Tudo na mais perfeita (des)ordem

Sábado, 11 de fevereiro de 2017

Greve da PM do RJ pode acabar prejudicando a cassação de Pezão

Imagem: Thomaz Silva / Agência Brasil /

Reprodução / Creative Commons
Movimento grevista no Rio de Janeiro
O livro bíblico de Gênesis diz que no começo, antes do próprio tempo, a Terra era um caos. Mas, este mesmo caos deu origem a uma nova ordem. Esse fenômeno físico pode ter dado certo lá no livro sagrado, mas não seria capaz de funcionar aqui em terras tupiniquins, onde tudo é tão peculiar. Desde o último dia 3 deste mês, o Espírito Santo registrou mais de 100 homicídios, saques a estabelecimentos, assaltos, atos de vandalismo, uma onda generalizada de criminalidade oriunda de uma crise de histeria social coletiva, que serve para exemplificar o velho ditado de que “a ocasião faz o ladrão”.

Moradores do Rio de Janeiro viveram um clima de pânico, nessa sexta-feira (10), temendo possibilidade de caos social, por conta de uma eventual greve de policiais militares. Pois, desde a noite de quinta-feira (9), um movimento formado por esposas de agentes começava a ocupar áreas próximas a batalhões e quarteis, a fim de impedi-los de sair para trabalhar, como nos municípios de Macaé, São João de Meriti e Mesquita, além de alguns bairros do Rio de Janeiro como Méier, Sulacap e Tijuca, por exemplo. A ideia era repetir o feito capixaba, mas parece não ter funcionado. 

Muitos maridos driblaram as próprias esposas. Eles não foram para os batalhões. Colocaram o uniforme e trocaram de turno nas ruas. Foi a tática que a Polícia Militar (PM) encontrou para evitar que eles se tornassem “reféns” de uma greve que elas pretendiam induzi-los, já que eles mesmos não poderiam aderi-la por vontade própria. O regimento proíbe que policiais façam paralisação e/ou greve, sob pena de prisão. Elas não estão erradas de tentar pressionar o governo fluminense para que pague o 13º salário e pagamentos atrasados, afinal de contas, ele se ampara no regimento para não valorizar esta parte do funcionalismo.

Segundo os noticiários, a PM disse que “95%” do efetivo estava em serviço. A informação contrastava com ruas vazias e policiamento escasso, o que alimentava ainda mais a sensação de medo, que serve para fomentar a rede de boatarias nas redes sociais sobre supostos arrastões. Daí, fica a dúvida sobre quem estaria falando a verdade: a polícia ou a imprensa, ou se esta, ou algum veículo específico, estaria conivente para fingir um estado de aparente normalidade. Na internet é possível assistir alguns vídeos de pessoas correndo, como em Bonsucesso, bairro da Zona Norte carioca, mas não mostrava especificamente qualquer tipo de crime. Há relatos de supostos saques a lojas e shoppings que não puderam ser confirmados.

Nas redes sociais, a corporação fluminense apelou a seus agentes para que eles não aderissem ao movimento, ante o temor de que o caos capixaba foi instaurado também no Rio de Janeiro. De um lado ficam os que apoiam a atitude das mulheres e dos policiais de protestarem; do outro quem não os apoiam e não os compreendem que não se pode trabalhar de estômago vazio, que não se pode comprar material escolar sem dinheiro e de que eles também não podem se tornar “reféns” da crise financeira e da suposta corrupção que imperam no Estado fluminense. Querem que eles sobreponham a própria dignidade ao bem-estar coletivo.

Em coletiva de imprensa na noite dessa sexta-feira (10), as autoridades capixabas disseram que se os policiais militares e bombeiros desistirem da greve e retornarem ao trabalho às 7h da manhã deste sábado (11), que desistiria de processá-los criminalmente. O compromisso foi firmado junto às associações e sindicatos de classe. Boa parte da imprensa já deu como encerrada a greve dos agentes. No entanto, é bom lembrar que a mesma não começou por eles, e sim por suas esposas, que não foram incluídas no acordo, o que causa receio. Caso seja mesmo finalizada, terá sido uma greve inútil, porque não conseguiram absolutamente nada, já que não houve nenhum acordo específico para reajustar os salários que estão estacionados há sete anos.

Imagem: Fernando Frazão / Agência Brasil /
Reprodução / Creative Commons
Em Belford Roxo, na Baixada Fluminense,
são elas quem mandam
Nessa sexta-feira (10), por exemplo, os policiais civis do Espírito Santo deram prazo de 14 dias para o governo estadual apresentar uma proposta de aumento salarial. A decisão foi tomada em assembleia-geral, uma chance de evitar que eles também decidam cruzar os braços.

O movimento carioca, que tenta pegar carona no capixaba, pode ter tomado a iniciativa em momento inoportuno. Sim, inoportuno. Porque o governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB-RJ), e o vice-governador Francisco Dornelles (PP-RJ) tiveram o mandato cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ). Eles são acusados de supostos crimes de abuso de poder econômico e político durante a campanha eleitoral de 2014. Ao recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), eles poderiam alegar que sua saída, pelo menos agora, seria prejudicial ao Estado ante uma crise a ser instalada na segurança pública e o caos que acarretaria, porque seria um Estado em estado de emergência ou calamidade e sem direção. A greve da PM, em vez de tirá-los de vez do cargo, poderia acabar ajudando-os. E no fim, tudo estaria na mais perfeita (des)ordem de sempre, sem mudanças reais e concretas, sem perspectivas e sem horizonte para o Rio de Janeiro, o que reafirma o que foi dito no primeiro parágrafo desta reportagem: que em terras tupiniquins o caos não seria capaz de criar uma nova ordem, mas restaurar ou manter a velha e de sempre.

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