Em celebração de 90 anos, dalai lama fala em sucessão

Quinta-feira, 03 de julho de 2025

Tenzin Gyatso, exilado na Índia desde 1959, teme que a China tente impor aos fiéis a próxima reencarnação do líder do budismo tibetano após sua morte

Imagem: Tenzin Choejor - Escritório Dalai Lama
Dalai Lama se pronuncia durante sobre sua sucessão

A celebração dos 90 anos de Tenzin Gyatso, o 14º dalai lama, máxima autoridade do budismo tibetano, teve como pauta principal a sua sucessão quando falecer. O evento durou três dias e aconteceu entre 30 de junho e 2 de julho, com base no calendário lunar, num templo na cidade de Dharamshala, no norte da Índia, país onde se encontra exilado. O receio é de que o governo chinês se aproveite da fatalidade para tentar impor aos fiéis a próxima reencarnação do líder espiritual.

O atual líder do budismo tibetano nasceu em 1935 e fará aniversário no próximo dia 6 de julho. Segundo ele, caberá ao Gaden Phodrang Trust – seu gabinete em solo indiano – a autoridade exclusiva para buscar e reconhecer seu sucessor, seguindo as tradições e conforme declaração emitida em 24 de setembro de 2011 aos seguidores da doutrina.

“Quando eu tiver cerca de noventa anos, consultarei os altos lamas das tradições budistas tibetanas, o público tibetano e outras pessoas interessadas que seguem o budismo tibetano, para reavaliar se a instituição do Dalai Lama deve ou não continuar”, comentou o líder religioso na época.

De acordo com alguns portais noticiosos que cobriram a comemoração, o líder tibetano teria declarado que seu sucessor não viria da China, mas de um país livre. Embora nenhuma instrução específica tenha sido mencionada acerca da próxima liderança espiritual, o posicionamento é mais um capítulo no embate com Pequim. O jornal estadunidense The New York Times divulgou que um porta-voz da chancelaria chinesa disse que a reencarnação do futuro dalai lama deveria ser aprovada pelo governo central.

Imagem: Tenzin Choejor - Escritório Dalai Lama
A festividade durou três dias e reuniu sete mil pessoas

Cerca de sete mil pessoas participaram da festividade e presentearam o aniversariante. Entre os convidados estavam representantes da tradição budista chinesa e das tradições Theravada – da Índia, do Sri Lanka, da Tailândia e de Myanmar –, ademais do hinduísmo, cristianismo, islamismo, judaísmo, bahá’i, jainismo e sikhismo.

Considerado como um líder separatista pelo Partido Comunista Chinês (PCC), o atual dalai lama é o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1989, por conta de sua resistência durante a repressão chinesa no Tibete e depois disso. A região foi tomada por Pequim e transformada em província em 1959. Desde então, o chefe do budismo tibetano vive na vizinha Índia, onde estabeleceu um governo de exílio. Em 2011, ele renunciou seu papel de administrador político e o entregou a um governo no exílio democraticamente eleito por mais de 100 mil tibetanos exilados pelo mundo, sendo que metade destes vivem em território indiano.

A pressão para reprimir a religião é forte. Cidadãos tibetanos comuns podem ser presos por exibirem imagem do Dalai Lama ou até mesmo por conversarem com jornalistas estrangeiros, segundo o canal britânico BBC.

A verdade é que essa pressão não cai somente sobre os tibetanos. Vários chefes de estado e de governo evitam receber o líder espiritual para não contrariar o governo asiático, que se tornou uma potência econômica, militar e tecnológica, além de se tornar o principal parceiro comercial de inúmeros nações. Em 2024, por exemplo, o Ministério de Relações Exteriores da China disse que o país se opõe firmemente a qualquer país que permita a entrada do dalai lama sob qualquer pretexto. A declaração ocorreu em decorrência do encontro entre o líder espiritual e autoridades norte-americanas em Nova Iorque.

Em 2009, o líder tibetano foi homenageado no Congresso dos Estados Unidos por sua luta em defesa dos direitos humanos. Contudo, não foi recebido pelo então presidente Barack Obama, que não quis criar atrito com a China.

Em 2007, o Dalai Lama teve sua entrada barrada no Quênia. Ele participaria do Fórum Social Mundial. A decisão das autoridades da nação africana foi tomada para não criar uma crise diplomática com Pequim.

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