El Salvador: mais de 500 detentos já morreram nos últimos 4 anos sem qualquer condenação, diz ONG

Quinta-feira, 02 de abril de 2026

Mais de 90% dos mortos não seriam ligados a gangues, segundo ONG

Imagem: Casa Presidencial de El Salvador - flickr - Reprodução
Centro de Confinamento de Terrorismo (Cecot), em El Salvador

Condenados extraoficialmente à morte


Ao menos 510 detentos já morreram em presídios de El Salvador nos últimos quatro anos sem qualquer condenação, enquanto aguardavam julgamento. Os dados são da organização não-governamental (ONG) Socorro Jurídico Humanitário para El Salvador (SJH) e se referem ao período de 27 de março de 2022 até a última terça-feira (31/3).

De acordo com a entidade, 94% desses 510 prisioneiros não seriam ligados a gangues e morreram em circunstâncias violentas – não detalhadas – ou por negação de atendimento médico em meio ao Estado de exceção imposto pelo presidente Nayib Bukele. Isso sugere que foram sentenciados extraoficialmente à morte.

Para a SJH, os episódios se caracterizam como “crime de lesa humanidade” e “a cifra de mortes pode passar de mil, mas há informações de que querem ocultar nos julgamentos massivos”.

Recentemente, a Organização das Nações Unidas (ONU) apresentou um relatório que aponta supostos crimes de lesa humanidade – estupros, prisão de crianças, assassinatos etc. – cometidos durante o regime de Bukele. O documento foi elaborado pelo Grupo Internacional de Peritos para Investigação de Violações dos Direitos Humanos no Âmbito do Estado de Emergência de El Salvador (Gipes), formado por cinco juristas independentes.

Os óbitos se somam a outras denúncias de supostas violações de direitos humanos praticadas durante a gestão do atual mandatário salvadorenho, tais como: campanhas de desprestígio social, uso da força policial e do poder judicial para intimidar opositores, prisões arbitrárias, desaparecimentos forçados e torturas.

Perseguição política


Em março deste ano, a ONG Cristosal informou que o governo mantinha mais de 80 presos políticos, como: jornalistas, advogados, juízes, promotores de justiça, sindicalistas, ambientalistas e defensores de direitos humanos. E entre eles está a advogada Ruth Eleonora López, chefe da Unidade Anticorrupção e Justiça da instituição, acusada de suposto enriquecimento ilícito. Ela está presa desde maio de 2025.

A ativista é responsável por denunciar ante a Justiça e a jornais estrangeiros supostos esquemas de desvio de dinheiro público, corrupção durante a pandemia de coronavírus (covid-19) e espionagem contra dissidentes políticos.

Em julho do ano passado, por conta da forte repressão e da prisão de Ruth López, a Cristosal precisou fechar o escritório em El Salvador e transferir vários funcionários para sucursais na Guatemala e em Honduras.

No contexto das violações de direitos humanos, mais de 200 profissionais de imprensa sofreram algum tipo de ataque ou ameaça por meio das redes sociais ou por e-mail. Os números são referentes ao primeiro semestre de 2025. Além disso, 43 repórteres tiveram de deixar o país “para resguardar sua integridade física”, segundo a Associação de Jornalistas de El Salvador (Apes, na sigla em espanhol).

Em julho de 2021, o jornalista mexicano Daniel Lizárraga – então editor-chefe da revista investigativa El Faro – deixou El Salvador às pressas após ter suas autorizações de trabalho e de residência negadas. Dois meses antes, o portal latino-americano já havia alertado de que o governo de Bukele, supostamente, estaria fabricando uma falsa acusação de sonegação fiscal contra a revista.

Em 2023, a revista teve de transferir sua sede para a vizinha Costa Rica, por conta de ameaças contra repórteres por parte de agentes governamentais e políticos, além de espionagem, campanhas difamatórias e assédio a anunciantes para que não contratassem mais publicidade nesse veículo noticioso.

Luta contra o crime organizado x Autoritarismo


O pano de fundo para todo esse viés autocrático – ou autoritário – é a suposta luta contra facções criminosas. Na justificativa de combater as gangues, Bukele decretou Estado de emergência em março de 2022, medida que se mantém em vigor após quatro anos.

Em 2015, El Salvador era considerado o país mais violento do mundo, com 106,3 homicídios por cada 100 mil habitantes. Em 2022, já na gestão Bukele, esse índice teve uma redução drástica de 7,8 assassinatos por cada 100 mil habitantes. E em 2023, 1,7 homicídio por cada 100 mil habitantes.

No entanto, a fama de um Bukele linha-dura no combate ao crime e o legado de uma El Salvador pacificada podem estar em xeque. Reportagem do jornal The New York Times, de junho passado, menciona um suposto acordo firmado entre o governo salvadorenho e membros de alto escalão da gangue MS-13 para reduzir a violência, desse modo fortalecendo a imagem política de Nayib Bukele. Em troca, a quadrilha teria dinheiro e certas regalias dentro das carcerárias.

Nos Estados Unidos, as investigações contra o mandatário centro-americano foram arquivadas em meio a um tratado firmado com o governo do presidente Donald Trump. El Salvador passou a receber em suas penitenciárias imigrantes deportados por estarem ilegalmente em solo estadunidense, o que fez da pequena nação latino-americana uma espécie de Alcatraz.

Em maio de 2025, a revista El Faro havia publicado uma longa entrevista – em vídeo – com um narcotraficante, na qual o criminoso narrava em detalhes um alegado pacto entre a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) – antigo partido de Bukele – e líderes de gangues para que o mandatário pudesse vencer as eleições.

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