Leão XIV: o papa da ilusão

Segunda-feira, 22 de agosto de 2025

Em entrevistas publicadas em biografia, o novo pontífice defendeu a família tradicional formada por homem e mulher e disse não ter nenhum plano de engajamento da comunidade LGBTI+ à doutrina católica

Imagem: Vatican News - Redes Sociais
Leão XIV durante a vigília de oração do Jubileu da Consolação na
Basílica de São Pedro, no último dia 15 de setembro

Está repercutindo na imprensa internacional a defesa que o papa Leão XIV (foto) fez em torno do matrimônio e da família tradicional formada por homem e mulher, conforme publicado pela jornalista Elise Ann Allen, do portal de notícias Crux – voltado para o universo católico –, na última quinta-feira (18/9).

A reportagem coincide com o lançamento do livro “Leão XIV: cidadão do mundo, missionário do Século XXI”, escrito por essa repórter e impresso pela editora Penguin Peru. O posicionamento do pontífice consta no último capítulo de sua biografia e é fruto de duas entrevistas feitas nos dias 10 e 30 de julho deste ano.

Embora tenha defendido a inclusão social de pessoas ligadas à comunidade LGBTI+, o sumo sacerdote disse não ter, no atual momento, nenhum plano específico para o engajamento desse público à doutrina católica. Sustentou que “está tentando não continuar a polarizar nem promover a polarização na igreja”, e sim estimular atitude adotada por seu antecessor, papa Francisco, de que “todos são convidados a entrar, mas eu não convido uma pessoa porque ela tem ou não uma identidade específica”.

Ademais, o novo dirigente do Vaticano descartou a possibilidade de ordenação de mulheres a diaconisas, o que reforça um pensamento machista, e de outras reformas mais profundas na Igreja Católica.

Em defesa própria, Leão XIV argumentou repetir o gesto de Francisco sobre o valor de família como “ser um homem e uma mulher em compromisso solene, abençoados no sacramento do matrimônio”.

Embora tenha defendido o conceito de família tradicional nas figuras masculina e feminina, com base na doutrina religiosa, o falecido papa argentino foi ousado ao romper paradigmas, pronunciando-se a favor de que pessoas homossexuais tivessem o direito de fazer parte de uma família e ao instar a união civil entre indivíduos do mesmo gênero.

Mais do que isso: durante seus 12 anos de papado, Francisco revolucionou a Igreja Católica, dentro de suas limitações – tendo em vista a forte resistência de sacerdotes conservadores aos valores inclusivos defendidos –, e abriu caminho para se repensar o futuro da maior instituição religiosa do mundo.

Com base na Bíblia, que rechaça a união homoafetiva, é improvável que a igreja altere seu posicionamento acerca do tema. Contudo, os tempos mudaram e certas questões precisam ser revistas, não de fora para dentro, mas o contrário, de modo introspectivo, levando-se em conta os inúmeros casos de padres e demais sacerdotes católicos gays e/ou envolvidos em abusos sexuais contra menores de idade, cujas vítimas são, geralmente, meninos.

Existe um ditado que diz “faz o que eu falo, mas não o que eu faço”. Portanto, manter um pensamento conservador ferrenho em defesa de supostos valores tradicionais denota hipocrisia e pode ser uma maneira de se esconderem perante uma sociedade, que cada vez mais se alimenta de dogmas para sustentar seus preconceitos.

Ainda está muito cedo para fazer uma análise mais profunda acerca da gestão de Leão XIV – estadunidense com nacionalidade peruana –, até porque ele só começou no cargo há pouco mais de quatro meses e isso seria injusto com ele. No entanto, não se deve ter perspectivas de grandes mudanças ou revoluções de sua parte. O que se percebe é que o novo pontífice está tentando se equilibrar entre o progressismo e o conservadorismo para “pacificar” a própria igreja e, quem sabe, acabar com rixas internas e evitar travar conflitos desnecessários com eventuais adversários.

Os simples fatos de que Leão XIV seja considerado “latino” e sido indicado como cardeal por Francisco não significam que ele adotará as mesmas práticas. É ilusão acreditar nisso, de que um será a cópia do outro. Ou talvez não esteja preparado para essa grande batalha espiritual como seu antecessor. E como qualquer líder religioso, certamente, pretende deixar sua própria marca na história do Vaticano.

Embora não se possa ou não se deva moldar uma doutrina conforme os fiéis, porque a base primária é o contrário, é possível ao menos reduzir os preconceitos, criando uma consciência coletiva de respeito e de amor ao próximo. Tampouco, espera-se que as coisas mudem da noite para o dia. Isso leva bastante tempo. Mas, para tanto, tais transformações precisam começar dentro da própria instituição religiosa e aos poucos transmitidas aos católicos.

Num contexto geral, as religiões têm como função doutrinar sobre valores morais, então precisam ser mais atuais e abordar em seus cultos e pregações temas como igualdade de gênero, violência doméstica, misoginia, racismo, homofobia, violência sexual, entre outras questões que afetam os fiéis e, em determinados casos, mancham a reputação institucional, principalmente quando os envolvidos são sacerdotes e deveriam dar o exemplo.

Os posicionamentos de Leão XIV na defesa da família heterossexual vão ao encontro do crescimento da extrema direita no mundo, que é contra valores inclusivos e ao que consideram cultura “woke”.

Francisco sempre será lembrado por seu legado e postura diante dos inúmeros desafios no comando da maior seita religiosa do planeta. Ele deu o pontapé inicial para reformular a visão do mundo em relação ao catolicismo e vice-versa. Todavia, seu nome e memória não podem ser invocados para justificar certas decisões e posturas, tampouco para simplesmente atrair a simpatia dos fiéis.

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