Cartéis mexicanos recrutam ex-militares colombianos e usam drones para atacar facções adversárias, diz revista

Domingo, 28 de abril de 2024

Há casos em que os contratados são enganados e têm os passaportes retidos

Recrutamento e tráfico de pessoas


Alguns dos principais cartéis de drogas mexicanos estariam recrutando ex-militares e ex-narcoguerrilheiros colombianos. A informação é da revista asteca “Proceso” e foi publicada na edição impressa de abril deste ano, com base em depoimentos de membros e ex-membros do Exército colombiano em condição de anonimato. As facções contratantes são: Cartel de Sinaloa (CDS), Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), A Família Michoacana e os Cavaleiros Templários.

A contratação de militares aposentados colombianos se deve à experiência que eles têm no combate à narcoguerrilha, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército de Libertação Nacional (ELN). Além de reforçar o poderio do narcotráfico mexicano e de participar das ações criminosas, os contratados, que um dia vestiram fardas, dão treinamento a sicários no enfrentamento às forças de segurança astecas e também contra facções adversárias na tomada de territórios.

As ofertas de trabalho ilegal são feitas via grupos de WhatsApp formados por militares e ex-militares do país sul-americano, com promessas sedutoras de ganho entre US$ 2,5 mil (R$ 12.790,75, na cotação atual) e US$ 4 mil mensais (R$ 20.465,20). A cifra é muito superior ao que ex-integrantes desempregados do Exército colombiano recebem mensalmente, algo em torno de US$ 335 (R$ 1.713,96) e US$ 800 (R$ 4.093,04, na cotação atual).

Em 2021, mais de 20 mercenários colombianos – a maioria formada por ex-militares – teriam participado de uma operação que culminou no assassinato do então presidente do Haiti Jovenel Moïse, morto em casa com 12 tiros. Seu governo investigava a atuação de autoridades haitianas ligadas ao crime organizado.

O caso deveria servir de alerta tanto para as autoridades mexicanas, que devem ficar mais atentas à questão migratória, quanto para as colombianas, que precisam criar políticas públicas para antigos integrantes de suas forças armadas.

Ainda segundo a reportagem, parte dos ex-militares colombianos que entram em território mexicano é enganada e se torna vítima de tráfico internacional de pessoas. Eles são tratados com hostilidade e têm os passaportes retidos para que não consigam retornar ao país de origem.

Tecnologia a serviço do crime


Imagem: Wirestock - Freepik - Uso gratuito
Imagem ilustrativa de um drone

O uso de novas tecnologias como drones tem sido cada vez mais comum em conflitos bélicos, como a guerra entre Rússia e Ucrânia ou nos recentes confrontos entre Irã e Israel, por exemplo. Mas não se resume a isso. Ex-militares colombianos também dão apoio técnico a traficantes mexicanos que utilizam esses equipamentos adaptados com C4, granadas e outros explosivos para invadir povoados, atacar civis, facções inimigas e forças de segurança mexicanas, segundo “Proceso”.

Em 2020, por exemplo, foram registrados cinco ataques por drones por parte de cartéis astecas. No primeiro semestre de 2023 foram 260, conforme dados da Secretaria de Defesa Nacional do México (Sedena). O nível de violência aumentou muito, tendo em vista que o crime organizado tem aperfeiçoado seus métodos.

Em 2015, o papa Francisco foi duramente criticado pelo governo asteca por manifestar preocupação acerca da “mexicanização” da violência na Argentina, sua terra natal. Sua fala adjetivou a criminalidade sem limites no México, considerado um dos países mais perigosos do mundo para as atividades jornalísticas e sacerdotal e com alto índice de assassinato de políticos.

Violência


Entre 1º de janeiro e 18 de abril de 2024, ao menos 19 pré-candidatos e candidatos a cargos eletivos foram assassinados no México, segundo a organização não governamental “Data Cívica”. Outros seis foram vítimas de sequestro, mais seis de atentados e outros quatro, ameaçados. Os números podem ser maiores, conforme contagem independente de diferentes veículos de imprensa.

As eleições mexicanas estão marcadas para o próximo dia 2 de junho. Neste domingo (28/4), está previsto mais um debate entre os candidatos presidenciáveis. O vencedor ou vencedora tomará posse em 1º de outubro para um mandato de seis anos e com uma hercúlea missão de frear a narcoviolência num país conhecido mundo afora por suas novelas, belas praias e grandes artistas.

Em 2023, entre 180 nações analisadas, o México ocupou a posição 128 no ranking liberdade de imprensa. Foram ao menos quatro jornalistas assassinados em decorrência de seu trabalho, de acordo com Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Em 2022, foram 11 mortos.

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