Para moradores de periferias de SP, não existe o nós contra eles, diz pesquisa

Terça-feira, 28 de março de 2017

A polarização como uma falácia política


Imagem: FPA / Reprodução
Pesquisa invalida a lógica petista
Pesquisa divulgada pela Fundação Perseu Abramo (FPA) – ligada ao Partido dos Trabalhadores (PT) –, no último fim de semana, evidencia a existência de dois Brasis: um deles é o que a legenda prega em seus discursos de campanha e peças publicitárias como o de um país de dualidade, o do nós contra eles, o dos pobres contra os ricos, o dos empregados contra os patrões e o do socialismo contra o capitalismo opressor; o outro é o Brasil real, de uma classe à qual o partido jura defender, mas que tem pouco tempo a perder com rixas ideológicas, porque está focada no individualismo, a olhar mais para si mesma e para a sua ascensão social.

A pesquisa entrevistou 63 moradores de periferias de São Paulo, de diferentes faixas etárias e salariais, dos gêneros masculino e feminino e também com algum tipo de religião. Um dos objetivos era analisar as percepções de consumo durante as gestões petistas de Luiz Inácio Lula da Silva (SP) e Dilma Rousseff (RS), da importância da família e da religião no caráter de um indivíduo e a de Estado versus iniciativa privada.

Para os entrevistados, não existe essa do nós contra eles. “A polarização política não é bem definida ou é inexistente para o público estudado”, analisou a FPA.

“Palavras que limitam os campos e são utilizadas, inclusive, de maneira pejorativa em disputas políticas (‘reaça’ e ‘coxinha’ ou ‘conservador X ‘progressista’) não habitam o imaginário desta população”, completou.

“No imaginário da população não há luta de classes; o ‘inimigo’ é, em grande medida, o próprio Estado ineficaz e incompetente, abre-se espaço para o ‘liberalismo popular’ com demanda de menos Estado”, concluiu.

“Trabalhador e patrão são diferentes, mas não existe no discurso da relação de exploração: um precisa do outro, estão no mesmo ‘barco’”, sustentou a pesquisa.

“Direita é quem vive direito, correto. Esquerda é quem vive reclamando; eu acho que a direita é quem estar no poder e a esquerda é a oposição”, opinou um entrevistado que foi apenas identificado como sendo do gênero masculino, 30 anos, branco e de renda média entre dois a cinco salários mínimos.

Para a população de baixa renda, o conceito de comunidade está mais ligado à família, à vizinha e à igreja do que a associações comunitárias e coletivos.

Referenciais de sucesso


Para os moradores de favelas entrevistados, os referenciais de figuras públicas bem-sucedidas são: Lula (PT-SP), o apresentador Sílvio Santos e o prefeito de São Paulo, João Dória Jr. (PSDB-SP), porque foram pessoas que ‘vieram de baixo’ e cresceram por mérito próprio. São três perfis completamente distintos: 

Lula (PT-SP) foi um metalúrgico, com pouco estudo, que se aposentou cedo depois de um acidente de trabalho, liderou um sindicato, criou um partido político e foi eleito presidente da República por duas vezes.

Sílvio Santo foi um camelô, se tornou apresentador de TV, tem sua própria emissora, até pouco tempo era dono de um banco, e é um referencial de honestidade incontestável. Chegou a se candidatar como presidente na década de 90, mas saiu do cenário político com a mesma rapidez que entrou.

João Dória Jr. (PSDB-SP), apesar de não ter vindo de baixo, é um empresário de sucesso, herdou o talento do pai, que era publicitário, e faz de seu mandato um marketing político e pessoal – não é visto como populista, mas como um ‘gestor’ –, criou seu próprio programa de televisão, e por não estar involucrado em escândalos de corrupção poderá furar a fila entre os pretendentes de seu partido, PSDB, e se tornar candidato a presidente em 2018. Vai depender das pressões internas, dos puxões de tapetes e do futuro da Lava-Jato, operação que investiga da roubalheira na Petrobras, a qual alguns políticos tucanos são mencionados como supostos receptores de doações de campanha via caixa dois por empreiteiras envolvidas.

Senso crítico e rejeição


Os entrevistados veem as políticas públicas como importantes, mas rechaçam as que consideram ‘duvidar’ de suas capacidades individuais, como as políticas de cotas. Numa sociedade onde o rico estuda em faculdade pública e o pobre em particular, as políticas públicas buscam equilibrar esse patamar, porém de modo negativo: o Estado não melhorou a qualidade da educação e passou a nivelar por baixo.

O Estado é o grande vilão no julgamento dos entrevistados: cobra demasiada carga de impostos, mas não dá o devido retorno em educação e saúde, por exemplo. Por isso, muitos almejam colocar os filhos para estudar em colégios particulares, porque, como pagantes, terão a quem cobrar pelo serviço prestado, enquanto que com o ensino público e gratuito, não. Sem contar que, geralmente, quem faz greve é professor da rede pública.

Para os leigos, tudo é governo: Executivo e Legislativo. Há uma generalização. Não fazem diferença entre ambos, e têm dificuldades em distinguir as atribuições dos executivos federal, estadual e municipal. Essa falta de entendimento é consequência de governos que buscam reforçar o patrimonialismo estatal e aparelhar as outras esferas de poder.

Para os entrevistados, a carteira assinada ainda representa uma segurança, por conceder direitos como férias, 13º salário, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), entre outros.

Apesar de virem com maus olhos a mistura entre política e religião, mais precisamente líderes religiosos se candidatando a cargos políticos, os entrevistados disseram que votariam neles, por acreditar que seriam capazes de moralizar a política, ao mesmo que tempo que a veem como um elemento capaz de desvirtuar caráter. Na verdade, a política não corrompe ninguém, o indivíduo apenas encontra oportunidade para manifestar o que realmente é, fazendo valer o ditado ‘a ocasião faz o ladrão’.

A pesquisa também mostrou que eleitores que votaram no PT de 2002 a 2012, não votaram na reeleição da Dilma Rousseff (PT-RS) para presidente em 2014 nem da de Fernando Haddad (PT-SP) para prefeito em 2016. Está claro o descontentamento com a legenda, por conta dos casos de corrupção que vieram à tona nos últimos anos, tais como Mensalão e Petrolão.

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