Quinta-feira, 16 de julho de 2026
Mulheres de extrema direita defendem fim do voto feminino em evento nos Estados Unidos
Imagem: Turning Point USA - Redes Sociais
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| Evento aconteceu no estado conservador do Texas |
Conferência de mulheres cristãs
Mulheres norte-americanas de extrema direita, ou ultraconservadoras, defenderam o fim do voto feminino durante o ‘Women’s Leadership Summit 2026’. Trata-se de uma conferência de mulheres cristãs promovida pela organização política Turning Point USA. O evento contou com a presença de cerca de três mil pessoas e ocorreu em San Antonio, no Texas, Estados Unidos, entre os dias 5 e 7 de junho, de acordo com o canal de TV canadense Canadian Broadcasting Corporation (CBC).
Oficialmente, a entidade não abordou a proposta, mas em entrevistas a veículos de comunicação que cobriram o encontro, algumas das participantes se manifestaram a favor de que o país adotasse o sistema de apenas um voto por domicílio (‘household voting’) e que a decisão de eleger políticos coubesse aos maridos.
A ideia de um voto por núcleo familiar remete à Doutrina Coverture – vigente em países anglo-saxões durante os séculos XVIII e XIX –, na qual marido e mulher se fundiam numa única identidade jurídica após o matrimônio. Por não terem sua individualidade, as mulheres casadas não podiam ter propriedades em seu nome, trabalhar, ser processadas nem firmar contratos. E em caso de divórcio, a guarda dos filhos ficaria com o genitor.
A dona de casa Brooke Foxworthy é uma das que não vê problema nisso: “Se meu marido é o cabeça da família, eu sou o pescoço, e trabalhamos muito bem juntos; se ele votasse em nome da nossa família, eu não teria nenhum problema com isso”.
A comparação sobre o homem ser o cabeça da família e a mulher, o pescoço, remete a uma das cenas do filme Casamento Grego, comédia romântica exibida em 2002.
Para a influenciadora Savanna Stone, que tem mais de 500 mil seguidores no Instagram, mulheres tendem a apoiar candidatos mais liberais. Se houvesse mudança no sistema eleitoral, a ‘América’ seria mais cristã e mais conservadora. Ela foi uma das palestrantes do evento. A ironia aqui é por ela se utilizar de uma ferramenta pública e de liberdade de expressão para apoiar a censura e a perda do poder político feminino.
Em 2025, durante uma entrevista ao podcast ‘The Pocket with Chris Griffin’, Savanna Stone foi além: “Eu sei, com certeza, que se as mulheres não pudessem votar, o aborto não seria legal, em primeiro lugar”.
A Turning Point USA foi fundada pelo ativista de extrema direita Charlie Kirk, assassinado num atentado em setembro do ano passado, enquanto participava de um evento na Universidade Utah Valley (UVU), em Utah. Ele era aliado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Após o crime, a organização passou a ser gerida pela viúva Erika Kirk, anfitriã da citada cúpula.
Cristãs e eleitoras de Trump
Para além do fato de as participantes serem brancas, em sua maioria, e terrivelmente evangélicas, todas são eleitoras ou já apoiaram o atual mandatário estadunidense durante a eleição de 2024. Ademais, demonstram que não se trata de um movimento isolado, mas um projeto político.
Em agosto de 2025, por exemplo, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, repostou a entrevista do pastor nacionalista Doug Wilson, na qual defendia que as mulheres não deveriam votar, segundo o Democracy Docket, portal especializado em matérias sobre democracia e eleições.
Em novembro do mesmo ano, Dale Partridge, outro pastor ultraconservador, declarou que o Congresso norte-americano deveria revogar a 19ª Emenda, ao criticar a empatia das mulheres. A medida, ratificada em 1920, garantiu o direito ao voto feminino, proibindo restrições baseadas no gênero.
“Acho que deveríamos revogar a 19ª Emenda, porque amo a América e as mulheres americanas, e quero proteger nossa nação da empatia suicida delas”, escreveu o líder religioso numa rede social.
Num artigo publicado em abril passado, o diário estadunidense The New York Times descreveu o pastor Dale Partridge como uma figura central desse movimento que incita a revogação do sufrágio feminino e que teria conquistado seguidores na internet por meio de ‘comentários incendiários’ contra feministas, católicos e gays. Além disso, considera a imigração como um ‘suicídio nacional’ e já classificou de ‘demoníacas’ religiões como o Islamismo e o Hinduísmo.
Submissão, o fetiche dos misóginos
Para mulheres com esse tipo de pensamento retrógrado e suicida, não basta serem belas, recatadas e do lar. Também é preciso ser fúteis. São como baratas que agem em defesa do chinelo ou mosquitos simpatizantes do inseticida.
Não se trata de uma simples omissão voluntária ou submissão bíblica. Elas se tornaram perigosas para o próprio gênero, ao cogitarem anular os direitos de toda uma classe para impor seu estilo de vida vazio e subserviente. Num sentido conotativo, existem diferenças entre ser mulher e ser fêmea.
A primeira se refere à identidade e à autodeterminação, além da união e da empatia para com todas, independentemente de escolhas e de questões ideológicas e/ou religiosas.
Já a segunda está ligada à submissão, à arte de se omitir, à anulação da individualidade e da existência e ao desrespeito às diferenças e à coletividade. Na prática, ela se submete ao fetiche da misoginia masculina, ao mesmo tempo que age de forma autofágica.
Enquanto mulheres reivindicaram por séculos o direito ao voto ao longo da história, de modo a equiparar-se aos homens em direitos e deveres, um nicho da atualidade se aproveita das benesses da democracia e da liberdade de expressão para tentar corroer por dentro o próprio sistema que as libertou, por meio de manipulação religiosa.
Por enquanto, o objetivo seria tornar a ‘América’ – ignorando tratar-se de um continente – numa espécie de ‘Ameriquistão’, uma teocracia no sentido mais fundamentalista da palavra, uma versão realista de ‘O Conto de Aia’.
No entanto, ultraconservadores têm se unido em torno de uma pauta comum global, num ensaio ao retrocesso, tanto para influenciar processos eleitorais quanto para extinguir direitos sob pretextos de patriarcado bíblico travestido de moralidade.
Ou talvez as coisas sejam mais simples do que parecem: homens que não conseguem competir com as mulheres no mercado de trabalho, na política e em outros aspectos sociais precisam subjugá-las para se sentirem superiores.

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