Quinta-feira, 02 de abril de 2026
Entre os alvos estão o jornalista Franklin Martins e o ativista Thiago Ávila
Imagens: Franklin Martins - José Cruz - Agência Brasil - Arquivo / Thiago Ávila - Redes Sociais / Qualidade das fotos melhoradas com inteligência artificial - Arte: Opinólogo
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| Franklin Martins e Thiago Ávila |
Alguns governos latino-americanos de direita e extrema direita colocaram em prática, recentemente, o que parece ser um plano ousado de assédio e de perseguição contra militantes de esquerda e defensores dos direitos humanos. Embora não haja nenhum tipo de confirmação oficial, os casos, que até então poderiam ser vistos como isolados ou meras coincidências, apontam indícios de modus operandi, por exemplo, no Panamá e na Argentina.
Franklin Martins
O primeiro caso foi o do jornalista e ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom) Franklin Martins. Durante uma viagem a caminho de um seminário na Guatemala, no último dia 6 de março, ele foi detido enquanto fazia conexão num aeroporto no Panamá, teve o passaporte retido, tendo sido interrogado por policiais e deportado para o Brasil.
No interrogatório, foi questionado sobre sua prisão durante a ditadura militar. O repórter explicou que fora por razões políticas, não criminais. Os agentes teriam citado a Lei de Imigração do Panamá, de 2008, que proíbe a entrada e/ou conexão de estrangeiros acusados de crimes graves.
Em carta aberta publicada no último dia 8 de março e direcionada ao embaixador do Panamá no Brasil, Flavio Gabriel Méndez Altamirano, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) rechaçou a “injustificável detenção e deportação” de Franklin Martins e destacou que episódios como esse poderão prejudicar a Copa Airlines, empresa de aviação panamenha que mantém “hub” para conexões no país centro-americano.
A entidade também criticou o fato de o jornalista ter sido impedido de contatar a Embaixada do Brasil no Panamá e pontuou que ele não pretendia ingressar no país e que estaria somente de passagem para tomar outro voo.
Na ocasião, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, entrou em contato com seu homólogo panamenho. Javier Martinez-Acha se desculpou pelo ocorrido e disse que o jornalista era bem-vindo em seu país.
Thiago Ávila
No entanto, as desculpas contrastam com um segundo caso ocorrido algumas semanas após, também no Panamá. No último dia 25 de março, o ativista Thiago Ávila ficou detido por algumas horas, foi interrogado e deportado. Ele fazia uma conexão de retorno ao Brasil, depois de participar de uma missão solidária para levar mantimentos a Cuba, em meio às sanções comerciais impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a ilha.
O ativista brasileiro estava numa flotilha que levou aos cubanos 30 toneladas de alimentos e 73 painéis solares. A nação caribenha enfrenta uma grave crise humanitária, com apagões diários devido à escassez de petróleo para abastecer as termoelétricas.
Já o terceiro episódio ocorreu na Argentina, nessa terça-feira (31/3). Thiago Ávila foi detido e deportado. Ele participaria de um evento da Global Sumud Argentina, projeto que integra a Global Sumud Flotilha, entidade que atuou na missão humanitária em Gaza no ano passado.
Thiago Ávila é um ativista pró-Palestina, o que talvez explique sua recente deportação em Buenos Aires. Em outubro de 2025, participou de outra missão humanitária, estando acompanhado da ativista sueca Greta Thunberg. Dezenas de embarcações tentaram furar o bloqueio israelense para levar alimentos e medicamentos a civis palestinos na Faixa de Gaza em meio aos bombardeios contra o grupo Hamas.
A retenção do defensor de direitos humanos em Buenos Aires reforça um alinhamento ideológico entre os governos argentino e israelense. Recentemente, o presidente Javier Milei disse que era o “presidente mais sionista do mundo”. E segundo os agentes de imigração do país sul-americano, a decisão de expulsá-lo partiu “do mais alto nível”.
Modus operandi e alinhamento ideológico
As tentativas de intimidação contra ativistas e militantes socialistas brasileiros sugerem um padrão de perseguição e, coincidentemente, começaram três dias após o evento Escudo das Américas, ocorrido nos Estados Unidos. O encontro promovido por Donald Trump reuniu uma dezena de chefes de Estado de extrema direita da América Latina.
Para além de uma suposta vigilância, as detenções de cidadãos brasileiros em países governados pela extrema direita sinalizam uma suposta ação coordenada por motivações políticas e ideológicas.
Em bom português, fazer conexão em determinadas nações – onde empresas aéreas possuem “hubs” –, conforme comentado pela ABI, pode representar situações de risco e de ameaça, forçando passageiros a repensar rotas ou até mesmo a viajar por outra companhia.
Outrossim, é que os assédios apontam para a criminalização de defensores de direitos humanos e de militantes de esquerda. Não se tratam de meros ataques a indivíduos, mas um processo silencioso e contínuo de corrosão dos princípios democráticos.

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