Terça-feira, 23 de dezembro de 2025
Para os signatários do documento, os canais VRT e RTBF deveriam ter se unido a outras cinco emissoras europeias, que decidiram não participar do festival em protesto à presença de Israel
Imagem: Eurovisión - Divulgação / Qualidade da foto melhorada com inteligência artificial
![]() |
| O Eurovisión 2026 acontecerá nos dias 12, 14 e 16 de maio, na Áustria |
Manifesto do coletivo de intelectuais
Um coletivo de 170 artistas, produtores culturais e intelectuais belgas protestou, por meio de nota pública, a falta de adesão por parte de duas emissoras de TV do país ao boicote da edição 2026 do festival musical Eurovisión. A crítica do grupo, publicada na revista local La Libre, no último dia 18 de dezembro, é pelo fato de a VRT e a RTBF não terem se juntado a televisoras de cinco nações europeias, que desistiram de participar do evento em protesto à presença de Israel.
Durante meses, algumas televisoras questionaram a participação do país judeu no concurso musical em meio ao genocídio contra civis palestinos e o ‘assassinato seletivo’ de jornalistas estrangeiros que cobriam o conflito na Faixa de Gaza. Os bombardeios, no intento de combater integrantes do grupo terrorista Hamas, deixaram mais de 70 mil mortos.
“Nós, artistas e trabalhadores da cultura comprometidos com os direitos humanos e a justiça internacional, recebemos com consternação, em 4 de dezembro, o anúncio da participação de Israel no Festival Eurovisión da Canção de 2026. Enquanto a União Europeia de Radiodifusão (UER) excluiu a Rússia da competição em menos de 48 horas após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022, essa mesma organização se recusou a excluir Israel, apesar de sua guerra de extermínio em curso contra o povo palestino”, expressou o grupo.
Para o referido movimento artístico – formado por atores, comediantes, cineastas, cantores, músicos etc. –, a participação das emissoras belgas VRT e RTBF ‘constitui uma grave violação das obrigações éticas e morais das emissoras públicas’. Ambas as televisoras estão encarregadas de promover uma competição em nível nacional para selecionar o candidato ou candidata que participará do Eurovisión. O mesmo processo ocorre nos demais países integrantes do festival.
Duplo padrão moral x maquiagem pública
Ainda, segundo os signatários do documento, Israel tem se utilizado de eventos culturais para criar uma maquiagem pública, enquanto promove um ‘apartheid contra o povo palestino’ (…) com ‘políticas coloniais, racistas e exterminadoras’.
“Durante anos, o governo israelense tem usado grandes eventos artísticos e culturais para fins de propaganda, visando desviar a atenção de seu regime de ocupação, colonização e apartheid contra o povo palestino. A insensibilidade da opinião pública europeia se tornou ainda mais vital desde outubro de 2023 e o início do que a ONU e as principais ONGs de direitos humanos descrevem como genocídio em Gaza, que continua apesar do chamado cessar-fogo, como reiterou recentemente a Anistia Internacional. Nesse contexto, a participação no Eurovisión permite que Israel mantenha a ilusão de ser uma democracia ocidental moderna e exemplar, ocultando assim mais facilmente suas ações criminosas”, criticaram os artistas em outro trecho da carta.
Alguns países já haviam reclamado sobre o uso político do Eurovisión e a suposta manipulação por parte de Israel, por ter patrocinado uma campanha publicitária para favorecer sua competidora, por meio de votação, na edição de 2025. Em um dos anúncios pagos pelo governo israelense, um vídeo no YouTube teve mais de 25 milhões de visualizações.
O chamado sindical ao boicote
A Confederação Geral dos Serviços Públicos (CGSP), uma organização sindical de esquerda, está convocando artistas a não aderirem ao Eurovisión enquanto Israel estiver presente, por ‘continuar a cometer crimes de guerra, genocídio e crimes contra a humanidade’
“A cultura e a música devem unir as pessoas e promover a solidariedade entre os povos, mas também devem ser firmes na condenação das violações dos direitos humanos e do autoritarismo. As duas associações culturais (CGSP e sua contraparte de língua holandesa, ACOD) estão convocando um boicote cultural ao Estado de Israel em geral e ao Festival Eurovisión da Canção em particular”, instou o movimento sindical.
Justificativa da RTBF
Para o CEO da RTBF, Jean-Paul Philippot, a participação no Eurovisión é uma ‘posição clara de denúncia dos obstáculos à liberdade de informação, de exigência da proteção de todos os cidadãos e jornalistas e de garantia de sua segurança no terreno’.
“Nossa participação é, portanto, acompanhada de uma posição clara de denúncia dos obstáculos à liberdade de informação, de exigência da proteção de todos os cidadãos e jornalistas e de garantia de sua segurança no terreno. Porque a cultura nunca é entretenimento dissociado da realidade. Porque o serviço público tem o dever de permanecer fiel à humanidade, à independência editorial e à liberdade”, comentou o dirigente da RTBF.
A decisão da emissora belga foi aplaudida pela ministra da Comunicação Social, Jacqueline Galant, que alegou que o posicionamento da RTBF ‘está em consonância com a ampla maioria democrática expressa na UER’.
No fundo, a adesão da RTBF ao torneio continental está muito mais ligada a questões políticas e diplomáticas do que um ato de resistência, como tenta fazer parecer o CEO. Trata-se de um canal público, ou seja, vinculado ao governo. Portanto, um protesto da emissora poderia ser subentendido como um gesto político.
Os cinco países que vão boicotar
A edição 2026 do Eurovisión acontecerá em maio do próximo ano na Áustria, e não contará com a participação da Eslovênia, Espanha, Holanda, Irlanda nem da Islândia. Os canais de TV desses países, alguns deles estatais, vão boicotar o evento, não enviando competidor nem transmitindo-o. Mesmo ciente da ameaça de boicote, a União Europeia de Radiodifusão – detentora dos direitos do concurso – optou por manter Israel.

Postar um comentário
Sua opinião será publicada, logo que aprovada, conforme Política de Uso do site.
O OPINÓLOGO agradece o seu comentário.