‘O senhor Joesley Batista é o bandido notório de maior sucesso na história brasileira’, diz Presidência da República

Sábado, 17 de junho de 2017

Em entrevista, dono da JBS diz que Michel Temer é o chefe da quadrilha ‘mais perigosa’ do Brasil

Uso da máquina institucional


O presidente Michel Temer (PMDB-SP) pretende processar Joesley Batista, dono do grupo JBS, por conta da entrevista concedida à revista ‘Época’, na qual acusou o peemedebista de ser o chefe da ‘maior e mais perigosa organização criminosa deste país’, informou a Secretária de Comunicação (Secom) da Presidência da República.

“(...) Os fatos elencados demonstram que o senhor Joesley Batista é o bandido notório de maior sucesso na história brasileira. Conseguiu enriquecer com práticas pelas quais não responderá e mantém hoje seu patrimônio no exterior com o aval da Justiça. Imputa a outros os seus próprios crimes e preserva seus reais sócios. Obtém perdão pelos seus delitos e ganha prazo de 300 meses para devolver o dinheiro da corrupção que o tornou bilionário, e com juros subsidiados. Pagará, anualmente, menos de um dia do faturamento de seu grupo para se livrar da cadeia. O cidadão que renegociar os impostos com a Receita Federal, em situação legítima e legal, não conseguirá metade desse prazo e pagará juros muito maiores.

O presidente tomará todas medidas cabíveis contra esse senhor. Na segunda-feira, serão protocoladas ações civil e penal contra ele. Suas mentiras serão comprovadas e será buscada a devida reparação financeira pelos danos que causou, não somente à instituição Presidência da República, mas ao Brasil. O governo não será impedido de apurar e responsabilizar o senhor Joesley Batista por todos os crimes que praticou, antes e após a delação”, disse o comunicado.

O que se vê aqui é o nítido uso do aparato institucional da Presidência da República, não somente para defender o chefe de Estado como também para promover ataques contra seu acusador.

Um presidente sem cerimônia


Imagem: STF / Reprodução
A entrevista de Joesley Batista foi feita na última quinta-feira (15/6) e só tende a aumentar a polêmica que o envolve a Michel Temer, desde que veio a público, em maio passado, que o empresário, junto a alguns executivos de sua holding, firmou acordo de delação premiada (foto) com o Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da operação Lava-Jato.

“(...) Essa é a maior e mais perigosa organização criminosa deste país, liderada pelo presidente; o Temer é o chefe da Orcrim (organização criminosa) da Câmara [dos Deputados]. [Michel] Temer, Eduardo [Cunha], Henrique [Eduardo Alves], [Eliseu] Padilha e Moreira [Franco]. É o grupo deles. Quem não está preso hoje está no Planalto. Essa turma é muito perigosa. Não pode brigar com eles (...)”, acusou o empresário.

O empresário também disse que o mandatário, supostamente, ‘não tinha cerimônia’ na hora de pedir dinheiro. “Conheci Temer [entre 2009 e 2010], e esse negócio de dinheiro para campanha aconteceu logo no iniciozinho. O Temer não tem muita cerimônia para tratar desse assunto. Não é um cara cerimonioso com dinheiro”, contou.

Em defesa, a Secom disse que a gravação apresentada por Joesley Batista, do encontro que teve com Temer em março passado, não mostrou nenhum pedido por parte do mandatário.

“Em entrevista, ele (Joesley Batista) diz que o presidente sempre pede algo a ele nas conversas que tiveram. Não é do feitio do presidente tal comportamento mendicante. Quando se encontraram, não se ouve ou se registra nenhum pedido do presidente a ele. E, sim, o contrário. Era Joesley quem queria resolver seus problemas no governo, e pede seguidamente. Não foi atendido antes, muito menos depois”, rebateu o Palácio do Planalto.

O único suposto pedido que ainda não está claro, nem devidamente comprovado nos autos do processo, é o de Temer ter orientado o empresário a manter o pagamento de propinas ao ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e ao operador financeiro Lúcio Funaro. Ambos estão presos atualmente.

Propina


O empresário confirmou o pagamento de propinas a Cunha e Funaro em troca do silêncio de ambos: “Virei refém de dois presidiários. Combinei quando já estava claro que eles seriam presos, no ano passado. O Eduardo [Cunha] me pediu R$ 5 milhões. Disse que eu devia a ele. Não devia, mas como ia brigar com ele? Dez dias depois ele foi preso (...)”.

Joesley relatou também uma suposta hierarquia na Orcrim. As pendências eram passadas primeiramente a Lúcio Funaro. Se ele não as resolvesse, então passavam por Eduardo Cunha (PMDB-RJ). E quando este não conseguia, os assuntos eram levados a Michel Temer (PMDB-SP).

Joesley Batista falou que o ex-ministro da Secretaria da Presidência da República Geddel Lima seria o suposto mensageiro de Michel Temer para garantir que o pagamento da propina aos dois presidiários estava sendo feito regularmente. Geddel foi o então ministro que se envolveu, em 2016, na polêmica com o então ministro da Cultura, Marcelo Calero. Este o acusou de, supostamente, pressioná-lo para o que Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), subordinado ao Ministério da Cultura, liberasse a licença para a obra num apartamento de Geddel, cujo prédio era tombado.

BNDES


Em defesa, a Secom falou que o dono da Friboi ‘desfia mentiras em série’ e que ele causou um prejuízo ao país estimado em R$ 300 bilhões.

“(...) Ao bater às portas do Palácio do Jaburu depois de dez meses do governo Michel Temer, o senhor Joesley Batista disse que não se encontrava havia mais de dez meses com o presidente. Reclamou do Ministério da Fazenda, do Cade, da Receita Federal, da Comissão de Valores Mobiliários, do Banco Central e do BNDES. Tinha, segundo seu próprio relato, as portas fechadas na administração federal para seus intentos. Qualquer pessoa pode ouvir a gravação da conversa na internet para comprová-lo.

Em relação ao BNDES, é preciso lembrar que o banco impediu, em outubro de 2016, a transferência de domicílio fiscal do grupo para a Irlanda, um excelente negócio para ele, mas péssimo para o contribuinte brasileiro. Por causa dessa decisão, a família Batista teve substanciais perdas acionárias na bolsa de valores e continuava ao alcance das autoridades brasileiras. Havia milhões de razões para terem ódio do presidente e de seu governo (...)”, argumentou a presidência.

Empréstimos foram travados durante a gestão da executiva Maria Silva Bastos no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Em maio passado, ela pediu demissão do cargo, alegando ‘motivos pessoais’, eepois dos áudios liberados pelo STF sobre a conversa entre Temer e Joesley. O empresário havia se queixado com o peemedebista de que os financiamentos estavam ‘travados’ e queria que ela fosse substituída.

O Partido dos Trabalhadores


A Presidência da República também acusou Joesley Batista de, supostamente, proteger a ‘organização criminosa’ que o ajudou a fazer da JBS o maior produtor de proteína animal do mundo. Isso seria uma referência aos governos petistas que concederam inúmeros empréstimos a ele.

Segundo ‘Época’, Joesley teria dito que o Partido dos Trabalhadores (PT), supostamente, institucionalizou a corrupção durante o governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e que jamais negociou subornos com ele. As interlocuções eram feitas junto ao ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.

Em nota, o advogado Cristiano Zanin, que defende o ex-metalúrgico, disse que o empresário foi ‘incapaz de apontar qualquer ilegalidade cometida, conversada ou do conhecimento’ de Lula.


OAB critica demora nos processos de impeachment


Neste sábado (17), o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Claudio Lamachia, acusou a Câmara dos Deputados de ‘cinismo’, devido à demora do presidente do legislativo, deputado federal Rodrigo Maia (DEM-RJ) em pautar os pedidos de impeachment contra Michel Temer que tramitam na casa, publicou a ‘Folha de São Paulo’. “Não é função do presidente da Câmara atuar como muralha de proteção a aliados políticos investigados”, criticou o advogado.

A entidade apresentou no mês passado um pedido de cassação do mandato do presidente Michel Temer (PMDB-SP), depois da colaboração premiada de executivos da holding J&F.

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