Quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Parlamento Europeu decide levar à Justiça acordo de livre comércio firmado com o Mercosul
Imagem: Gerada por inteligência artificial para Opinólogo
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| A Europa e o touro do mundo real |
Judicialização do acordo
O Parlamento da União Europeia (UE) decidiu judicializar o acordo de livre comércio com o Mercado Comum do Sul (Mercosul), ao submetê-lo à aprovação do Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE). A medida foi tomada durante votação ocorrida nesta quarta-feira (21/1), um dia depois do protesto de milhares de agricultores em frente à sede da instituição em Estrasburgo, na França. Foram 334 votos favoráveis, 324 contrários e 11 abstenções. Com isso, cria-se um novo impasse nas negociações que duraram quase 26 anos entre os dois blocos.
A decisão dos eurodeputados foi criticada, por exemplo, pelo chanceler alemão, Friedrich Merz: “A decisão do Parlamento Europeu é lamentável. Ela avalia mal a situação geopolítica. Estamos convencidos da legalidade do acordo. Chega de atrasos. O acordo deve agora ser aplicado provisoriamente”.
Em coletiva de imprensa mais cedo, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, falou que ‘isso, de alguma maneira, estava previsto’. O país preside temporariamente o Mercosul.
Vale sinalizar que o atraso na execução do acordo Mercosul-UE não representa uma derrota para o governo do presidente do Brasil, Luiz Inácio (PT-SP), pois, como chefe de Estado, fez tudo que estava a seu alcance para que fosse aprovado. Isso já gerou um ganho político e, provavelmente, eleitoreiro para o pleito de 2026. A iniciativa do Parlamento Europeu traz prejuízos ao comércio bilateral e aos milhões de cidadãos de ambos os blocos.
Assinatura do acordo
O tratado Mercosul-UE foi formalmente assinado, no último sábado (17), em cerimônia (foto 2) ocorrida na capital Assunção. O evento contou com a presença: da presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen; do presidente do Conselho Europeu, António Costa; do mandatário paraguaio; do presidente do Uruguai, Yamandú Orsi; do presidente da Argentina, Javier Milei; do presidente da Bolívia, Rodrigo Paz; do presidente do Panamá, José Raúl Molino; e representando o governo brasileiro, o chanceler Mauro Vieira.
Imagem: Carlos Cruz - Itamaraty
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| Lula não compareceu ao evento e foi representado pelo ministro Mauro Vieira |
Em entrevista à emissora alemã DW, o líder paraguaio agradeceu ao presidente Lula (PT-SP) por liderar as negociações entre os dois blocos econômicos: “Não podemos nos esquecer do presidente Lula da Silva, presidente do Brasil; nos últimos 25 anos, tivemos essa disputa entre o Brasil e a Argentina, e quando a Argentina era a favor, o Brasil era contra. E quando o Brasil era a favor, a Argentina era contra”.
“Agora chegamos a um ponto em que o presidente Lula assumiu isso como um projeto especial para ele, e [temos] o presidente Milei com uma agenda econômica muito aberta e livre – isso se encaixa muito bem com o acordo de livre comércio”, continuou.
O mandatário paraguaio também destacou a pressão provocada pelo ‘tarifaço’ do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para destravar as negociações, algo que soa como irônico.
“Um grande agradecimento ao presidente Trump, é claro, porque ele veio com essa nova agenda sobre tarifas, o que assustou muitos países europeus. Então, eles acharam que seria bom assinar um acordo com outras regiões”, comentou.
O acordo Mercosul-UE foi aprovado pelos europeus no último dia 9 de janeiro. Para o presidente Lula (PT-SP), foi um ‘dia histórico para o multilateralismo’.
“Dia histórico para o multilateralismo. Após 25 anos de negociação, foi aprovado o Acordo entre Mercosul-União Europeia, um dos maiores tratados de livre comércio do mundo. A decisão chancelada pelo lado europeu une dois blocos que, juntos, somam 718 milhões de pessoas e um PIB de US$ 22,4 trilhões (...)”, expressou o líder petista.
A intenção do líder petista era de que o tratado fosse aprovado em dezembro passado, antes de encerrar o mandato temporário do Brasil no Mercosul. O referido acordo encontrou resistência por parte de alguns países do Velho Continente, como a França, Irlanda, Polônia e Hungria.
Produtores rurais europeus se opõem ao acordo, por temor de concorrência desleal diante de produtos do Mercosul mais baratos e diferenças nos padrões ambientais e sanitários entre os dois blocos.
Europa: mitologia x realidade
O referido acordo é histórico não só por conta da abertura comercial com redução ou isenção de tarifas entre os dois blocos, mas por ter levado mais de duas décadas para sua aprovação.
De fato, o ‘tarifaço’ imposto pelas políticas protecionistas e chantagistas de Trump impulsionou a comunidade internacional a repensar as relações comerciais e a buscar novos mercados. O Brasil, por exemplo, apesar da sobretaxa de 50% aplicada pelo governo norte-americano sobre seus produtos, bateu recorde de exportações.
Em 2025, países da União Europeia foram sobretaxados por Trump. Foi uma pressão para que se sujeitassem a um acordo comercial. Em 2026, estão sendo novamente coagidos com novas tarifas, caso não concordem com a venda da Groenlândia – território semiautônomo da Dinamarca – para os Estados Unidos. O bloco europeu discutiu a possibilidade de retaliação no montante de € 93 bilhões, algo em torno de R$ 495 bilhões.
Em meio ao risco de invasão norte-americana à Groenlândia, algumas nações europeias enviaram na semana passada militares à região em demonstração de apoio à Dinamarca e para reafirmar unidade entre os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Contudo, soldados alemães retornaram ao país após ameaça de novas tarifas por parte de Trump, o que aponta para o fato de que a economia está ditando a defesa.
Ao judicializar o acordo de livre comércio, o Parlamento Europeu rejeitou uma alternativa estratégica viável de expansão e de abertura de mercado, preferindo manter a economia do bloco subordinada aos caprichos de Trump – que fez como que os Estados Unidos deixassem de ser um parceiro confiável.
A União Europeia não é vítima, e sim vilã de si mesma, ao se permitir colocar numa situação vulnerável, o que a torna merecedora de ser refém do ‘tarifaço’ de Donald Trump e de seu modus operandi chantagista, com graves impactos comerciais, diplomáticos, militares e geopolíticos.
Assim como na mitologia grega, a Europa do mundo real é uma ‘princesa’ seduzida e abduzida por um touro branco, disfarce de Zeus para tirar proveito dela. A mensagem subliminar da lenda vai além da tara e do suposto romantismo do rei dos deuses, mas das coisas que era capaz de fazer para alcançar seus objetivos, a começar pela falta de limites e a traição à esposa Hera. Tanto a personagem mitológica quanto o Velho Continente são dominados por forças externas, com a sutil diferença de que a Europa contemporânea é iludida por um ser que se comporta como divindade.
Ao afirmar que somente os Estados Unidos são capazes de proteger a Groenlândia – contra supostas influências chinesa e russa –, o mandatário norte-americano está, categoricamente, chamando a Europa de fraca, incapaz de defender o próprio território, do mesmo modo que a donzela indefesa do mito.


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