Chile: ex-procurador do Ministério Público é preso por suspeitas de sequestro e extorsão contra familiares de seu próprio cliente

Sábado, 12 de setembro de 2026

A organização criminosa montou uma falsa delegacia para levar as vítimas, utilizou símbolos da polícia local e do FBI e pendurou um quadro de Donald Trump na parede

Um caso digno de roteiro de cinema


Imagem: PFV Abogados - Divulgação / Qualidade da foto melhorada com inteligência artificial
Vinko Fodich

O sequestro e a extorsão de dois familiares de um mafioso chinês levaram as autoridades chilenas a desbaratar uma quadrilha. Sete pessoas foram presas durante uma operação policial, na última quarta-feira (9/9), entre elas três detetives da Polícia de Investigações (PDI), três civis e o ex-procurador do Ministério Público Vinko Fodich Andrade (foto), noticiou o portal Meganoticias. As investigações estão em fase inicial e já demonstraram tratar-se de um caso digno de roteiro de cinema. Ademais, tornou-se um escândalo institucional.

As vítimas são Mingkai Fu e Mingxia Fu, cunhado e companheira de Yongjie Chen – vulgo Michael –, respectivamente. Ele é um dos líderes do clã Chen, uma máfia chinesa que atua no país sul-americano.

O ex-procurador é advogado desse mafioso, que está preso desde janeiro deste ano por alegados crimes transnacionais, como lavagem de dinheiro e fraudes contra idosos.

O grupo criminoso supostamente formado por policiais, um ex-procurador e três civis – incluindo o parente de um político – utilizou veículos oficiais e seus símbolos, uniforme alusivo à polícia federal estadunidense (FBI, na sigla em inglês) e montou um falso escritório da PDI num prédio residencial na Região Metropolitana de Santiago.

Na parede da falsa delegacia havia um quadro do presidente norte-americano, Donald Trump. O objetivo era dar um ar de legalidade ao esquema, para fazer com que as vítimas acreditassem que existia uma investigação real em curso contra elas e que seriam deportadas se não colaborassem.

Entre os detidos também estão os policiais Pablo Gajardo Romo, Rodrigo Navarrete Umaña e Sebastián Gajardo Rojas.

E os civis são: Ángelo Stevens Aguilera, José Ignacio Pinto Inzunza e Luis Moraga Parisi. Este último é primo do ex-candidato a presidente Franco Parisi. De acordo com as investigações, ele usava um falso distintivo e se apresentava às vítimas como detetive.

Nessa sexta-feira (11), ocorreu uma nova operação policial, que culminou na detenção de outros três suspeitos. Eles seriam ligados à mencionada máfia chinesa.

Emboscada, sequestro e extorsão


Os sequestros ocorreram de forma separada no passado dia 6 de agosto, após os irmãos Mingkai Fu e Mingxia Fu terem sido induzidos a uma emboscada. Ambos foram soltos no mesmo dia. E a primeira incursão policial para capturar os suspeitos foi realizada um mês depois.

Tudo teria começado quando Mingkai Fu, o cunhado do mafioso chinês, teve um problema no banco e tentava recuperar o dinheiro retido. Foi então que Vinko Fodich o apresentou a José Ignacio Pinto Inzunza, um operador financeiro ligado ao clã Chen.

No dia 5 de agosto, José Ignacio Pinto contatou Mingkai Fu para dizer que tudo estaria solucionado e que deveria encontrá-lo no dia seguinte (6). Quando o rapaz chegou ao lugar combinado, recebeu ordem de prisão de alegados policiais, aos gritos, foi algemado e levado para a falsa unidade da Polícia de Investigações (PDI).

No cativeiro, um homem que se apresentou como suposto agente do FBI ameaçou a vítima e disse que seria deportado para os Estados Unidos, se não colaborasse com as investigações. A identidade dessa pessoa ainda não foi revelada.

Com Mingkai Fu em cativeiro, o advogado Vinko Fodich disse a Mingxia Fu que o irmão dela tinha sido preso pela PDI. Ele a buscou em sua residência e a levou à falsa delegacia, situada a 600 metros de distância de onde ela mora. Na ocasião, havia uma viatura estacionada em frente ao edifício para fazer tudo parecer verdadeiro.

Mingxia Fu encontrou o irmão no local e ouviu os mesmos tipos de ameaças que o rapaz. Ela chegou a suspeitar de que seriam criminosos e expôs isso ao ex-procurador. No entanto, Vinko Fodich afirmou que eram policiais de verdade e que os mandados de prisão seriam legítimos.

Quanto ao operador financeiro José Ignacio Pinto Inzunza, a quadrilha fez os irmãos acreditarem que ele também estava detido.

Os criminosos haviam exigido um montante de 300 milhões de pesos chilenos – algo em torno de R$ 1,6 milhão –, mas os dois irmãos disseram não possuir tamanha quantia. O valor do resgate foi renegociado para 200 milhões de pesos chilenos, cerca de R$ 1,08 milhão.

Os supostos policiais entregaram o celular a Mingkai Fu para que ele e a irmã conseguissem a grana. Antes disso, desativaram o GPS para que as chamadas não fossem rastreadas.

Entre empréstimos e dinheiro guardado em casa, as vítimas entregaram aos sequestradores 30 milhões de pesos chilenos em espécie – R$ 161,5 mil na cotação atual – e foram libertadas no mesmo dia 6 de agosto, mediante a condição de que pagassem posteriormente os 170 milhões de pesos chilenos – R$ 915,1 mil – restantes. Os criminosos também extraíram dados dos celulares dos irmãos como forma de forçá-los a cumprir o acordo em meio ao falso inquérito em andamento contra o mafioso chinês.

Nos dias seguintes, a pressão partiu do advogado da família, que dizia que os supostos agentes da PDI cobravam o restante do resgate.

No dia 8 de agosto, dois dias após a soltura, Mingkai Fu resolveu ir até a Polícia de Investigações para perguntar se havia alguma unidade em determinado endereço. De acordo com Meganoticias, a resposta foi não. A partir daí, começaram as investigações, que resultaram na referida incursão. O caso está a cargo do Ministério Público Supraterritorial, instância com competência em todas as regiões do país.

De procurador do Ministério Público às acusações de envolvimento com o submundo do crime


Para além da crise institucional envolvendo três policiais, o escândalo ganhou proporção maior em razão da suposta participação de Vinko Fodich, que tem se validado de seu prestígio social e trajetória profissional.

Vinko Fodich Andrade começou a carreira como promotor adjunto na cidade de Curicó, em 2001. De 2005 a 2010, atuou como procurador para as comunas de Ñuñoa, Providencia e La Reina.

Em 2010, após deixar o Ministério Público, trabalhou no governo do então presidente Sebastián Piñera. O ex-promotor ocupou a chefia da Divisão de Segurança Pública e, depois, o cargo de subsecretário interino de Prevenção ao Crime. Ambas as funções eram subordinadas ao Ministério do Interior.

Após deixar o setor público, o ex-procurador resolveu advogar, inclusive defendendo integrantes do clã Chen.

Além de sequestro e de extorsão, Vinko Fodich é investigado por supostos delitos de lavagem de dinheiro referentes a uma casa de câmbio da qual seria sócio e que, segundo as investigações, seria utilizada pelo grupo mafioso.

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