Segunda-feira, 27 de abril de 2026
Deputados venezuelanos pedem o reingresso do país, suspenso desde 2016, ao bloco regional
Imagem: Gerada por inteligência artificial para Opinólogo
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| Foto ilustrativa |
O pedido
Uma delegação formada por quatro deputados venezuelanos (foto 2) se reuniu com representantes do Parlasul – o Parlamento do Mercado Comum do Sul (Mercosul) – em Montevideu, no Uruguai, nesta segunda-feira (27/4), para discutir o retorno do país caribenho ao bloco regional.
Os legisladores venezuelanos sustentaram que esse seria o consenso de todos os seus pares na Assembleia Nacional, noticiou o diário local El Universal. Os porta-vozes da missão internacional são os deputados Saúl Ortega, José Gregorio Correa, Pablo Pérez e Francisco Torrealba. Eles foram recebidos pelo presidente do Parlasul, o deputado paraguaio Rodrigo Gamarra.
Imagem: Asamblea Nacional - Print screen / Qualidade da foto melhorada com inteligência artificial
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| Os deputados venezuelanos durante visita ao Parlasul |
O parlamento venezuelano é presidido por Jorge Rodríguez, irmão da presidenta Delcy Rodríguez. Ela assumiu interinamente o poder em janeiro passado, após Nicolás Maduro ter sido capturado por militares norte-americanos sob alegação de ser o líder de um suposto cartel de drogas.
A reintegração da Venezuela ao Mercado Comum do Sul conta com o apoio do Brasil. Na semana passada, o vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin (PSB-SP), defendeu rediscutir o caso à medida que a nação latino-americana “vive outro momento”.
Mudanças políticas superficiais
O pedido de reingresso acontece em meio às recentes mudanças políticas superficiais que estão ocorrendo desde a prisão de Nicolás Maduro. O atual comando interino do país conta com o aval do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Pressionada, e num gesto para “gringo ver”, a mandatária tem adotado uma postura mais conciliadora em comparação ao seu antecessor. Em fevereiro deste ano, sancionou uma lei de anistia para presos políticos. Dois meses depois, anunciou o encerramento da legislação. Mais de 700 pessoas foram libertadas, sendo que menos de 200 seriam, de fato, por conta da citada legislação. Organizações de direitos humanos denunciam que ainda há mais de 400 detidos que não obtiveram o benefício.
Delcy Rodríguez também informou sobre o fechamento do presídio Helicoide, em Caracas, apontado por defensores dos direitos humanos como um local associado a práticas de tortura contra opositores do regime bolivariano.
Histórico da Venezuela no bloco
A Venezuela aderiu ao Mercosul em 2012 durante o regime do falecido ditador Hugo Chávez, passando a ser membro pleno.
Em dezembro de 2016, sob a gestão de Nicolás Maduro, Caracas foi suspensa do bloco, por tempo indeterminado, em decorrência do descumprimento de obrigações comerciais e burocráticas assumidas pelas nações participantes. O país já tinha sido impedido de assumir a presidência temporária do grupo.
Em agosto de 2017, o país caribenho foi definitivamente suspenso por ruptura democrática, em conflito com o Protocolo de Ushuaia.
Sem democracia
A Venezuela foi suspensa do grupo – criado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – justamente por falta de democracia. Sua inclusão, assim como uma eventual reinserção, se deve a questões ideológicas num contexto que os quatro países fundadores eram governados por líderes de esquerda.
As últimas mudanças políticas não significam que o país voltou à normalidade e não se encerram em si mesmas. Algumas das medidas adotadas estão sendo realizadas sob pressão, interferência estrangeira e intimidação.
Para além da libertação de parte dos prisioneiros políticos, é preciso garantir segurança jurídica aos exilados que fugiram do país para evitar uma prisão em meio à perseguição implacável do regime. Entre os exemplos, pode-se citar a ex-procuradora geral da República Luisa Ortega Díaz e o empresário Guillermo Zuloaga, antigo proprietário do canal de TV Globovisión.
Somente com a redemocratização do país é que talvez seja possível sanar certas injustiças e promover reparações. No decorrer de quase três décadas, o chavismo cassou e/ou não renovou a concessão de centenas de emissoras de rádio e de televisão. O destaque vai para a RCTV, que era explicitamente opositora ao ex-presidente Hugo Chávez.
Ativismo vira Nobel da Paz
O passo mais importante e urgente ainda não fora tomado: a realização de eleições livres. Em 2024, a suposta reeleição de Nicolás Maduro foi contestada pela oposição, encabeçada pela ex-deputada María Corina Machado, que apresentou cópias das atas de votação e alegou fraude por parte do chavismo com a suposta conivência do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) e do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ).
Por seu ativismo em comprovar a alegada fraude eleitoral, por lutar por democracia vivendo na clandestinidade para não ser presa, María Corina Machado foi laureada em 2025 com o Prêmio Nobel da Paz. A honraria foi criticada e contestada por simpatizantes do chavismo pelo fato de ela ter apelado para uma invasão armada estrangeira para derrubar o governo, o que, na prática, contraria o discurso de paz.
Em 2024, a ex-parlamentar era pré-candidata à presidenta, mas foi impedida de concorrer, porque o TSJ invalidou as prévias eleitorais – consideradas informais – nas quais ela obteve o apoio de 92% dos eleitores presentes. A candidatura foi substituída às pressas pela do diplomata Edmundo González Urrutia, apontado pela oposição como vencedor do pleito.
O impedimento se deve à cassação dos direitos políticos em 2015, ao ocupar, a convite, o assento do Panamá perante a Organização dos Estados Americanos (OEA) para denunciar supostas violações de direitos humanos cometidas pelo regime, o que foi interpretado como uma traição à pátria.
Desde que ganhou o Nobel da Paz no ano passado, María Corina Machado ainda não retornou à Venezuela. No decorrer dos últimos meses, tem feito uma campanha de mobilização internacional para reivindicar a saída de Delcy Rodríguez e a realização de novas eleições.
Sem eleições livres e limpas, sem garantias legais, sem independência institucional e sem respeito aos direitos civis, qualquer retorno da Venezuela ao Mercosul deve ser visto apenas como uma manobra política, não uma reintegração legítima.


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