Sugestão de cancelar a festa de réveillon 2016/2017 do Rio não tem cabimento

Quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Associação pede que a prefeitura do Rio de Janeiro suspenda a festa na orla, sob suposto risco de protestos

Imagem: Blog do Coronel Paul / Reprodução
A tal carta

Causou repercussão midiática e nas redes sociais a carta aberta (foto) da Associação dos Oficiais Militares Ativos e Inativos da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro (Aomai), divulgada ontem (28/12), na qual sugeria o cancelamento da festa de réveillon na orla carioca, por conta da crise financeira do governo fluminense que culminou em atrasos salariais no funcionalismo público. O documento é endereçado ao governador do Rio de Janeiro Luiz Fernando Pezão (PMDB-RJ), ao prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB-RJ), ao comando geral da Polícia Militar, à imprensa e à população. Em justificativa, o presidente da associação, coronel Adalberto de Souza Rabelo, apontou para a crise financeira que se arrasta por mais de um ano e ao alertar para o suposto risco de protestos durante a virada do ano, como ocorreram durante a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016, o que poderia comprometer a segurança de milhões de pessoas.

“A Aomai, antevendo a possibilidade de ocorrência de manifestações que pela amplitude e quantidade de pessoas envolvidas poderão tomar proporções violentas e atentatórias a integridade da população presente ao evento, recomenda o cancelamento dos shows artísticos e pirotécnicos no município do Rio de Janeiro. Tal ação baliza-se na prevenção e no dever de ofício, axiomas da Polícia Ostensiva e de preservação da Ordem Pública”, sugeriu o dirigente num trecho da carta.

Não tem o menor cabimento sugerir o cancelamento de um dos maiores eventos do planeta tão em cima da hora, até porque quem está em crise é o Estado, não a prefeitura, a realizadora, ou seja, duas esferas diferentes de poder. Soa como alarmismo. Até onde se supõe saber, a administração municipal encerra o ano e o segundo mandato com um caixa positivo de R$ 1,9 bilhão para quitar despesas de R$ 1,7 bilhão. Muitos pessimistas imaginam que a partir de 2017 a crise a afetará. Enquanto não houver evidências, tudo não passa de ‘achismo’ e de especulações.

Nas redes sociais, a recomendação da Aomai fez eco e uma tentativa frustrada de campanha virtual, ao sugerir que os R$ 5 milhões gastos pela prefeitura, para custear os eventos, fossem direcionados ao pagamento dos servidores estaduais. Deveriam exigir o fim de tantos e indiscriminados incentivos fiscais, para aumentar o caixa estatal. Estima-se que dois milhões de pessoas compareçam à praia de Copacabana para ver a queima de fogos. São esperados 865 mil turistas neste fim de ano que devem gastar em torno dos US$ 691 milhões. Considerando a tradição e o potencial do Rio, turismo não é gasto, é investimento, gera receita aos cofres públicos, empregos diretos e indiretos e movimenta o setor. Milhões de turistas preferiram ignorar a marginalidade, a zika, a dengue, entre outros agravantes em ascensão nesta ‘Cidade Maravilhosa’, para passar aqui a virada do ano. Suspender em cima da hora não seria só um desrespeito a eles, que poderiam ter optado por outros destinos, mas o rompimento de contratos previamente firmados entre a prefeitura, patrocinadores e empresas prestadoras de serviços, além dos artistas contratados.

É lamentável a forma desrespeitosa como os servidores estaduais vêm sendo tratados, com pagamentos e o 13º salário em atraso. Para os profissionais de segurança e saúde que vão trabalhar durante a hora da virada, pode-se imaginar o descontentamento e o desespero. A dor do funcionalismo público é a dor de toda a população fluminense. Ainda assim, eles têm coisas que os trabalhadores da iniciativa privada não têm: estabilidade e segurança jurídica. Até os processos movidos contra o governo estadual se movimentam mais rápido. Os servidores não ficarão sem seus salários e não serão surpreendidos como os da iniciativa privada, que costumam se deparar com empresas que decretam falência, fecham as portas, seus proprietários se escondem, mudam de endereço, depois abrem nova empresa com outro nome e CNPJ, nunca pagam e agem como verdadeiros estelionatários.

Daqui a pouco vão propor a suspensão do carnaval 2017. Mas se o futuro prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella (PRB-RJ) fizesse isso, seria duramente criticado por suposto preconceito, por ser evangélico.

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