Talvez o Rio mereça medalha de ouro em corrupção nas Olimpíadas de 2016

Sexta-feira, 03 de março de 2017

Escolha do Rio de Janeiro como cidade-sede pode ter sido comprada, segundo jornal francês

Imagem: Portal Brasil / Reprodução /
Creative Commons
Medalhas de ouro Rio 2016
O Brasil logrou sete medalhas de ouro durante as Olimpíadas de 2016, e talvez mereça mais uma em modalidade inédita: corrupção. Reportagem do diário francês “Le Monde”, desta sexta-feira (3/3), diz que a justiça francesa suspeita de que a escolha da cidade do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016 possa ter sido comprada. As investigações recaem sobre o empresário brasileiro Arthur Cesar Menezes Soares Filho – conhecido como “Rei Arthur” – do grupo Facility.

Em 29 de setembro de 2009, três dias antes da cerimônia que apontaria a cidade-sede dos eventos de 2016 – em 02 de outubro de 2009 –, uma empresa ligada a Arthur Cesar teria, supostamente, transferido US$ 1,5 milhão para a conta do filho de Lamine Diack, membro do Comitê Olímpico Internacional e presidente da Federação Internacional de Atletismo (IAAF, na sigla em inglês). A suspeita é de que a grana serviu para comprar o voto a favor da “Cidade Maravilhosa”.

Em 2015, por exemplo, Lamine Diack foi investigado num suposto esquema de corrupção, para encobrir atletas que eram reprovados em exames antidoping.

Uma investigação preliminar para apurar um suposto esquema de corrupção envolvendo a IAAF tinha sido aberta em dezembro de 2015 pelo Ministério Público da França, segundo o periódico europeu.

Amigo do ex-governador fluminense Sérgio Cabral (PMDB-RJ), quem está preso preventivamente desde novembro passado durante a operação Calicute, um dos desdobramentos da Lava-Jato, estima-se que “Rei Arthur” tenha faturado cifras estimadas entre R$ 2 bilhões e R$ 3 bilhões em contratos com o governo estadual do Rio de Janeiro, por meio de terceirização de mão de obra. Recentemente, o empresário teve de dar explicações à Justiça brasileira a respeito do repasse de R$ 1 milhão ao escritório da advogada Adriana Ancelmo – ex-primeira-dama quem também está detida no escândalo que envolve o marido – por supostos serviços contratados.

O Rio, apesar dos altos índices de criminalidade e da ineficácia nos transportes públicos, venceu cidades como Chicago (Estados Unidos), Madrid (Espanha) e Tóquio (Japão). No ano passado, por exemplo, o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, levantou a suspeita de que a eleição das cidades-sedes fosse algo “arranjado”.

Os Jogos Olímpicos de 2016 encerraram a “belle époque” – “bela época”, em francês, cujo significado está atrelado à fase de transformações urbanas e culturais – vivida pela “Cidade Maravilhosa”, que acolheu também os Jogos Pan-Americanos de 2007, os Jogos Mundiais Militares de 2011, o Campeonato Mundial de Judô de 2013 e a Copa do Mundo de 2014.

“Legado”


Cada vez mais os brasileiros se convencem de que o suposto “legado” deixado pelos eventos esportivos (Copa do Mundo de 2014 e Jogos Olímpicos de 2016) não foram estádios modernos, transportes como BRT (para ônibus) e VLT (para bonde), tampouco a criação da linha 4 do metrô ligando Ipanema a Barra da Tijuca, e sim a corrupção – que parece ser um modus operandi tupiniquim mundo afora – e o desperdício de dinheiro público que agravou a crise financeira no país e em alguns estados, como o próprio Rio de Janeiro, por exemplo.

Definitivamente, o Rio não precisava de tais eventos para justificar as obras de melhoria. Existe a linha 4, mas não a linha 3, cujo plano seria ligar pela Baía de Guanabara Botafogo, na Zona Sul, ao município vizinho de Niterói.

Os gastos “olímpicos” com obras em estádios, infraestrutura em transportes e serviços, ademais a organização dos jogos de 2016 chegaram perto dos R$ 40 bilhões.

Os servidores do governo fluminense sentem na pele os efeitos nefastos da corrupção e da gastança: desde 2015 estão com salários atrasados e constantemente parcelados tipo “Casas Bahia”. Aliás, não só eles, como também o cidadão que vai aos hospitais e não conseguem ser atendidos por falta de médicos e/ou de medicamentos, por exemplo, já que o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB-RJ) é acusado por deputados do Partido Socialismo e Liberdade (Psol) de não ter investido o mínimo de 12% do orçamento estadual em 2015.

Em dezembro passado, antes de deixar o mandato, o então prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB-RJ), encheu a boca para dizer que tinha deixado um saldo positivo nas contas da prefeitura. Ainda que se suspeitasse que a administração municipal pudesse estar quebrada, até então não haviam razões concretas para isso. Em fevereiro de 2017, o sucessor Marcelo Crivella (PRB-RJ) alertou para um suposto rombo de até R$ 4 bilhões nos cofres municipais, o que pode provocar atrasos salariais ao funcionalismo até o fim do ano se não houver contenção de despesas.

Não se pode culpar os eventos esportivos como os responsáveis pela crise financeira enfrentada pelo Rio de Janeiro e pelo país. No entanto, os mesmos podem ter reforçado um sintoma que já era crítica e que, possível e supostamente, se gestava ainda durante o ano eleitoral de 2014, porém que foi ocultado ou omitido para não atrapalhar reeleições.

Falta de criatividade


Na verdade, o constrangimento em relação aos jogos de 2016 começou cinco anos. Em 2011, para ser mais exato, quando veio à tona de que a logomarca dos eventos era bastante similar à de uma ONG nos Estados unidos. Em 2012, por exemplo, a prefeitura de Huatabampo, no México, se inspirou na mesma falta de criatividade para criar o logotipo que seria a idade daquela gestão.

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