Quinta-feira, 06 de novembro de 2025
A ex-mandatária tinha sido condenada por golpe de estado, após assumir o poder interinamente com a renúncia de Evo Morales
Imagem: Redes Sociais - Divulgação - Qualidade da foto melhorada com inteligência artificial
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| O momento de soltura é carregado de gestos políticos |
A ex-presidenta da Bolívia Jeanine Áñez teve a pena anulada pelo Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) e deixou a cadeia de Miraflores, nesta quinta-feira (6/11), após 4 anos e 7 meses. Ela tinha sido presa em 2021 e condenada a 10 anos de prisão em 2022 por suposto golpe de estado.
Jeanine Áñez não foi absolvida. Seu processo penal será reconduzido por um juízo adequado, levando-se em consideração que ela exerceu o cargo de chefe de Estado, publicou o jornal local La Razón.
“O monstro teve que ir embora para que eu voltasse à vida e para que fosse reconhecido que jamais houve golpe de estado neste país. O que aconteceu foi uma fraude eleitoral que nos levou a todos os bolivianos a reclamar que nosso direito e voto fossem respeitados”, expressou a ex-mandatária a veículos de imprensa ao deixar o presídio. A fala é uma alusão ao Movimento ao Socialismo (MAS), partido de esquerda que comandou o país por quase 20 anos.
Nas redes sociais, ela se apresenta como uma ‘presa política’ e disse que o tribunal ‘ouviu a verdade’ e que jamais se arrependeria do que fez em defesa da pátria.
“Esses quase cinco anos privados de liberdade me marcaram, mas não abalaram minhas convicções. Nunca vou me arrepender de ter servido a minha pátria quando precisou de mim. Fiz isso com consciência e coração firme, sabendo que decisões difíceis têm um preço [a pagar]. Aprendi que a verdadeira liberdade não depende de muros, mas de manter viva a verdade do que fiz e por que o fiz”, manifestou Jeanine Áñez na internet.
Sua prisão não foi um ato de justiça, mas a consumação de uma vingança política por ter aceitado assumir o cargo em meio à vacância de poder e ao caos que imperava no país entre simpatizantes e opositores de Morales.
O que simpatizantes do ex-presidente Evo Morales chamam de ‘golpe’, na verdade foi um contragolpe ao intento de autogolpe perpetrado pelo líder da esquerda. Em 20 de outubro de 2019, ele foi eleito inconstitucionalmente para um quarto mandato. Por conta da pressão recebida em decorrência dos conflitos que surgiram, com centenas de manifestantes feridos e outras centenas de detidos, ele decidiu renunciar no dia 10 de novembro daquele ano.
Uma auditoria da Organização dos Estados Americanos (OEA) constatou que houve suposta manipulação de dados durante a computação dos votos, o que o fez trocar os dirigentes da justiça eleitoral.
É preciso frisar que Jeanine Áñez não invadiu o palácio presidencial. Enquanto senadora, ela foi instada pela força do cargo a assumir interinamente o comando do país por estar na linha de sucessão. Na época, o vice-presidente Álvaro García Linera e os presidentes do Senado e da Câmara haviam renunciado. Ela tinha prometido revocar a decisão da suprema corte que favoreceu Evo Morales e convocar novas eleições.
Ficou evidente que Evo Morales tentou transformar sua renúncia em golpe de estado, construindo uma narrativa para se vitimizar e alegar que não conseguiu concluir o terceiro mandato, que terminaria no início do ano seguinte.
Morales assumiu a presidência pela primeira vez em 2006. Já no ano de 2009, conseguiu aprovar nova constituição, permitindo uma reeleição consecutiva. Em 2016, realizou um referendo para saber se a população concordava de que ele concorresse novamente em 2019, e a resposta foi ‘não’. Em 2017, a suprema corte, aparelhada, permitiu sua candidatura, ao alegar que limitar seus mandatos seria uma violação dos direitos humanos. Isso só demonstra que ele não soube respeitar a constituição que seu governo fomentou nem a soberania popular.
Em outubro de 2020, em meio ao exílio do ex-presidente, Jeanine Áñez desistiu de concorrer ao posto. E a população elegeu Luis Arce, também do MAS e na época aliado de Evo Morales. No decorrer do mandato, os dois socialistas romperam os vínculos políticos.

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