Cachoeiras de Macacu: moradores sofrem com falta d’água há quase uma semana

Quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Prefeitura e concessionária travam batalha judicial para a regularização e a operacionalização dos serviços

Protesto


Imagem: José Queiroz - Print screen - Redes Sociais
Um grupo de moradores interditou parcialmente a RJ-116 para protestar contra a falta d'água no município; o problema tem sido recorrente

Com as torneiras secas, a população de Cachoeiras de Macacu, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, está com dificuldades para tomar banho e lavar roupas e louças. O município sofre com a falta d’água desde a sexta-feira passada (16/10). O descaso fez com que moradores interditassem parcialmente a RJ-116, na altura da Ribeira, e ateassem fogo em pneus como forma de protesto no último domingo (18). O intuito era chamar a atenção das autoridades locais para o problema que, na verdade, tem se prolongado por quase dois anos.

“Fizemos uma manifestação, colocamos fogo em pneus, porque estamos sem água há vários dias aqui em Cachoeiras [de Macacu]”, contou ao Opinólogo uma moradora, que pediu para não ser identificada.

Em comunicado publicado na última segunda-feira (19), a Águas do Rio disse que o abastecimento está ‘temporariamente paralisado’, por conta das chuvas.

“(...) O abastecimento de água tratada está temporariamente paralisado, nesta segunda-feira (19/10), em Cachoeiras de Macacu. Devido às chuvas, a operação das Unidades de Tratamento Posto Pena e Rio Souza precisou ser paralisada após elevação da turbidez da água no ponto de captação.

Técnicos da concessionária monitoram continuamente as condições dos mananciais. Assim que os parâmetros de qualidade da água permitirem, a operação será retomada, possibilitando a normalização do fornecimento de forma gradativa, podendo levar mais tempo nas áreas distantes e elevadas (...)”, publicou a Águas do Rio.

Ao longo deste mês de outubro, foram ao menos quatro comunicados publicados pela empresa para as interrupções no abastecimento, devido ao aumento da turbidez da água nos mananciais que abastecem as Unidades de Tratamento (UTs) Posto Pena e Rio Souza.

Imagem: José Queiroz - Print screen - Redes Sociais
O irônico disso é o fogo ateado em pneus em meio à falta de água até para apagá-lo

Já a Prefeitura de Cachoeiras de Macacu divulgou nota nas redes sociais, nessa quarta-feira (21), para informar que busca na Justiça de segundo grau uma nova decisão favorável, para fazer com que a empresa restabeleça os serviços à população.

“(...) No processo, a prefeitura sustenta que nenhuma discussão contratual, conduzida para garantir benefícios futuros à população, pode justificar a falta d’água.

Ao longo deste período, a prefeitura vem reunindo dados, elementos e informações técnicas para que a liminar seja novamente concedida pela Justiça de segundo grau (...)”, informou o Poder Executivo municipal.

Problema que se arrasta desde 2025


O problema no abastecimento, em decorrência da turbidez da água, já se arrasta por mais de um ano e meio. Entre janeiro de 2025 e março de 2026, a UT Rio Souza registrou ao menos 55 paralisações, somando mais de 671 horas, noticiou o G1.

No mesmo período, foram contabilizadas 49 interrupções na UT Posto Pena, somando mais de 746 horas. Além disso, houve outras 20 paralisações simultâneas nas duas unidades de tratamento, que somaram 315 horas.

Em fevereiro de 2026, ocorreu uma audiência pública na Câmara Municipal de Cachoeiras de Macacu para discutir os problemas de abastecimento, que têm sido recorrentes. Na ocasião, o prefeito Rafael Miranda (PP-RJ) defendeu a atuação da Autarquia Municipal de Água e Esgoto (Amae-CM) como ente regulador e fiscalizador.

Apenas entre 6 e 12 de setembro de 2026, teria ocorrido a interrupção total do abastecimento nas duas UTs, totalizando 110 horas de falta de água no município, devido às chuvas e à turbidez nos pontos de captação.

Vídeo: cedido ao Opinólogo
Compilação da manifestação de moradores contra a falta de água

Em meio ao drama desses cidadãos, a Prefeitura de Cachoeiras de Macacu e a Águas do Rio travam uma batalha judicial para a regularização e a operacionalização dos serviços. De acordo com a empresa, ao portal G1, apesar de ter quitado totalmente o valor da outorga, ainda não teria conseguido assumir integralmente as operações devido ao descumprimento de obrigações contratuais por parte da administração municipal, as quais não foram especificadas.

No mês passado, a 2ª Vara da Comarca de Cachoeiras de Macacu já havia emitido uma decisão favorável à prefeitura, determinando que a Águas do Rio adotasse uma série de medidas para reduzir o desabastecimento, incluindo a proibição de suspender o fornecimento de água por questão de turbidez bruta e que mantivesse o abastecimento em órgãos públicos, como unidades de saúde, na rede municipal de ensino, prédios da administração municipal, além de delegacia, polícia militar, corpo de bombeiros e fórum.

A referida decisão judicial também estabeleceu multa pessoal de R$ 50 mil para os diretores e demais gestores da Águas do Rio por cada episódio de descumprimento, de acordo com o G1.

A Justiça também autorizou o bloqueio de valores nas contas da concessionária, em caso de descumprimento por parte da Águas do Rio, para que a Prefeitura de Cachoeiras de Macacu e a Amae-CM pudessem contratar serviços de filtração de água para que o abastecimento fosse normalizado.

Rumores


Na tarde da última terça-feira (20), Opinólogo contatou por e-mail a Águas do Rio e a administração municipal para saber se havia alguma previsão para que o serviço fosse restabelecido.

Opinólogo também perguntou a ambas as partes acerca dos rumores de que o prefeito Rafael Miranda (PP-RJ) estaria dificultando o acesso da concessionária aos dados e ao controle do sistema de saneamento. Pois, segundo outro morador ouvido por esta reportagem, o líder municipal estaria, supostamente, se opondo à colocação de hidrômetros nos imóveis durante o seu mandato para que isso não lhe causasse revés político.

“Aqui tinha uma autarquia municipal, mas com a licitação do governo do Estado [do Rio de Janeiro] entrou a Águas do Rio. A concessão já deveria ter sido entregue à empresa. Aqui em Cachoeiras não tem hidrômetro, e o prefeito não quer que isso seja colocado agora no governo dele. Então, ele está empurrando com a barriga, e a Águas do Rio não aceita isso. Ela quer saber o que tem na ‘caixa preta’, quantos clientes tem no município, qual a rede de distribuição, e quem pode entregar isso é a prefeitura, mas a prefeitura não entrega. Daí, a Águas do Rio não tem como fazer o investimento necessário para melhorar a qualidade da água. É tipo assim: a Águas do Rio comprou o carro, mas a loja não quer entregá-lo para quem comprou”, relatou esse segundo morador, que prefere não ter o nome mencionado.

Nem a empresa nem a administração municipal responderam aos questionamentos enviados pelo Opinólogo. A reportagem não conseguiu acessar os autos do processo nem confirmar de forma independente as alegações sobre o impasse contratual. O espaço permanece aberto para esclarecimentos.

Outorga milionária


Em abril de 2021, a Águas do Rio arrematou em leilões a concessão dos serviços de águas e de esgotamento sanitário em bairros cariocas – do Centro e zonas Norte e Sul – e em 26 dos 92 municípios fluminenses. Em diferentes cidades, a distribuição aos consumidores finais era de responsabilidade da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae),

Já em Cachoeiras de Macacu, os serviços ficavam a cargo da Autarquia Municipal de Água e Esgoto (Amae-CM), que atualmente assume um papel ente regulador e fiscalizador, uma espécie de agência governamental em nível municipal.

Pela transferência das operações, o município de Cachoeiras de Macacu recebeu R$ 55,6 milhões de outorga. Na época da privatização, Rafael Miranda (PP-RJ) já era o prefeito e estava há poucos meses de seu primeiro mandato.

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