‘Estou avisando pro teu bem’, diz líder sindical a repórter

Domingo, 29 de abril de 2018

Presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul intimida repórter que cobria ataque a acampamento pró-Lula

Um vídeo (abaixo) que circula pelas redes sociais mostra o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors), Milton Simas Júnior, supostamente, intimidando o jornalista Marc Sousa, do canal RIC Paraná, afiliada da Rede Record. O profissional fazia a cobertura do ataque sofrido por movimentos sociais pró-Lula, nesse sábado (28/4), que estão acampados próximo a uma unidade da Polícia Federal em Curitiba, no Paraná, em solidariedade ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ex-mandatário foi condenado a 12 anos e 1 mês de prisão por supostos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no âmbito da operação Lava-Jato, que investiga a roubalheira na Petrobras, e está preso desde o último dia 7 deste mês.

“(...) Se vocês falarem mal do acampamento, vá lá para o lado de onde está o carro da polícia. Eu sou jornalista, sou teu colega, estou te avisando que é para preservar a tua integridade. Ó, o povo está vindo tudo aí”, recomendou o sindicalista.

“Mas, não posso gravar aqui? É isso?”, questionou o repórter.

“Não seria recomendável para quem fala mal de movimento social. Ou tu ficas lá do lado da polícia. Estou te avisando pro teu bem (...); acho que a imprensa está toda junta no golpe, Record, Band, parara, tudo isso aí. Eu sou do Rio Grande do Sul, sou presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul. Estou avisando pro teu bem”, finalizou o líder sindical.

Vídeo: Divulgação


Em nota, o Sindjors afirmou que a intenção do dirigente era a de proteger o repórter, ‘exatamente como deve agir quem representa uma categoria’, e que Milton Simas luta ‘não apenas pela liberdade de Lula, mas pela democracia, pela liberdade de expressão e de imprensa’.

“(...) Com o clima tenso, em função do atentado da madrugada, era impossível saber se o repórter poderia ser ou não agredido, se dissesse alguma coisa que contrariasse os princípios defendidos no acampamento. Por isso, aconselhei que ele fizesse a gravação perto do policiamento, a fim de garantir a integridade dele. Como estamos acostumados a fazer no nosso Estado, defendendo os interesses da categoria”, justificou o presidente do Sindjors.

A entidade sindical também alegou que o vídeo, gravado pelo cinegrafista da emissora, estaria sendo utilizado de ‘forma distorcida’.

O acampamento Marisa Letícia, em homenagem à falecida ex-primeira-dama, foi alvo de tiros nesse sábado (28/4). Ao menos duas pessoas ficaram feridas, segundo a imprensa local. O ataque motivou protestos com barreira de fogo, impedindo o fluxo de veículos por algumas horas. A autoria do crime está sendo investigada.

Em nota, o Partido dos Trabalhadores (PT) disse que foram mais de 20 tiros disparados e que um dos manifestantes foi internado em estado grave.

“O ataque é mais um episódio de violência política contra a democracia e acontece um mês depois de tiros terem atingido ônibus da caravana Lula Pelo Brasil no interior do Paraná. Até agora não foram presos os autores dos disparos feitos no mês passado e tampouco os de ontem”, declarou a legenda, que afirmou também que a escalada de atentados e assassinatos contra representantes de movimentos sindicais e sociais aumentou após o suposto golpe – impeachment – que depôs a ex-presidente Dilma Rousseff.

O suposto vínculo do sindicalista com o movimento que pede a liberdade do ex-presidente, especialmente a parte na qual acusa veículos da grande imprensa de suposta participação no impedimento da petista, reforça a impressão de estar intimidando o repórter. Até porque Curitiba, no Paraná, não é área de atuação do Sindjors, que fica no Rio Grande do Sul.

Pela segunda vez este mês, o prefeito de Curitiba, Rafael Greca (PMN-PR), pediu a transferência do petista para tentar diminuir o acirramento entre grupos contrários à prisão e os favoráveis. No dia 7 deste mês, data que o petista foi conduzido ao estado sulista, a administração municipal logrou uma liminar, estabelecendo multa diária de R$ 500 mil para qualquer tipo de ocupação nas proximidades de onde o ex-presidente está preso, no bairro Santa Cândida. Os manifestantes foram transferidos para um terreno particular na região.

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