‘Deus, Família e Pátria’: o lema que marca a guinada política da Bolívia com Rodrigo Paz

Segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Candidato de partido de centro-direita, mas com DNA de esquerda, vence o segundo turno das eleições para presidente e marca o fim da hegemonia política socialista no país

Imagem: Redes Sociais - Divulgação
A imprensa registra o momento em que Rodrigo Paz deposita o voto na urna durante o segundo turno

O senador de centro-direita da Bolívia Rodrigo Paz, de 58 anos, do Partido Democrata Cristão (PDC), celebrou seu triunfo nas urnas com um discurso de agradecimento, cujo lema ‘Deus, família e pátria’ marca uma guinada política do país andino. Sua fala mistura fé, a preservação de valores tradicionais, nacionalismo e promessa de estabilidade. Ele foi eleito presidente com 54,6% dos votos no segundo turno ocorrido nesse domingo (19/10).

“Quero, primeiramente, agradecer ao nosso Deus (...), porque é um Deus bendito que também dá audácia para tomar decisões que levam à pátria e que levam a momentos como esse. Por isso, estou agradecido, como eu disse muitas vezes na campanha em nome de todos vocês. Deus, a família e a pátria são a base de uma visão que temos a respeito dos nossos compromissos com toda a Bolívia, com todos os bolivianos e todas as bolivianas. Por isso, à família boliviana, à pátria e a Deus, obrigado, obrigado, obrigado de todo o coração (...)”, agradeceu o futuro mandatário.

Mais do que uma expressão clichê e de efeito comumente utilizada por políticos conservadores, a fala reforça uma ruptura política de duas décadas de hegemonia do Movimento ao Socialismo (MAS). Sob Evo Morales, a Bolívia foi transformada num reduto da esquerda latino-americana, com forte alinhamento ideológico aos ditadores venezuelanos Hugo Chávez e Nicolás Maduro, além do nicaraguense Daniel Ortega, por exemplo.

A mudança de ares políticos reflete a insatisfação e a indignação dos bolivianos com a esquerda e com os rumos da economia. O país tem enfrentado crises políticas, além de alta inflação e escassez de alimentos, de divisas e de combustível.

A trajetória de Rodrigo Paz Pereira é marcada por um paradoxo. Embora esteja num partido de centro-direita, seu DNA político é 100% de esquerda, o que soa irônico. Ele é filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora, que fundou o Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR, na sigla em espanhol) em 1971. Esta organização política, incluindo outras sete, teve o registro cassado pela justiça eleitoral em 2006, por não ter alcançado o mínimo de 2% dos votos válidos em território nacional ou regionalmente durante o pleito daquele ano. O percentual é um requisito legal para a manutenção das legendas.

Nascido na Espanha devido à carreira política do pai e ao exílio da família durante a ditadura militar na nação sul-americana, Rodrigo Paz é naturalizado boliviano e senador por Tarija desde 2020. Já foi deputado e também prefeito pelo mesmo departamento e cidade, respectivamente.

O futuro mandatário disputou o segundo turno com o ex-presidente Jorge ‘Tuto’ Quiroga, da coalizão conservadora Aliança Livre. O adversário logrou 45,39% dos votos válidos, segundo o Tribunal Supremo Eleitoral (TSE).

Na primeira rodada eleitoral ocorrida no último dia 17 de agosto, nenhum candidato obteve o mínimo de 50% dos votos válidos. No entanto, a data marcou o histórico rompimento dos bolivianos com a esquerda.

Ainda não está claro se a vitória de um candidato de direita na Bolívia seria caso isolado ou uma tendência política para os próximos anos na América do Sul.

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