Quinta-feira, 05 de março de 2026
Bloco anti-Israel foi fundado em 2025 para respaldar decisões do Tribunal Penal Internacional em meio aos bombardeios em Gaza; saída desses dois países sinaliza realinhamento geopolítico na América Latina
Imagem: Gerada por inteligência artificial para Opinólogo - Foto ilustrativa
Guinada geopolítica
Os governos direitistas de Honduras e da Bolívia decidiram abandonar o Grupo de La Haya (The Hague Group), nessas terça e quarta-feiras, 3 e 4 de março, respectivamente. O bloco foi criado no intuito de respaldar as decisões do Tribunal Penal Internacional (TPI) contra Israel acerca do genocídio praticado a cidadãos palestinos na Faixa de Gaza.
A saída dessas duas nações acontece às vésperas do encontro que líderes latino-americanos de [extrema] direita terão com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no próximo sábado (7), e também em meio à guerra no Oriente Médio. O conflito tem Israel e Estados Unidos de um lado e Irã do outro e começou no último sábado (28/2), resultando na morte do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país persa.
No caso de Honduras, a retirada ocorreu durante uma reunião (foto 2) entre o presidente Nasry Asfura, sua chanceler Mireya Agüero e o embaixador de Israel em Tegucigalpa, Nadav Goren, na última terça-feira (3).
Imagem: Nadav Goren - Redes Sociais /
Qualidade da foto melhorada com inteligência artificial
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| Encontro marca uma guinada geopolítica, mas também ideológica |
A iniciativa foi celebrada pela Embaixada de Israel, que alegou, em nota, que o “Grupo de La Haya foi constituído sob uma orientação ideológica extrema e tem feito uso indevido de mecanismos internacionais, tentando instrumentalizar o direito como ferramenta de confrontação (lawfare)”.
A saída da Bolívia da entidade internacional foi comemorada pelo ministro de Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa’ar, ao destacar que “esta é uma medida necessária e pautada por princípios para combater o mal”.
À medida que houver trocas de governos de vertente ideológica oposta, em decorrência de processos eleitorais, o futuro desse grupo, que em dois anos dá sinais de fragilidade, fica cada vez mais incerto.
Sobre o Grupo de La Haya
Diferentemente do que o nome pode sugerir, o Grupo de La Haya é apenas uma instituição informal e de caráter diplomático. Não possui nenhum vínculo com o Tribunal Penal Internacional (TPI) nem com a Organização das Nações Unidas (ONU).
Foi criado em Haia, na Holanda, em 31 de janeiro de 2025, por oito países do chamado Sul Global, cujos mandatários – da época – eram de centro-esquerda: África do Sul, Bolívia, Colômbia, Cuba, Honduras, Malásia, Namíbia e Senegal.
O encontro (foto 3) mais recente da entidade intercontinental aconteceu em Haia, nessa quarta-feira (4), e contou com a presença de representantes de 40 países, com destaque para Brasil, Uruguai, Venezuela, Espanha, Angola, China, Suíça, Noruega, Dinamarca e Suécia.
Imagem: Grupo de La Haya - Reprodução
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| Encontro contou com a participação do Brasil |
A reunião emergencial foi convocada por África do Sul e Colômbia para discutir o novo capítulo da crise na Faixa de Gaza, que é a anexação unilateral da Cisjordânia por parte do governo israelense, além das restrições ao envio de ajuda humanitária aos palestinos.
Os países que deram origem ao Grupo de La Haya não têm grande peso geopolítico e pouco podem fazer em relação à nação judaica, que conta com o apoio irrestrito dos Estados Unidos. Para lograr visibilidade, essas nações fundadoras coordenam posições diplomáticas e praticam o que se pode chamar de ativismo judicial internacional, pressionando instituições jurídicas internacionais para constranger politicamente Estados mais poderosos.
Crise de Gaza nas instâncias internacionais
No dia 29 de dezembro de 2023, a África do Sul denunciou Israel perante a Corte Internacional de Justiça (CIJ) por suposto crime de genocídio contra civis palestinos – cujas estimativas são de 70 mil vítimas fatais – em meio aos bombardeios contra o Hamas em Gaza.
Em maio de 2024, a CIJ considerou “plausíveis” algumas das alegações da África do Sul. A corte pediu que Israel evitasse o genocídio de palestinos, mas não determinou o cessar-fogo e tampouco julgou se o país hebreu estaria ou não cometendo tal prática.
O conflito, se é que dá para chamar assim, começou após o grupo terrorista islâmico promover um atentado contra cidadãos israelenses, que culminou em mortes e sequestros, em 7 de outubro de 2023.
No entanto, críticos às políticas israelenses podem ver o Hamas como um movimento de resistência contra a expansão de assentamentos judaicos em território palestino, e isso não pode ser confundido nem distorcido como antissemitismo para tentar silenciar vozes dissidentes. Ademais, a Palestina não tem suas próprias forças armadas.
Atualmente, cerca de 150 dos 193 países-membros da ONU já reconhecem a Palestina como nação, apesar da pressão de Israel para que isso não acontecesse. Contudo, tal reconhecimento não é suficiente para frear a política territorialista judaica ou acabar com o histórico conflito geopolítico e religioso entre ambas as partes.
Em meio à crise entre Israel e o grupo guerrilheiro islâmico, em novembro de 2024, o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu mandados de prisão em desfavor do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o ex-chefe da Defesa israelense Yoav Gallant e do líder do Hamas Ibrahim al-Masri por supostos crimes de guerra e contra a humanidade.
Posteriormente, a ordem de captura para o integrante do Hamas foi revogada, depois da confirmação do óbito. Ele foi morto por militares israelenses num ataque aéreo em 13 de julho de 2024.
Por conta do processo contra autoridades israelenses, Trump sancionou alguns juízes e promotores do Tribunal Penal Internacional, em agosto 2025. A medida é uma tentativa de interferência direta na independência do órgão.
Cabe aqui explicar as diferenças entre CIJ e TPI. Ambas são ligadas à ONU e sediadas em Haia, sendo que a primeira atua em disputas territoriais e tratados envolvendo Estados – leia-se países –, enquanto o segundo, contra indivíduos, pessoas físicas, por crimes de guerra e/ou contra a humanidade.



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