Apesar dos últimos incidentes na Venezuela, políticos brasileiros declaram apoio a Nicolás Maduro

Quinta-feira, 20 de abril de 2017

Dizem que o pior cego é aquele que não quer ver. No entanto, esse ditado não vale para todos, porque alguns veem, sim, passando, portanto, ao papel de cúmplices. Apesar dos recentes incidentes ocorridos na Venezuela, ainda há políticos brasileiros que demonstram solidariedade ao presidente Nicolás Maduro e à tal Revolução Bolivariana iniciada pelo falecido Hugo Chávez. É o caso, por exemplo, dos deputados federais Paulo Pimenta (PT-RS), Carlos Zaratini (PT-SP) e Glauber Braga (Psol-RJ), além de dirigentes políticos e sindicais, em vídeos que estão sendo divulgados pela Embaixada da Venezuela no Brasil.

“(...) Resistam contra o avanço da direita fascista, vamos às ruas em defesa do projeto da Revolução Bolivariana. Contem conosco, estamos juntos nessa luta”, declarou Paulo Pimenta (vídeo).

Vídeo: Embaixada da Venezuela no Brasil


“Mais uma vez, a gente está assistindo a uma estratégia de desestabilização de um governo popular. Agora na Venezuela, o que as forças reacionárias estão fazendo, fazendo com que haja interrupções na produção, no abastecimento da população e nas condições de vida do povo, nós já vimos isso no Chile, já vimos num número grande de países, e só tem um objetivo: instalar o caos para que, a partir disso, o povo clame por uma solução de força. Nós já vimos isso em muitos lugares, vimos isso no Brasil, vimos isso agora, recentemente, há um ano atrás aqui em nosso país, o quanto não fez a elite para que se desorganizasse a economia, para que houvesse aumento da inflação e do desemprego. Por isso, o povo venezuelano está certo em lutar fortemente para defender o que é seu e o seu governo”, defendeu Carlos Zaratini, ao fazer alusão à crise que fomentou o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT-RS).

“Fazemos aqui uma saudação muito carinhosa, muito fraterna, a vocês, ao povo da Venezuela, a todos aqueles que constroem a Revolução Boliviariana, que o exemplo de Hugo Chávez, que o exemplo de Simón Bolívar venha nos inspirar diariamente e que parcela da população venezuelana, da direita venezuelana, respeite o direito constitucional do presidente Maduro e de todos aqueles que constroem a Venezuela independente das forças hegemônicas internacionais possam prosseguir no seu caminho (...)”, manifestou Glauber Braga.

O primeiro de tudo é que Caracas tenta mudar a imagem do governo ante a comunidade internacional por meio de propaganda. O segundo é que parlamentares brasileiros tenham se prestado a esse ridículo espetáculo, ao ignorar a realidade: a crise de desabastecimento nos últimos anos; o país deveria ter realizado eleições regionais desde dezembro do ano passado, e não o fez; o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) anulou o parlamento venezuelano; alguns opositores estão proibidos de participar de eleições; o número de mortos e feridos nos últimos protestos contra o governo.

Desabastecimento


Além do fato de um governo que parece ter se perpetuado no poder, sob a suposta legitimidade do voto popular – levando-se em conta as desconfianças de fraudes eleitorais – o país tem sofrido com a alta inflação e a escassez. Nos supermercados faltam de tudo: papel higiênico, macarrão e outros derivados de trigo, entre outros itens da cesta básica. Além disso, as autoridades controlam o consumo. Muitos fabricantes alegam que não conseguem comprar a matéria prima no exterior, pela dificuldade do governo em liberar dólares.

Eleições regionais


A oposição venezuelana cobra a realização de eleições regionais que deveriam ter acontecido em dezembro de 2016. A previsão é de que possam ocorrer até julho deste ano. O governo tenta evitar nova derrota nas urnas, por conta da insatisfação popular.

Suprema corte anula parlamento


Se ainda havia dúvidas quanto a não separação de poderes na Venezuela, já não há mais. Em março passado, o Tribunal Superior de Justiça (TSJ), a máxima corte, aparelhada pelo chavismo, eliminou a Assembleia Nacional, o legislativo que é, atualmente, comandado pela oposição. A ação foi duramente criticada pela comunidade internacional. Após a má repercussão de que o último resquício de democracia tinha sido anulado, o presidente Nicolás Maduro instou ao Judiciário a reverter a decisão, o que acabou acontecendo.

A oposição caracterizou de golpe de estado a decisão da suprema corte.

Quando isso aconteceu, apenas o governo boliviano se mostrou ao lado do chavismo. Até os ditos movimentos populares ficaram em silêncio.

Judiciário e legislativo medem forças há mais de um ano. O primeiro acusa o segundo de desacato, por não cassar o mandato de três deputados opositores sob suspeita de compra de votos. A saída dos três parlamentares enfraqueceria a oposição que hoje comanda a casa com dois terços dos membros. O governo vem sofrendo derrotas nos últimos tempos.

O TSJ, inclusive, já havia proibido os deputados de tentarem investigar a nomeação de 16 novos juízes logo após o resultado das últimas eleições.

Opositor declarado inelegível


No início deste mês, a Controladoria Geral da República tornou inelegível por 15 anos o governador do estado de Miranda, Henrique Capriles, da oposição, por supostas irregularidades em sua gestão. Ele já concorreu contra Hugo Chávez e Nicolás Maduro nas últimas eleições presidenciais e, supostamente, perdeu.

Novos protestos


A anulação do congresso venezuelano por parte do judiciário agravou a crise. Nas últimas semanas têm ocorridos protestos em várias regiões no país. Ontem (19/4) ocorreu a primeira ‘mãe de todas as marchas’, um mega protesto convocado pela oposição. Pelo menos duas pessoas morreram. Uma jovem de 23 anos, identificada como Paola Andreina Ramírez Gómes, caminhava sozinha pelas ruas do estado de Táchira, não participava de nenhum ato, e foi assassinada com um tiro por milícias armadas pró-chavista. Hoje (20) aconteceu a segunda ‘mãe de todas as marchas’.

Nos últimos dias, ao menos três pessoas morreram, cerca de 60 ficaram feridas e mais de 400 foram detidas em manifestações contra o governo.

O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, quem vem buscando apoio dos países associados para excluir a Venezuela do bloco, criticou os atos de repressão por parte da Guarda Nacional Bolivariana (GNB).

Esta semana, 11 países latino-americanos criticaram a morte de seis manifestantes e pediram que o governo acelere o cronograma das eleições, na tentativa de solucionar rapidamente a crise. São eles: Argentina, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Honduras, México, Paraguai, Peru e Uruguai.

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