Shows de música gospel no réveillon do Rio entram na mira do MPF

Quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Praia do Leme terá palco exclusivo para artistas evangélicos; patrocínio da prefeitura é criticado por líder candomblecista

Imagem: Gabriel Monteiro - Riotur / Qualidade da foto melhorada com inteligência artificial
Vista aérea da Praia de Copacabana, no Rio, durante uma queima de fogos do réveillon

Os shows de música gospel que ocorrerão na noite desta quarta-feira (31/12), na Praia do Leme, Zona Sul do Rio, durante as celebrações do réveillon 2025/2026, entraram na mira do Ministério Público Federal (MPF). O órgão fiscalizador informou ontem (30) ter instaurado um inquérito contra a Prefeitura do Rio de Janeiro para apurar suposta discriminação cultural e religiosa, por disponibilizar um palco exclusivo para esse gênero musical em detrimento de outras religiões.

“Após reuniões e diligências que já haviam sido realizadas ao longo de 2025, o MPF requisitou à Prefeitura do Rio de Janeiro mais informações sobre os critérios adotados para a definição e a destinação de recursos públicos para eventos culturais realizados nas praias durante o réveillon de 2026. O prazo para resposta foi fixado até 21 de janeiro de 2026, data em que também será realizada reunião, na sede do MPF, com representantes do poder público e de entidades da sociedade civil, com o objetivo de discutir políticas públicas para o enfrentamento da intolerância e do racismo religioso e cultural”, explicou o MPF.

Não foi informado se o inquérito seria uma iniciativa direta do Ministério Público Federal ou se partiu de alguma representação por parte de organizações de direitos humanos contestando o suposto favorecimento religioso.

Esse é apenas mais um capítulo da polêmica que tomou conta nos últimos dias, depois que o babalaô Ivanir dos Santos criticou o uso de dinheiro público para financiar espetáculos evangélicos na festividade de fim de ano. O líder candomblecista também reivindicou para as religiões de matriz africana a prática de celebrar a virada de ano na orla carioca.

“Estamos aqui para falar o óbvio. Vestir branco, dar três pulinhos em três ondinhas na praia, fazer três pedidos, jogar flores ao mar é uma identidade das religiões de matriz africana que construíram o réveillon no Rio de Janeiro. Então esta grande festa, como ela é hoje conhecida, teve início com religiosos de matriz africana indo à praia reverenciar Iemanjá, os seus orixás, os seus caboclos e pretos velhos. Lamentavelmente, essa presença não está hoje tão firme nessa festa, mas quero chamar atenção que mais uma vez, no segundo ano, a Prefeitura do Rio está patrocinando um palco gospel. Nada contra! Mas é muito chato nós sabermos que mais uma vez fomos excluídos, ou seja, as tradições religiosas e culturais que construíram essa festa não têm recebido essa mesma atenção da Prefeitura do Rio de Janeiro (…)”, expressou Ivanir dos Santos.

“(…) Eu faço uma pergunta ao prefeito Eduardo Paes: ‘quais a política pública feita para as culturas afro-brasileiras e seu apoio financeiro para que isso possa se dar?’ Mas nós, religiosos e militantes, temos que estar muito firmes de não aceitar sermos submissos num momento como esse. Nossa cultura é resistência, e foi essa resistência que além de ter construído o réveillon construiu também o desfile das escolas de samba, que trazem grandes receitas para a Prefeitura do Rio. E como cidadãos e contribuintes, nós temos que entrar nesse debate. Queremos ser tratados com equidade e que a prefeitura respeite a diversidade, que é o que todos nos queremos”, continuou o líder religioso.

O mandatário carioca rechaçou as críticas de Ivanir dos Santos, ao se referir a ele como ‘essa gente’, o que polemizou ainda mais.

“É impressionante o nível de preconceito dessa gente. O réveillon na Praia de Copacabana é de todos” A música gospel também pode ter seu lugar. Assim como o samba, o rock, o piseiro, o frevo, a música baiana, a MPB, a bossa nova… Cada um que fique no ritmo que mais curte! O povo cristão também tem direito a celebrar! Amém! Axé! Shalom! Namaste!”, respondeu Eduardo Paes (PSD-RJ).

O tema precisa ser analisado sob diferentes aspectos: a existência de um suposto conflito religioso, tendo em vista que o Estado é – ou deveria ser – laico; o suposto racismo religioso por parte da administração carioca; uma suposta discriminação contra evangélicos; a busca por inclusão social e protagonismo nas discussões e políticas públicas; e o suposto uso político do evento para atrair a simpatia dos evangélicos em ano eleitoral.

Ademais, muitos evangélicos escutam música gospel. Ainda que escutem outros ritmos, as letras costumam ser de cunho religioso. Eles conseguiram transformar o estilo de vida deles em cultura, um nicho de mercado.

No caso do MPF, em vez de ingressar com uma ação civil pública (ACP), com pedido de tutela de urgência, para embargar as apresentações de música gospel, optou por estender as discussões, por meio de um inquérito, para evitar desgaste junto a parte da opinião pública, ao mesmo tempo que afasta qualquer indício de prevaricação de suas atribuições.

Em meio a essa polêmica, a Cidade Maravilhosa recebeu do Guinness Book, nessa terça-feira (30), o título de maior réveillon do mundo. O certificado foi entregue pela organização ao alcaide carioca no palco principal da festa da virada em Copacabana, na Zona Sul.

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