma entrevista transmitida pelo canal estatal, disse que ‘as pessoas precisam esquecer a democracia’, que ela ‘mata’ e ‘não é para nós’.
Já o vizinho Mali sofreu dois golpes de Estado entre 2020 e 2021, ambos orquestrados pelo coronel Assimi Goïta, com a derrubada do presidente eleito e do governo de transição, respectivamente.
Nos últimos anos, países como Burkina Faso e Mali romperam acordos militares com a França e se aliaram à Rússia na luta contra jihadismo – radicalismo islâmico. O episódio representa uma mudança de paradigma, uma renúncia à influência colonial francesa.
Por meio do Grupo Wagner – agrupação paramilitar russa que foi rebatizada para Africa Corps –, o governo de Vladimir Putin expande sua influência geopolítica, ao oferecer treinamento de soldados, segurança e apoio militar ao regime burquinense.
No ano passado, por exemplo, o Africa Corps comunicou sua saída de Mali, ao alegar missão cumprida em meio às perdas de dezenas de combatentes.


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