Domingo, 06 de setembro de 2026
O artista estava na Barra da Tijuca, a caminho do Rock in Rio, quando foi hostilizado por um influenciador digital durante uma ‘live’; o ator disse ter sofrido homofobia
Imagem: ghrellrj - Kick - Print screen / Qualidade da foto melhorada com inteligência artificial
![]() |
| O ator acelera os passos durante a abordagem |
Hostilização e troca de acusações
Ainda está repercutindo na internet o caso do ator João Victor Gonçalves, de 24 anos, vítima de lacração ao ser ridicularizado durante uma ‘live’, por conta de suas roupas (foto 1), pelo influenciador Jean Almeida Hilário, conhecido como GH Rell RJ. O episódio aconteceu na noite da última sexta-feira (4/9), quando o artista caminhava na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio, para a edição 2026 do Rock in Rio.
“Caralh*, fiel, o que que é isso, fiel? Cara horroroso, meteu um tomate”, zombou o grupo que estava com o ‘streamer’. Também é possível ouvir termos como ‘gostosa’ e ‘muito feio’.
A transmissão foi feita na plataforma Kick, que baniu a conta de GH Rell RJ. O perfil tinha entre 1.200 e 1.500 seguidores.
Nas redes sociais, o artista – que interpreta o personagem Mau Mau na novela ‘Quem ama cuida’, da TV Globo – disse ter sofrido ataque homofóbico.
“(...) Eu sofri um ataque a caminho do Rock in Rio. Na hora eu me senti muito acuado, estava me sentindo numa violência, mas estava pensando muito na minha segurança e eu queria acelerar o passo para fugir daquela situação. Não sabia o que podia acontecer, qual era o próximo passo que aqueles garotos poderiam dar comigo. Estava com a cabeça focada em chegar no Rock in Rio e fazer a entrega para a marca que precisava fazer (...); só quando cheguei em casa, depois de fazer essa entrega, que eu fui sentir o que eu tinha vivido e entender que tinha se tratado de uma agressão e de um ataque homofóbico”, relatou João Victor Gonçalves.
“No fim da noite, o garoto que estava ali cabeceando a ‘live’ e cabeceando aquele vídeo, postou um vídeo de pedido de desculpas, dizendo que ele estava falando sobre fazer entretenimento, que a ‘live’ dele estava muito parada e que ele estava ali fazendo entretenimento (...); esse garoto tem mais de 100 mil seguidores no Instagram. São 100 mil pessoas acompanhando esse tipo de entretenimento, que viola, que machuca, que fere e que abusa (...)”, continuou o artista.
Após a repercussão negativa e o episódio virar caso de polícia – está sob investigação da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) –, o influenciador pediu desculpas, apelou para o fato de residir em comunidade e disse não ter cometido homofobia.
“Sobre o ocorrido que aconteceu na minha ‘live’ de ontem, pega a visão, João! Máximo respeito, não tenho preconceito nenhum com você. O seu público está vindo me atacar de todas as formas aqui, racista, xingando a minha família e sendo preconceituoso comigo. É isso que você quer?! A minha opinião, mano (sic), vai continuar sendo a mesma, eu não gostei da sua calça. Onde eu moro, irmão, é dentro de uma comunidade. É muito difícil a gente ver uns estilos desses, então quando eu vi, fiquei perplexo, fiquei abismado e ri mesmo. E essa vai continuar sendo a minha opinião. Em nenhum momento fui homofóbico com você, não me referi a sua orientação sexual”, alegou Jean Hilário.
“(...) Você também tem que se retratar. Se eu fui homofóbico com teus seguidores, com os meus seguidores você também foi racista, sabe, por quê? Como que eu vou te roubar, irmão, de um evento que tinha muito segurança? Você falou que estava com medo de ser roubado. Por que você com medo de ser roubado? Por causa da minha cor? É por que sou preto? Eu não vou mudar a minha opinião, irmão. Não gostei da tua calça e ainda continuo rindo, achei muito engraçado. Essa é minha opinião. Se você se ofendeu, eu errei de ter te gravado, mas a minha opinião sobre a calça é a mesma. Se você se ofendeu, estou pedindo as desculpas de coração aberto”, completou o influenciador digital.
Imagem: jvgoncalves_ - Instagram - Print screen
![]() |
| João Victor Gonçalves desabafa sobre a hostilização sofrida |
Para os advogados Gustavo Polido e Andressa Knapp, que prestam assessoria jurídica ao ator (foto 2), a reação do cliente foi de ‘legítima autoproteção, plenamente justificável diante do contexto fático: a ausência de seguranças no local, superioridade numérica dos agressores (quatro contra um) e a natureza intimidatória da abordagem’.
“Não há nexo entre o receio manifestado e qualquer elemento de cunho racial”, escreveram os juristas em trecho de nota.
“O deboche público motivado pela não conformidade da vestimenta com padrões normativos de gênero, exposto e amplificado por meio de transmissão ao vivo, constitui ato discriminatório grave, independentemente do uso de termos pejorativos diretos”, completaram os advogados.
Imagem: Redes Sociais - Print screen
![]() |
| Patriotismo e autovitimização estão entre os mecanismos de defesa do influenciador |
A defesa do influenciador (foto 3) se manifestou sobre o assunto. Para o advogado Vinicius Jeske, seu cliente ‘não dirigiu qualquer comentário, insinuação ou referência à orientação sexual do artista’.
“(...) Ciente da inadequação do tom utilizado durante a transmissão realizada, [Jean] já apresentou pedido formal de desculpas, por meio de sua rede social, ao artista envolvido – gesto espontâneo que demonstra o seu verdadeiro arrependimento. Reconhece-se, com humildade, que a ação não foi apropriada, e por isso as desculpas foram e permanecem ofertadas”, manifestou o advogado de GH Rell RJ em trecho de nota.
“O ‘streamer’ reafirma seu respeito e sua repulsa a todo e qualquer ato de discriminação, reitera o pedido de desculpas já formalmente realizado”, continuou o jurista, ao acrescentar que ele estaria à disposição das autoridades competentes para eventuais esclarecimentos.
Lacração em cima da própria lacração
Nos vídeos que circulam na internet sobre o episódio, não se ouve, de forma explícita, referência à orientação sexual do ator nem qualquer manifestação de cunho racista contra o influenciador que pudesse sustentar seu argumento.
Vídeo: ghrellrj - Kick
No vídeo, é possível ouvir termos como ‘gostosa’ e ‘muito feio’.
O que se sabe, com base nas cenas (vídeo), é que houve uma espécie de perseguição, de bullying e de linchamento virtual por parte do ‘streamer’ e seus colegas. O caso está sendo investigado como suposta homofobia, conforme Lei nº 7.716/1989, crime equiparado ao racismo por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em meio à omissão do Poder Legislativo.
As desculpas do influenciador estão longe de convencer. Vestido com uma camisa da seleção brasileira – que remete a eleitores ligados ao bolsonarismo –, ele tenta lacrar sobre a própria lacração e insiste em falar que não gostou da roupa de João Victor Gonçalves, como se a opinião dele tivesse alguma relevância ou importância.
Além disso, Jean Hilário busca inverter o efeito pela causa, ao alegar que teria sofrido suposto racismo, devido ao medo do artista em ser assaltado durante a abordagem vexatória.
O impressionante dessa história é a justificativa do influenciador. Ele alega que, por morar em comunidade, não estaria acostumado a ver ‘uns estilos desses’. Pretende passar ‘atestado de burrice’ a seus seguidores e à opinião pública numa tentativa de se vitimizar e se blindar das críticas. Nas periferias existem diferentes estilos de moda, inclusive os que ele disse nunca ter visto.
“(...) Esse garoto tem mais de 100 mil seguidores no Instagram. São 100 mil pessoas acompanhando esse tipo de entretenimento, que viola, que machuca, que fere e que abusa (...)” (João Victor Gonçalves)
Já o fato de esse ‘streamer’ ter mais de mil seguidores no Kick e cerca de 100 mil seguidores no Instagram não surpreende. Isso reflete a personalidade dos usuários que o seguem, apreciam o grotesco, banalizam a humilhação e a exposição indevida de pessoas e transformam o entretenimento predatório em conteúdo, unicamente para lacrar e tentar monetizar às custas do sofrimento de suas vítimas. Afinal de contas, ninguém é obrigado a seguir ou interagir com o que não gosta.



Postar um comentário
Sua opinião será publicada, logo que aprovada, conforme Política de Uso do site.
O OPINÓLOGO agradece o seu comentário.